
O recente posicionamento do secretário de Comércio americano sobre a possibilidade da Apple fabricar o iPhone em solo norte-americano reacendeu um antigo debate que, a essa altura dos acontecimentos, deveria estar completamente superado.
Porém, sinto que, neste caso, é meu dever esclarecer algumas coisas para as pessoas que não entendem direito como o mercado de tecnologia e, em particular, como funciona o processo de fabricação de dispositivos eletrônicos no tempo presente (e não na época da “indústria à carvão”).
A ideia de dispositivos Apple carregando o selo “Made in USA” captura a imaginação política, mas esbarra em realidades econômicas e industriais intransponíveis, o que torna o sonho de Donald Trump algo simplesmente impossível de acontecer.
Por que é impossível neste momento?

Antes mesmo de avançar no tema, quero despejar doses de realidade.
A transformação necessária para nacionalizar a produção do smartphone mais icônico do mundo não se resume a decisões políticas ou decretos presidenciais.
Seria necessário um esforço titânico por parte da Apple nos aspectos financeiros (e isso, mesmo que o governo dos Estados Unidos ajudasse na iniciativa), além de abraçar a possibilidade de perder um público enorme com um produto que, economicamente, seria simplesmente inviável.
Conforme análises especializadas sobre o assunto, um iPhone integralmente produzido em território americano poderia custar entre $2.300 e impressionantes $30.000 – valores que inviabilizariam comercialmente o produto.
Sem falar que seriam dois gastos enormes para a Apple: ter uma cadeia de produção 100% norte-americana, e manter as parcerias nos países asiáticos para garantir a distribuição dos produtos em escala global.
Eu tenho certeza absoluta de que Donald Trump não chegou nem perto de fazer as contas para falar tantas asneiras sobre uma possível produção local do iPhone. Por outro lado, Tim Cook certamente está perdendo o sono por causa de tudo isso.
O labirinto da cadeia global de suprimentos

A complexidade da cadeia produtiva do iPhone representa o maior obstáculo para a nacionalização dos seus produtos. E isso acontece não apenas para ter a melhor relação custo-benefício. É hoje uma necessidade para tornar o negócio global algo viável.
Desenvolvido na Califórnia, o iPhone depende de componentes fabricados em dezenas de nações e matérias-primas extraídas de nada menos que 79 países diferentes. Em termos práticos, a Apple não consegue obter tantos recursos dentro dos Estados Unidos para entregar o mesmo padrão de qualidade.
A infraestrutura asiática sustenta a montagem final dos seus produtos, empregando aproximadamente 1,4 milhão de trabalhadores especializados. E até mesmo os produtos Apple que ostentam o rótulo “montados nos EUA” dependem fundamentalmente de peças importadas e tecnologias estrangeiras.
Reconstruir essa intrincada rede em território americano exigiria não apenas investimentos bilionários, mas uma completa reengenharia do produto, desenvolvimento de novas fábricas e formação de mão de obra atualmente inexistente no mercado nacional.
A Apple teria que parar tudo, replanejar e recomeçar. No meio do caminho, teria também que contratar psiquiatras para acionistas e investidores, que teriam que ser convencidos a todo custo de que queimar dinheiro para essa iniciativa faz todo o sentido do mundo, e que valeria a pena a longo prazo.
O que não é exatamente o caso aqui.
O dilema da automação e da especialização

Trump não se importou sequer em ao menos pesquisar o que os dois últimos CEOs da Apple falaram sobre o assunto em diferentes oportunidades.
Tim Cook, CEO da Apple, esclareceu repetidas vezes que a escolha pela China não se baseia primordialmente em custos reduzidos, mas na concentração de talentos especializados.
“Se reuníssemos todos os engenheiros de ferramentas dos Estados Unidos, não conseguiríamos encher uma sala. Na China, encheríamos diversos estádios de futebol”, afirmou em 2017.
Steve Jobs expressou visão semelhante no passado ao então presidente Barack Obama, destacando a impossibilidade de encontrar nos EUA o volume de profissionais qualificados necessários para a escala de produção da Apple.
Ou seja, além de construir fábricas e procurar parceiros comerciais competentes para fabricar as peças, a Apple teria que investir uma grana violenta na formação de profissionais para montar os seus produtos.
E o cartão corporativo do Tim Cook chora de desespero.
Sem falar na disparidade salarial, que agrava o cenário de momento.
Enquanto um operador de máquina americano recebe aproximadamente $43.000 anuais, seu equivalente vietnamita ganha menos de $5.000. Mesmo com incentivos governamentais, essa diferença permanece intransponível para um produto de margens controladas e alta competitividade.
Aqui, um ponto de observação: a Apple, capitalista como ela só, depende (e muito) de uma filosofia comunista para obter lucros com os seus produtos.
Lições de tentativas anteriores

