
Existe um descontentamento generalizado com a Microsoft por causa do aumento recente dos planos pagos do serviço Microsoft 365. Muitos entendem que os valores mais altos são injustificados, já que a desculpa para a decisão está diretamente relacionada à integração do Copilot no pacote de escritório da empresa.
Nem todo mundo quer os recursos de inteligência artificial no Microsoft 365. Menos ainda quando o acesso ao recurso possui uma série de limitações que não são mencionadas pela Microsoft logo de cara ao anunciar os novos planos.
Com o objetivo de alertar ao consumidor mais leigo sobre uma prática da Microsoft altamente questionável, vou comentar neste artigo como que o aumento dos preços do Microsoft 365 são ainda mais abusivos quando detectamos os recursos de IA que estão capados na plataforma
A comunicação ambígua e o método de “esconder” alternativas

Para começo de conversa, a Microsoft só diz que “você pode usar o Copilot de graça”, mas não que esse recurso é limitado em vários aspectos, passando a falsa sensação de que o aumento de preços foi vantajoso.
Na prática, é mais fácil pagar os US$ 20 mensais do ChatGPT Plus para obter uma experiência completa. Mesmo porque usar o Copilot no Microsoft Word pode ser, em alguns casos, uma extraordinária perda de tempo.
No caso do Microsoft 365, o acesso ao Copilot é regulado por um teto mensal de 60 créditos no plano Personal.
E no caso do plano Família é aquele cenário estúpido: apenas o assinante principal terá a possibilidade de utilizar essa nova ferramenta de forma plena, com todos os recursos disponíveis.
É óbvio que a Microsoft foi massacrada pela péssima relação custo-benefício. Mas quando você lê os relatos de outros usuários, sente que o cenário é ainda pior.
Um desses usuários, identificado como João Bull, descreveu em uma publicação no Bluesky a forma como a Microsoft estruturou a comunicação sobre a renovação da assinatura.
Segundo Bull, o e-mail enviado aos assinantes, aparentemente “cuidadosamente elaborado”, faz parecer que o aumento se deve à inflação. No entanto, o que estaria realmente ocorrendo seria a inclusão de uma “taxa extra” destinada ao Copilot.
Em meio a essa discussão, foi revelado um “segredo” para os assinantes que preferem não aderir às novas funcionalidades.

Ao acessar a página de gerenciamento da conta do Microsoft 365 e iniciar o processo de cancelamento da assinatura, os usuários se deparam com uma opção alternativa – denominada “Clássico” – que mantém os preços anteriores e dispensa a integração com o Copilot.
Aqui, a Microsoft levou uma surra ainda maior dos usuários pela falta de transparência, já que em nenhum momento isso está disponível para os atuais usuários logo de cara.
A opção “Clássico” permanece oculta até que o usuário inicie o processo de cancelamento, o que caracteriza, para muitos, uma forma de “dark pattern” na comunicação digital da empresa.
Sim… eu sei o que você vai perguntar neste momento…
O que é esse tal “Dark patterns”?

O uso de “dark patterns” – métodos de design de interface que induzem o usuário a tomar decisões sem o pleno conhecimento de suas alternativas – tem sido alvo de críticas por parte de especialistas e defensores dos direitos do consumidor.
Todo mundo gosta de transparência nas informações para um produto e serviço, e ter uma opção oculta de contratação de qualquer coisa passa bem longe disso.
Não é apenas a Microsoft que faz isso. No Brasil, por diversas vezes, apontei como a Claro se valeu da mesma estratégia para não oferecer para os seus clientes a opção de contratar alguns serviços de forma independente, sem contar com outras plataformas atreladas.
No caso do Microsoft 365, a estratégia de esconder a opção sem Copilot apenas no momento do cancelamento pode ser interpretada como uma tentativa de forçar os usuários a permanecerem no plano com a nova funcionalidade, mesmo que não desejem utilizar o recurso.
Traduzindo: venda casada.
Em um contexto mais amplo, integrar recursos de inteligência artificial passou a ser a estratégia para deixar produtos e serviços mais caros. É uma forma que as big techs encontraram para monetizar a IA, mas disfarçando isso em “inflação”, “benefícios gratuitos” e outros malabarismos retóricos.
As empresas fazem de tudo para dificultar o acesso do consumidor às informações e opções que podem ser mais favoráveis para quem contrata o serviço.
E, por tudo isso, a confiança na Microsoft vai se esfarelando.
As consequências das decisões da Microsoft

Combine tudo isso, e você vai entender por que a Microsoft está tão odiada nesse momento.
Os consumidores já entenderam que a Microsoft (e a grande maioria das gigantes do setor que apostaram em inteligência artificial) está priorizando a rentabilidade, mesmo que para isso acabe ocultando informações de quem está pagando.
Ser transparente nas informações pode causar prejuízos para a Microsoft. Influenciar o consumidor para fazer o que ela quer, seja na renovação do plano ou na migração para um plano menos caro, é o objetivo final da gigante de Redmond.
Por outro lado, com uma percepção clara de que falta a transparência nas informações, os consumidores tendem a migrar para outras soluções que são mais claras nas informações sobre planos e preços.
Vai ser difícil para a Microsoft manter a fidelização dos clientes adotando tais práticas, pois serviços gratuitos equivalentes ao Microsoft 365 existem aos montes.
Mas alguém lá em Redmond deve saber o que está fazendo. Muito mais do que eu opinando em um blog de tecnologia.

