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O celular barato vai deixar de existir?

A cena era quase corriqueira até recentemente: entrar numa loja, física ou virtual, e encontrar um smartphone com 8 GB de RAM, 256 GB de armazenamento e um preço equivalente a menos de R$ 1.500. Esse é o valor médio que a grande maioria dos brasileiros paga em um smartphone, o que já é considerado algo elevado dentro do contexto de quem tem que se virar para sobreviver com um salário-mínimo por mês.

Nos últimos dois anos, smartphones de entrada e de linha média – mesmo em dispositivos com configurações mais modestas — representavam o ápice de uma era dourada do custo-benefício.

Mas uma espécie em extinção modificou completamente o cenário, e investir esse dinheiro em um telefone básico e minimamente decente está se tornando algo impossível em 2026, diante de uma quebra de paradigma na indústria móvel.

O que parecia uma conquista permanente do consumidor revela-se, agora, uma janela que se fechou de vez — e a responsável por essa virada é, em grande medida, a inteligência artificial.

 

A IA engolindo a memória do mundo

Para compreender por que o celular barato está desaparecendo das prateleiras, é preciso olhar para além das fronteiras do mercado móvel.

Empresas como OpenAI, Google, Meta, Amazon e Microsoft estão construindo data centers gigantescos para alimentar seus sistemas de IA — e esses data centers precisam de quantidades absurdas de memória RAM.

A demanda não é marginal: segundo o Tom’s Hardware, a utilização estimada para o projeto Stargate pode atingir 900 mil wafers de DRAM por mês, o que representa cerca de 40% da produção mundial total de memória.

O resultado desse movimento tectônico é direto e devastador para os fabricantes de celulares. E essa crise já afetou a todos os fabricantes de telefonia móvel, em maior ou menor grau.

Os fabricantes de DRAM (memória de uso geral, presente em celulares e PCs) e NAND (armazenamento interno, usado em SSDs e nos próprios smartphones) passaram a priorizar servidores e aceleradores de IA, relegando celulares, PCs e consoles a segundo plano.

O problema tem nome e sobrenome no mercado: HBM (High Bandwidth Memory).

A demanda por HBM, a memória usada por aceleradores de IA como os chips Nvidia Blackwell, cresceu tanto que absorve até três vezes mais wafer de silício do que a DRAM tradicional, segundo a empresa de análise de mercado NAND Research.

A concentração do setor aprofunda o problema. Três empresas — SK Hynix, Samsung e Micron — controlam 93% da oferta global de DRAM.

Todas registraram lucros recordes em 2025 e indicaram aos investidores que não pretendem expandir agressivamente a produção no curto prazo. Sem novos fornecedores relevantes no horizonte imediato, o poder de fixar preços migrou definitivamente para o lado da oferta.

 

Números que impressionam: a escalada sem precedentes

A magnitude dos aumentos de preço que ocorreram entre o final de 2025 e o início de 2026 não tem paralelo recente na história do setor. A RAM (DRAM) sofreu um aumento trimestral de mais de 50%, enquanto o NAND Flash teve uma alta ainda mais agressiva, ultrapassando 90% em comparação com o trimestre anterior.

A Samsung finalizou os contratos de fornecimento de DRAM para o segundo trimestre de 2026 com uma alta média de 30% sobre os preços do trimestre anterior, reajuste que vem logo após o fabricante ter praticamente dobrado os preços no primeiro trimestre.

O horizonte de médio prazo também não oferece alívio: os preços de contrato do LPDDR5, memória presente em smartphones e dispositivos móveis de alto desempenho, já triplicaram desde o primeiro trimestre de 2025, chegando a cerca de US$ 10 por GB, com projeções de nova alta de dois dígitos em percentual para 2027.

Os preços das memórias DRAM e NAND devem continuar subindo de forma significativa no segundo trimestre de 2026, segundo dados da TrendForce.

