
Não é o tipo de notícia que normalmente comento. Mas como existe um alinhamento de astros neste caso, acho que é interessante conversar um pouco sobre o cenário de caos que se apresentou diante dos nossos olhos nos últimos dias.
Linda Yaccarino oficialmente jogou a toalha e deixou o cargo de CEO da X (ex-Twitter) após dois anos de uma missão que pode ser resumida como “tentar organizar um tornado enquanto está dentro dele”.
A executiva, que provavelmente deve estar se perguntando por que diabos aceitou esse trabalho, anunciou sua saída em uma mensagem na própria plataforma, agradecendo a Elon Musk pela “oportunidade de uma vida” – que, convenhamos, mais parecia uma sentença de morte profissional.
O timing da saída não poderia ser mais constrangedor: acontece logo depois que a xAI, empresa também de Musk, atualizou seu chatbot Grok para ser mais “politicamente incorreto”, resultando numa enxurrada de racismo e antissemitismo e elogios a Hitler.
Porque, aparentemente, quando se pensa que as coisas não podem piorar no universo Musk, elas sempre conseguem ficar ainda pior do que já estão.
Elon Musk manja (e muito) de piorar as coisas. E a nossa Linda não aguentou tudo isso.
A missão impossível

Yaccarino assumiu o cargo em maio de 2023, vinda da NBCUniversal, onde provavelmente tinha uma vida profissional normal e noites de sono tranquilas.
Sua missão oficial era focar nas “operações de negócios” enquanto Musk cuidaria do “design de produto” e “novas tecnologias” – um arranjo que funcionou tão bem quanto você pode imaginar.
Ou melhor, testemunhar, diante dos últimos acontecimentos.
A pobre executiva tinha uma tarefa hercúlea: tentar recuperar o negócio de publicidade que despencou mais rápido que a reputação da própria plataforma.
As marcas estavam fugindo da X como se fosse uma festa onde tocaram uma música do Restart, e Yaccarino precisava convencê-las a voltar enquanto seu chefe postava memes controversos e brigava com world leaders no Twitter.
Nada contra o Restart. Até gosto. Ainda mais quando me deparo com as músicas do Pedro Sampaio.
E dessa forma, mostro o quão velho sou, e como sou capaz de comprar brigas com diferentes tribos musicais em um post sobre tecnologia.
O cenário de guerra na X

Durante o mandato de Yaccarino, a X precisou enfrentar a concorrência feroz de plataformas como o Threads da Meta, que conseguiu mais de 350 milhões de usuários ativos mensais (provavelmente todos refugiados da X), e o Bluesky, que está se tornando cada vez mais atraente para quem quer uma experiência de rede social sem o drama constante.
Para piorar o cenário, a saída acontece meses após um dos movimentos mais bizarros do ecossistema Musk: a venda da X para a xAI, sua própria startup de inteligência artificial, numa operação que foi descrita como “sem precedentes e cheia de opacidade” – que é uma forma elegante de dizer “ninguém entendeu nada, mas parece suspeito”.
Para alguns ditos especialistas, o movimento de venda do X para a xAI fez sentido, pois aumentou o valor de mercado para as duas empresas.
Afinal de contas, uma plataforma migrou para outra, e com o volume de dados do X no Grok, temos uma inteligência artificial com potencial (quase) infinito.
O problema é que agora temos uma máquina de fake news e preconceito, algo que Yaccarino teria que lidar para seguir com sua “oportunidade de uma vida”.
Na prática, Musk abraçou uma empresa na outra porque ninguém queria comprar o X, que veio de um Twitter que Elon se arrependeu de comprar.
Eu sei… vocês vão dizer que o movimento deu certo, pois o valor de mercado do X aumentou. E eu concordo… em partes.
O X se valorizou artificialmente, e até hoje perde dinheiro com a fuga da publicidade.
Ou seja, Musk perdeu de qualquer maneira neste negócio.
E por falar em Musk…
A resposta de Musk
A resposta de Elon Musk ao anúncio de saída foi tão calorosa quanto uma geladeira no polo norte:
“Obrigado por suas contribuições”.
Pronto. Acabou.
Nem um emoji de coração partido, nem uma mensagem elaborada. Aparentemente, dois anos tentando salvar sua empresa valem apenas uma linha protocolar.
Nada mais Elon Musk diante do contexto de momento, e todos os problemas resultantes dessas recentes decisões.
O futuro incerto

E agora, Elon? Como é que vai ser?
Bem, a X está oficialmente sem CEO e, pelo que sabemos, sem um substituto sequer cogitado.
Não há nome provisório, não há comunicado oficial da empresa, e Musk, fiel ao seu estilo, não esclareceu absolutamente nada sobre quem assumirá.
É um silêncio que pesa tanto quanto a conta de luz no final do mês.
Não será surpresa se o próprio Musk se tornar CEO interino ou permanente, pois ele adora o protagonismo. E acho difícil ver alguém querendo assumir essa bomba relógio descontrolada que é o X.
A empresa, que há anos tenta convencer o mercado de que ainda é viável (spoiler: não está funcionando muito bem), agora precisa lidar com mais essa incerteza.
Porque, aparentemente, gerenciar uma rede social em crise sem CEO é exatamente o tipo de desafio que o ecossistema Musk adora.

Linda Yaccarino provavelmente está em algum lugar agora, tomando um drink bem merecido e se perguntando como foi parar nessa situação.
Ela tentou, ela lutou, ela provavelmente perdeu alguns anos de vida no processo, mas no final das contas, nem mesmo uma executiva experiente conseguiu domar a fera que é a X sob o comando de Elon Musk.
Sua saída nada mais é do que uma tentativa de se salvar profissionalmente diante de um caos crítico de momento. Ninguém quer ser CEO de uma rede social que tem uma inteligência artificial que é racista e antissemita.
A pergunta que fica é: quem será o próximo corajoso (ou desesperado) o suficiente para aceitar esse cargo?
Porque, sinceramente, depois de ver o que aconteceu com Yaccarino, qualquer pessoa com um mínimo de instinto de sobrevivência profissional deveria pensar duas vezes antes de aceitar ser CEO de qualquer empresa do universo Musk.
Se bem que tem sempre um idiota para tudo neste mundo…
Então…
Vamos aguardar.
Via The Verge

