
A Meta, dona do Facebook e Instagram, decidiu levar à justiça uma operação criminosa que utilizava a imagem de celebridades brasileiras para aplicar golpes. Desta vez, o alvo principal da ação são os criadores de deepfakes envolvendo o médico Drauzio Varella e outros famosos.
Dois brasileiros, juntamente com uma empresa chinesa e uma vietnamita, foram processados por criarem anúncios fraudulentos que simulavam depoimentos e reportagens.
Nos bastidores, apurou-se que as vítimas vão além de Drauzio Varella, incluindo também o médico Lair Ribeiro, a cantora Maiara, o apresentador Luiz Bacci e a influenciadora Maira Cardi. As peças publicitárias usavam imagens e vozes alteradas para promover produtos de saúde sem qualquer aprovação regulatória, ludibriando consumidores.
A gigante da tecnologia não se limitou aos criadores dos anúncios e também mirou em consultores de marketing que ofereciam serviços para burlar a segurança da plataforma.
Essa ação legal representa mais um passo no combate à desinformação e aos golpes financeiros que prosperam nas redes sociais. Ao expor a complexidade da operação, a Meta espera desmantelar uma rede que envolvia desde a criação do conteúdo enganoso até o aluguel de contas para escapar da fiscalização.
O processo, portanto, não é apenas sobre remover anúncios, mas sobre atacar a infraestrutura que permite a existência dessas fraudes.
Técnicas sofisticadas de ocultação
A principal ferramenta utilizada pelos golpistas para enganar os sistemas de segurança da Meta é conhecida como “cloaking”. Essa técnica permite que um anúncio seja exibido de uma forma para os revisores da plataforma e de outra completamente diferente para o usuário final.
Enquanto o sistema da empresa via um conteúdo aparentemente legítimo e inofensivo, os usuários eram expostos a deepfakes de celebridades prometendo curas milagrosas.
A Meta afirma estar utilizando sua própria inteligência artificial para identificar e neutralizar esse tipo de comportamento malicioso. A batalha, no entanto, é constante, pois os golpistas também evoluem suas táticas para se manterem um passo à frente da fiscalização.
Essa dinâmica cria um verdadeiro “gato e rato” tecnológico, onde cada atualização nos algoritmos de segurança exige uma nova adaptação por parte dos criminosos.
Consultores e o mercado paralelo de contas
Além de processar os anunciantes fraudulentos, a Meta enviou notificações extrajudiciais a ex-participantes do programa Meta Business Partners.
A acusação é grave: esses consultores ofereciam serviços como “desbanimento” de contas suspensas e aluguel de perfis para que golpistas pudessem continuar anunciando. A prática cria um mercado paralelo que lubrifica as engrenagens do golpe, permitindo que criminosos contornem as punições com facilidade.
As notificações servem como um ultimato, exigindo a cessação imediata dessas práticas sob ameaça de futuras medidas judiciais. A empresa deixa claro que não tolerará a criação de um ecossistema de serviços que viabilize a fraude em suas plataformas.
A ação demonstra uma mudança de postura da empresa que, em um passado não muito distante, não via muito sentido em combater de forma mais enérgica a esse tipo de desinformação. Agora, o foco não é apenas o crime visível, mas também a cadeia de suporte que o fortalece.
Um histórico de problemas e danos à reputação
As medidas anunciadas nesta quinta-feira (26) não surgem do vácuo, mas sim após uma série de episódios que mancharam a reputação da empresa.
Em novembro de 2025, uma reportagem alarmante calculou que cerca de 10% de toda a receita da companhia poderia vir de anúncios fraudulentos. O estudo apontava uma estratégia controversa: a Meta cobrava mais caro por anúncios suspeitos na tentativa de inibir os golpistas, uma tática que se mostrou ineficaz a longo prazo.
O problema já havia sido identificado por instâncias internas da própria empresa. Em junho de 2025, o Comitê de Supervisão da Meta, que funciona como uma espécie de “Suprema Corte” das redes, concluiu que a companhia falhava sistematicamente no combate a golpes com deepfakes.
O caso que motivou a crítica envolvia um vídeo falso do ex-jogador Ronaldo promovendo um cassino online, que acumulou mais de 600 mil visualizações e resistiu a mais de 50 denúncias antes de ser removido.
O impacto devastador dos anúncios de saúde
Os anúncios fraudulentos na área da saúde são particularmente danosos por se aproveitarem da vulnerabilidade e da esperança das pessoas.
A imagem de um médico renomado como Drauzio Varella, sinônimo de credibilidade e ciência, é sequestrada para vender produtos milagrosos que podem colocar a saúde dos consumidores em risco.
A prática criminosa não apenas causa prejuízos financeiros, mas também pode levar a tratamentos inadequados e ao abandono de terapias comprovadas.
A dimensão do problema foi evidenciada por um estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Após analisar cerca de 170 mil peças publicitárias no Instagram e no Facebook, os pesquisadores encontraram indícios de irregularidade ou fraude em impressionantes 76% delas.
O número escancara a magnitude do desafio enfrentado pelas plataformas e a necessidade de uma ação enérgica e coordenada para proteger os usuários de um ecossistema publicitário muitas vezes tóxico e enganoso.
Use o senso comum
Diante do cenário apresentado, é importante concluir este conteúdo com um alerta para o leitor: use mais o senso comum ao se deparar com os diferentes conteúdos disponíveis na internet.
Vivemos a “era da pós-verdade” em que, infelizmente, um grande grupo de pessoas está muito mais propenso a não acreditar na realidade ou nos fatos. E com o advento da inteligência artificial e a facilidade para a produção de material audiovisual baseado na imagem de pessoas públicas, ficou muito mais fácil cair em golpes e ações de desinformação.
Por isso, o conselho de nossa parte é sempre o mesmo.
Se você se deparar com uma notícia muito chamativa ou que foge do que seria a lógica de fatos recentes ou do histórico de uma pessoa ou empresa, desconfie. E não tenha receio ou preguiça de realizar o trabalho de verificação das informações.
O problema não está apenas nas plataformas do Meta, mas em toda a internet. Facebook, Instagram e WhatsApp são bolhas de nicho. Não podemos nos esquecer do X, do YouTube, do TikTok e de outras redes que são frequentemente utilizadas para a disseminação de notícias falsas e golpes visuais.
Toda atenção é necessária.
Todo cuidado é pouco.
Via Tecnoblog, G1 (Globo)