A previsão aponta que contratos de DRAM convencional podem registrar aumentos de até 63% em relação ao trimestre anterior, enquanto a memória flash NAND pode sofrer uma elevação ainda maior, chegando a até 75%.

Um executivo da indústria ouvido pela publicação sul-coreana ETNews foi categórico ao descrever o ambiente:

“Ainda há muitos clientes competindo para garantir DRAM com antecedência, o que nos permite elevar os preços em cima da base do primeiro trimestre. No momento, não vemos nenhum sinal de estabilização ou queda nos preços em torno da demanda de IA.”

 

Quem paga a conta é o consumidor da faixa de entrada

Os aumentos não afetam a todos de maneira uniforme. A distribuição do impacto revela uma assimetria brutal, e são os compradores de aparelhos mais baratos que saem mais prejudicados.

O custo do DRAM passou a representar 35% do custo total de materiais de um aparelho entry-level, enquanto a memória NAND adiciona outros 19%. Juntos, esses dois componentes respondem por mais da metade do custo de fabricação de um celular básico.

Na faixa de entrada (US$ 200 ou menos), com uma configuração típica de 6 GB + 128 GB, as memórias já representam 43% do custo total do dispositivo, com estimativa de aumento de US$ 30 por unidade.

No segmento médio (US$ 400–600), a combinação pode significar entre US$ 60 e US$ 80 por unidade. Na faixa premium (acima de US$ 800), os aumentos ficam entre US$ 100 e US$ 150, e começarão a se refletir nos lançamentos da segunda metade do ano.

Consultorias como IDC e Counterpoint calculam que o aumento de preço da memória já elevou em 20%–30% o custo de materiais de celulares mais baratos em 2025. Para 2026, a expectativa é de alta adicional na casa dos 8%–10% no custo final dos dispositivos.

Em casos mais extremos, o choque é ainda mais violento. Chips DDR4x de 4 GB passaram de cerca de US$ 7 para mais de US$ 30 no atacado, quadruplicando o custo desse único componente em aparelhos baratos.

 

Entre o corte de specs e o repasse de preço

Diante de margens que já eram apertadas na faixa de entrada, os fabricantes não têm saída fácil. As respostas à crise seguem três caminhos principais — e nenhum deles é favorável ao consumidor.

O primeiro é simplesmente repassar o aumento ao preço final.

A previsão de subida do preço médio de venda ronda os 6,9%, uma vez que as marcas tentarão repercutir estes custos ou empurrar os compradores para modelos “Pro” mais caros, onde as margens de lucro são superiores.

O segundo caminho é a degradação silenciosa das especificações.

Os antigos 128 GB voltarão como padrão e, no pior dos casos, veremos retrocessos com o uso de memórias mais lentas e antigas (LPDDR4X) para tentar salvar os móveis na faixa média.

Já há projeções de que a participação de smartphones com 12 GB de RAM pode cair até 40%, enquanto a base de entrada volta a 4–6 GB, o que representa um inevitável retrocesso em relação ao que o mercado de entrada entregou nos últimos dois anos.

O terceiro caminho é o enxugamento de portfólios. Fabricantes estão cortando volumes de SKUs de entrada e enxugando o portfólio para preservar margens de lucro.

Na prática, pode-se esperar menos opções de celulares baratos nas prateleiras.

Fabricantes também estão reduzindo specs de câmeras, usando componentes mais antigos ou simplesmente entregando versões com menos memória RAM e armazenamento do que o ideal.

O Google Pixel 10a é citado como exemplo concreto: o aparelho é praticamente uma cópia do Pixel 9a do ano passado, mas com uma carcaça diferente e alguns recursos a menos.

 

Os fabricantes e suas posições desiguais

A crise não atinge a todos com a mesma intensidade.

O impacto desta crise não será uniforme, afetando de forma mais severa as marcas chinesas como Honor, Oppo e Vivo, que deverão registar quedas significativas nas suas expedições.