O caso emblemático da Foxconn em Wisconsin demonstra a distância entre promessas e realizações na produção de dispositivos eletrônicos.
Ou vai me dizer que você já se esqueceu desse episódio?
Apesar de bilhões em subsídios, o projeto de transferir a produção do iPhone para a Foxconn fracassou parcialmente pela ausência de mão de obra qualificada na região. Da mesma forma, a TSMC no Arizona enfrentou dificuldades neste mesmo aspecto, e seus problemas foram contornados com a importação de técnicos taiwaneses.
Especialistas da Boston Engineering alertam que o “reshoring” vai muito além da simples relocação geográfica – demanda redesenho completo de processos, adaptação à automação e reconstrução das cadeias de fornecimento praticamente do zero.
Pode somar aqui o investimento em indústria e desenvolvimento. Já que os projetos dos dispositivos serão refeitos, a Apple teria que queimar mais um pouco de dinheiro repensando internamente os dispositivos.
Vai embora, dólares livres de impostos.
Consequências econômicas e sociais
A implementação de tarifas protecionistas sem uma base industrial preparada resulta inevitavelmente em inflação e escassez, o que é algo meio óbvio para qualquer país que já passou por isso (como o Brasil, durante o final da Ditadura Militar).
Mas… quem disse que o Trump está pensando nisso?
Mesmo consumidores de alto poder aquisitivo hesitariam diante do aumento drástico nos preços decorrentes da reconfiguração logística. Até porque, no cenário de momento, até mesmo o maple syrup (o xarope que eles colocam nas panquecas) ficou absurdamente mais caro.
E os norte-americanos comem isso todos os dias.
Paradoxalmente, medidas implementadas em nome da proteção do emprego nacional poderiam desencadear crises de consumo que prejudicariam exatamente os trabalhadores supostamente beneficiados.
A perspectiva de fábricas altamente automatizadas empregando americanos com remunerações não competitivas adiciona complexidade ao debate.
Sem falar que Trump tem uma visão um tanto quanto arcaica e ultrapassada. A impressão que fica é que ele está parado nas décadas de 1950 e 1960, onde a economia do país ainda era impulsionada pelo petróleo, desenvolvimento industrial e metalúrgico, e por um setor automotivo que era “a cara da América”.
Hoje, a Toyota e a BYD (e não a Tesla) dominam as ruas e estradas do país. Por motivos óbvios.
O caminho realista para o futuro

Tanto as administrações Trump quanto Biden promoveram iniciativas de repatriação industrial, como a Lei CHIPS, pensando na competição econômica com a China (e boa parte da Ásia). Ambos entenderam que os Estados Unidos estava perdendo mercado e dinheiro por não fortalecer esse setor da indústria, que estava deixando de ser competitiva em escala global.
O que também é fato. Se não é a Qualcomm segurando as pontas no setor de mobilidade, nem mesmo nos semicondutores o país teria algum papel relevante. A competição com a MediaTek, com Hisilicon, com a TSMC e até mesmo com a Samsung e seus processadores Exynos é bem pesada.
E o cenário dos Estados Unidos neste segmento passa longe de ficar mais fácil com a Intel tropeçando miseravelmente nas próprias pernas nos últimos anos.
O que Trump não entende é que existe uma distinção fundamental entre políticas graduais e tarifas disruptivas que desestabilizam o comércio global.
Tentar colocar o mundo em crise só está colocando a economia global nas mãos da China. É um movimento previsível: a segunda maior economia do mundo vai abrir as portas de vez para acordos bilaterais com países que foram duramente afetados pelas taxas de Trump, virando as costas para os Estados Unidos, que ficarão isolados e em crise.
E é isso. Simples assim.
O iPhone, como concebido atualmente, é produto de um mundo globalizado e interdependente, tal e como praticamente todo produto de hardware que é comercializado no mundo.
Sua completa nacionalização é uma ilusão de um presidente que só olha para o próprio umbigo, o que é algo potencialmente perigoso. Tudo o que está acontecendo neste exato momento está colocando os Estados Unidos no caminho de ondas de inflação, desabastecimento e desemprego.
E quem perde com isso, de forma inevitável, é a Apple. A última coisa que o norte-americano médio vai pensar daqui a alguns meses é na compra de um novo iPhone.
A automação crescente pode eventualmente reduzir a dependência de mão de obra intensiva, abrindo possibilidades futuras para maior produção local. O problema é que não dá para fazer a mudança da noite para o dia. É um processo que exige planejamento estratégico de longo prazo, e não promessas políticas de resultados imediatos.
Por fim, não será um absurdo se no futuro todo mundo descobrir que Donald Trump sofre de ejaculação precoce.
Os sinais de momento são diagnósticos claros.
Só não vê quem não quer.

