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O bizarro casamento entre Intel e Nvidia

Mal dá para acreditar que isso está acontecendo…

Essa é uma das parcerias entre empresas de tecnologia mais surpreendentes da década, ainda mais considerando o contexto de momento no mercado e, principalmente, o fato de serem duas concorrentes diretas dentro do segmento de semicondutores.

A Nvidia anunciou um investimento de US$ 5 bilhões na Intel, marcando uma surreal reviravolta dentro do cenário de tecnologia. Duas gigantes que, historicamente, competiam de forma feroz no mercado de processadores e placas gráficas, agora estão juntas.

Tá, não é tão surreal assim quando pensamos que Samsung e Apple também são parceiras no setor de telefonia móvel. Mas precisamos entender melhor o que está acontecendo aqui, já que tudo pode ser um pouco confuso para quem não está tão por dentro dos paranauês da tecnologia.

 

Como vai funcionar esse investimento bilionário?

Preste atenção, pois pode ser um pouco complexo para os mais leigos.

A Nvidia vai adquirir ações da Intel ao preço de US$ 23,28 por ação, valor ligeiramente inferior ao fechamento de quarta-feira, mas superior aos US$ 20,47 pagos pelo governo americano, o que já faz com que o negócio seja bem interessante para a Intel.

O investimento, que aguarda aprovações regulatórias, vai conceder à Nvidia aproximadamente 4% de participação acionária na Intel após a emissão de novas ações, consolidando a empresa de Jensen Huang como um dos principais acionistas da fabricante de processadores.

Ainda é uma quantidade menor de ações em relação aos 10% da Intel que foram adquiridos recentemente pelo governo dos Estados Unidos. Por outro lado, é o suficiente para garantir para a Nvidia um lugar na mesa de futuras negociações da empresa.

O que é surreal, já que é uma concorrente direta cuidando do parquinho da Intel.

Pense no poder de decisão que a empresa tem sob a concorrência com esse acordo confirmado.

A parceria surge em um momento particularmente delicado para a Intel, que atravessa uma das piores crises de sua história, fruto de uma combinação de sequência de erros estratégicos com a ausência de visão objetiva do cenário de processadores em médio e longo prazos.

A empresa perdeu terreno em datacenters e computadores pessoais para concorrentes como AMD (que praticamente eliminou a distância tecnológica para os processadores da Intel), enquanto seu negócio de fabricação por contrato registra prejuízos bilionários.

As ações da Intel atingiram mínimas de mais de uma década, forçando cortes de custos e demissões em massa, situação que levou o governo americano a intervir com uma participação de 10% avaliada em US$ 8,9 bilhões.

E isso explica por que a Intel basicamente “se vendeu” para uma adversária direta. Porque a empresa ainda quer ser competitiva no segmento onde ela vai melhor.

 

Desenvolvimento de produtos conjuntos

Isso é ainda mais surpreendente do que o anúncio da parceria em si.

O acordo estabelece duas novas linhas de produtos estratégicas.

Para datacenters, a Intel desenvolverá processadores x86 personalizados que a Nvidia integrará em suas plataformas de inteligência artificial.

No segmento de computadores pessoais, a Intel criará chips híbridos que combinam processadores x86 com unidades gráficas RTX da Nvidia em um único componente.

Ambos os produtos utilizarão a tecnologia NVLink da Nvidia para comunicação de alta velocidade entre componentes.

Quem sai ganhando com tudo isso, de verdade, é a Nvidia, que consegue ter a sua tecnologia em mais uma fatia de mercado, obtendo os royalties por isso.

Não creio que a Intel vá além dos lucros obtidos por esse casamento no estilo “noiva troféu”, pois não ter o controle para esse desenvolvimento tecnológico significa perda de dinheiro e uma efetiva estagnação na busca de novas soluções.

Por outro lado, Intel e Nvidia agora desafiam abertamente a AMD, que vinha conquistando participação de mercado tanto da Intel quanto da Nvidia em segmentos de jogos e IA para laptops, e agora enfrenta uma coalizão de concorrentes dentro desse segmento.

A parceria também levanta questionamentos sobre o futuro das placas gráficas Arc da Intel e pode impactar a TSMC, atual fabricante dos principais chips da Nvidia.

Quando uma empresa joga US$ 5 bilhões na sua cara, você tem que deixar o passado para trás e esquecer que o que você já viveu existe.

Dito isso, não é um absurdo pensar que a Intel Arc está com os seus dias contados. Qualquer tecnologia da Nvidia é muito superior à tentativa da Intel em oferecer hardware gráfico competente e acessível.

 

Mercado financeiro deu cambalhotas

Nem é preciso pensar muito para concluir que o anúncio desse casamento bizarro entre Intel e Nvidia provocou uma reação explosiva nos mercados financeiros, com as ações da Intel disparando 30% nas negociações pré-mercado, atingindo o nível mais alto desde julho do ano passado.

Analistas interpretam o movimento como uma estratégia da Nvidia para diversificar investimentos nos Estados Unidos e fortalecer relações com o governo americano. Ao mesmo tempo, foi uma forma muito competente da Intel de chamar a atenção de todos para o seu negócio.

As empresas prometem “várias gerações” de produtos conjuntos, embora cronogramas específicos não tenham sido divulgados, o que indica claramente uma parceria de longo prazo.

E quem poderia imaginar que a AMD iria dar tanto trabalho, tal e como está fazendo neste momento.

Pode ser o respiro que a Intel precisava. Ou pode dar muito errado, e acabar com a empresa menor no futuro.

O tempo vai dizer.

 

Via Nvidia