Em contrapartida, gigantes como Apple e Samsung, embora não imunes, encontram-se numa posição mais robusta para absorver estes choques devido à sua escala e integração vertical.

A retração nas projeções de vendas para 2026 está estimada em 3,4% para a Honor, e em 1,2% para OPPO e vivo. A Xiaomi, por sua vez, já reconheceu publicamente o problema: a empresa vê seu modelo de negócios ameaçado e já admite que o aumento da memória é o seu maior “peso” financeiro.

Mesmo marcas menores e mais focadas em nicho sofreram o impacto. A Nothing, do famoso Carl Pei, admite que terá que aumentar preços, declarando que a “era do silício barato” acabou, dando lugar à “era do design intencional”.

Do lado dos fabricantes de chips, a postura é de quem ocupa o lado confortável da equação. O padrão que emerge do mercado de memória em 2026 é o de uma indústria que inverteu sua lógica histórica.

Por décadas, o DRAM foi associado a ciclos de queda brusca de preços e superprodução. Agora, com a infraestrutura de IA consumindo capacidade em ritmo que os fabricantes não conseguem acompanhar, a narrativa mudou.

A frase que circula no setor resume o momento com precisão desconcertante:

“Hoje é o dia mais barato para comprar memória.”

Isso chega a ser até cretino de se ler.

 

O impacto para o Brasil

Para o consumidor brasileiro, a situação tem contornos ainda mais preocupantes.

No Brasil, o impacto tende a ser mais forte nos aparelhos vendidos por operadoras e no varejo popular, justamente o grosso do volume de vendas. Nesses segmentos, uma diferença de poucos dólares por unidade em memória pode inviabilizar promoções, ofertas com desconto e planos subsidiados.

O mercado nacional ainda convive com a tributação elevada sobre eletrônicos importados, fator que amplifica qualquer aumento de custo na cadeia global. Com o real historicamente pressionado frente ao dólar, os repasses de alta de componentes tendem a chegar ao consumidor final com um adicional considerável em relação ao que se observa em mercados desenvolvidos.

Segundo a IDC, o cenário não é de ascensão e queda típica, mas sim uma realocação da capacidade de silício que pode persistir por anos, e não somente trimestres.

Para um país onde uma parcela significativa da população ainda acessa a internet exclusivamente pelo celular, e onde o mercado de entrada representa o maior volume de vendas, trata-se de um retrocesso com consequências que vão além do simples consumo de tecnologia.

 

Quando isso vai acabar?

A pergunta mais urgente — quando os preços voltarão a cair — não tem resposta simples.

Nova capacidade relevante de produção dificilmente chegará ao mercado antes de 2027, o que mantém os fabricantes em posição confortável para ditar os termos por pelo menos mais alguns trimestres.

A chave está no equilíbrio entre expansão de capacidade produtiva e demanda por infraestrutura de IA. Analistas da TrendForce projetam que os preços de DRAM convencional devem subir entre 58% e 63% no segundo trimestre em termos anualizados, após alta de 90% a 95% no primeiro.

Nota: projeções sobre normalização de preços para 2027 em diante são especulativas e sujeitas a revisão, conforme o ritmo de expansão da infraestrutura de IA e de capacidade produtiva de memória pelos fabricantes.

As perspectivas para o restante de 2026, no entanto, são inequívocas: até o segundo trimestre de 2026, os preços da memória poderão subir ainda mais 40%, criando um ambiente onde os smartphones baratos se tornarão cada vez mais raros ou serão comercializados com especificações técnicas severamente comprometidas.

A era em que a tecnologia ficava mais barata a cada ano — uma premissa que moldou décadas de consumo — está sendo colocada em xeque não por uma falha de mercado, mas pela maior transformação tecnológica em andamento.

A IA quer a memória do mundo. E quem paga o preço mais alto por isso é justamente quem menos pode arcar com ele.