NVIDIA, ARM, e a incerteza de um acordo com muitas ramificações

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O TargetHD.net cantou essa bola em julho de 2020, e agora temos a confirmação. A NVIDIA comprou a ARM por US$ 40 bilhões (a operação ainda precisa ser aprovada), e essa aquisição representa um gigantesco movimento no mercado de semicondutores. É a maior compra da história desse segmento, e coloca definitivamente a Intel nas cordas.

 

 

 

Um acordo histórico

 

 

A SoftBank pagou US$ 32 bilhões na ARM em 2016, e desde então a relevância da empresa de semicondutores só cresceu. Ela cria designs de chips que são licenciados para outros fabricantes desenvolverem os seus próprios microprocessadores, além de desenvolver instruções para o software controlar esse hardware.

Os designs da ARM estão voltados para o mercado de dispositivos móveis, e os seus designs estão em praticamente todos os telefones disponíveis no mercado. Logo, a NVIDIA acabou de comprar uma máquina de fazer dinheiro, e essa aquisição pode ter impactos em todo um ecossistema de tecnologia, indo da produção de dispositivos até o preço final desses produtos.

Não apenas a preocupação com os postos de trabalho dos atuais funcionários, mas existe a preocupação do governo britânico em ver uma empresa do Reino Unido acabar nas mãos de uma gigante norte-americana. E, principalmente, na manutenção da posição neutra que a ARM manteve até agora no mercado. Pode acontecer um conflito de interesse entre os atuais clientes da empresa de semicondutores, já que sua nova dona é uma concorrente direta nas vendas de processadores.

Sem falar que a ARM pode ser impedida de negociar com empresas chinesas, tal e como recentemente aconteceu com a Huawei (que não pode negociar com empresas norte-americanas), o que teria um impacto ainda mais amplo no mercado mobile.

 

 

 

Um escrutínio complexo para os reguladores

 

Não dá para dizer o que vai acontecer com a ARM nos aspectos comerciais. A NVIDIA fala de um novo foco para a inteligência artificial, mas também quer dar ênfase para o desenvolvimento de hardware para servidores, um setor que é cada vez mais relevante por causa da computação na nuvem.

Por outro lado, a NVIDIA está cada vez mais interessada em dominar todas as áreas do desenvolvimento de semicondutores. Nesse caso, as autoridades podem considerar que a empresa estaria tentando estabelecer uma espécie de monopólio, e barrar tudo, ou fazer com que o processo de compra dure anos.

Alguns reguladores enxergam a transação entre NVIDIA e ARM com otimismo. A ARM está licenciando a sua propriedade intelectual, e a NVIDIA desenvolve processadores, o que pode ser considerado por muitos negócios muito diferentes que, ao se combinarem, não se configuram como um monopólio.

 

 

 

O que vai acontecer com os clientes da ARM (e rivais da NVIDIA)?

 

 

Mais dúvidas pairam sobre esse sentido.

Todos os principais fabricantes de processadores para smartphones nesse momento (Apple, Samsung, Huawei, MediaTek, etc) vão se tornar clientes da NVIDIA, que não é uma concorrência direta, já que desenvolve GPUs para o usuário final, uso profissional e centros de dados. Mesmo assim, isso levanta suspeitas, e a concorrência já se movimenta para evitar surpresas desagradáveis.

A Apple decidiu realizar a transição para os seus próprios chips com processadores baseados na arquitetura ARM para os seus futuros Mac, e a empresa sempre fechou parceria com a AMD (que é concorrente direta da NVIDIA) no segmento de gráficos dedicados em seus notebooks e desktops.

Já a NVIDIA quer expandir o seu modelo atual de negócios, licenciando alguns dos designs da NVIDIA (incluindo os designs de suas GPUs) para os atuais parceiros da ARM, o que permitiria que tais empresas pudessem competir com a NVIDIA no seu próprio terreno.

A NVIDIA se esforça para deixar claro que a ARM vai seguir atuando como um provedor neutro, sem interferir com as licenças fornecidas, inclusive para alguns dos seus concorrentes diretos. Isso seria óbvio de ser feito pois, como disse, a ARM é uma máquina de ganhar dinheiro. Mas muitos ainda tem dúvidas sobre isso.

As consequências podem ser muito amplas, e a principal vítima aqui é a Intel, que sempre dominou o mercado de processadores para PCs. A NVIDIA sempre foi uma parceira da Intel em muitas soluções para os usuários finais. Porém, a compra da ARM pode mudar o jogo de vez.

A NVIDIA pode acelerar o desenvolvimento de processadores para desktops. A Apple decidiu dizer adeus para a Intel para adotar os chips ARM. Outros fabricantes podem fazer o mesmo. Só resta saber como a NVIDIA vai agir diante de tudo isso.

No final das contas, a NVIDIA pode tanto comprometer o papel da Intel como o da AMD, que também fabrica processadores para desktops e notebooks. Os efeitos da compra da ARM podem levar anos para aparecer, mas desde já temos ramificações dessa decisão.

E… sim… estamos testemunhando a história sendo escrita diante dos nossos olhos.


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