
A OpenAI parece querer repetir o que o Facebook tentou fazer há quase vinte anos: transformar sua ferramenta principal em uma plataforma universal.
No “Dev Day 2025”, Sam Altman anunciou o Apps SDK, um kit de desenvolvimento que permite criar aplicativos diretamente dentro do ChatGPT. A mudança representa uma transição marcante — de um simples chatbot para um sistema operacional conversacional.
Agora, o usuário pode solicitar tarefas complexas e interativas, como “Canva, crie uma apresentação para o meu negócio” ou “Zillow, mostre-me casas à venda em Pittsburgh”, sem sair da interface.
Esse reposicionamento coloca o ChatGPT como um ambiente onde diferentes serviços se conectam por meio da linguagem natural. Em vez de alternar entre sites e aplicativos, o usuário escreve um comando, e o ChatGPT executa as ações de forma imediata, integrando resultados com gráficos, vídeos ou mapas.
A integração reflete a ambição da OpenAI de tornar o ChatGPT o centro de uma nova camada da internet — uma web conversacional.
Paralelos com o Facebook de 2007
O movimento lembra fortemente o que o Facebook tentou fazer em 2007, quando lançou a “F8 Conference” e apresentou sua “plataforma social”. A empresa convidou desenvolvedores a criar aplicativos sobre o chamado “gráfico social”, base de conexões entre usuários.
Dessa iniciativa nasceram fenômenos como o FarmVille, que chegou a representar até 12% da receita da rede.
Assim como Mark Zuckerberg buscava transformar o Facebook em um portal de entrada para a vida digital, Sam Altman quer que o ChatGPT seja a principal interface para o trabalho, compras, estudos e viagens.
Segundo Nick Turley, chefe de produto da OpenAI, o plano é fazer o ChatGPT evoluir de uma ferramenta útil para um “sistema operacional baseado em conversas”. A estratégia busca reforçar a OpenAI não apenas como desenvolvedora de modelos de linguagem, mas como a nova infraestrutura da web assistida por IA.
Além do Apps SDK, a empresa também lançou o AgentKit, que permite criar agentes autônomos dentro do ecossistema do ChatGPT. Os agentes podem planejar e executar tarefas, conectar-se a sistemas externos e até aprender com o tempo.
A combinação entre aplicativos e agentes inteligentes amplia o alcance da plataforma e cria um ecossistema de desenvolvimento que reforça o domínio da OpenAI sobre a experiência digital do usuário.
O risco do poder excessivo e da privacidade
O Facebook provou o perigo de um modelo tão centralizado. A abertura indiscriminada a desenvolvedores levou ao colapso do projeto após o escândalo Cambridge Analytica, que expôs dados de milhões de usuários.
A OpenAI promete regras rígidas e auditoria de privacidade, exigindo de desenvolvedores políticas explícitas de dados. Mas existe um detalhe que precisa ser levado em consideração: o ChatGPT não processa apenas perfis sociais, mas conversas pessoais e profissionais — dados potencialmente muito mais sensíveis.
Jornalistas como Casey Newton, do Platformer, alertam que o “gráfico de IA” pode ser ainda mais arriscado que o gráfico social. Qualquer falha de segurança, permissão indevida ou uso não autorizado da informação poderia ter efeitos devastadores, inclusive na confiança pública em modelos generativos.
O ChatGPT possui mais de oitocentos milhões de usuários semanais, e isso torna tentadora a ideia de integrar publicidade ou recomendações pagas. Altman já admitiu que há preocupações internas sobre o risco de comprometer a confiança dos usuários caso aplicativos patrocinados sejam priorizados.
A promessa oficial é de neutralidade, mas o histórico do setor — com Google, Facebook e Amazon — mostra que o incentivo econômico costuma prevalecer sobre a pureza da experiência do usuário.
A nova estratégia impacta diretamente startups que dependiam da API do ChatGPT para criar soluções complementares. Aplicativos que ofereciam “ChatGPT + X” agora competem com a própria OpenAI, que passou a integrar essas funções de forma nativa em sua interface.
É o mesmo padrão de centralização que ocorreu com o Facebook em sua era de domínio, quando mudanças na API destruíram negócios inteiros que se apoiavam na plataforma. Startups de nicho podem se ver obrigadas a operar dentro do ecossistema da OpenAI ou perder relevância rapidamente.
Uma nova web sob o filtro da OpenAI?
A direção da OpenAI é evidente: criar uma camada unificada de interação digital onde tudo ocorre dentro da sua plataforma. A introdução de ferramentas como Sora, voltada a vídeos e redes sociais, e o protocolo de comércio integrado reforçam essa ideia. O ChatGPT pode se tornar a principal porta de entrada da internet — uma internet mediada por IA.
A pergunta é se isso resultará em uma web mais eficiente e acessível ou em um ambiente fechado e monopolizado. Assim como o Facebook no passado, a OpenAI enfrenta o dilema entre expansão e responsabilidade.
Caso consiga equilibrar inovação e transparência, poderá consolidar o modelo conversacional como a nova interface universal da era digital. Se falhar, repetirá o mesmo erro que quase destruiu o sonho das plataformas abertas.
Via Plattformer, TechCrunch, Venturebeat

