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Hideo Kojima acende o alarme sobre o fim da posse digital nos videogames

Hideo Kojima subiu ao palco do festival Il Cinema in Piazza, em Roma, e falou de algo que vai muito além de nostalgia por caixinhas de plástico. E quando esse cara fala, temos que prestar a devida atenção no que ele tem a dizer.

O criador de Metal Gear Solid e Death Stranding usou o momento para alertar sobre um problema estrutural: a substituição da propriedade pelo simples direito de acesso temporário. O que mostra sua consciência e até alinhamento com o pensamento de muitos gamers ao redor do mundo com o contexto atual do mercado de videogames.

A fala surge dias depois do anúncio da Sony sobre o fim da fabricação de discos físicos para novos jogos de PlayStation a partir de janeiro de 2028. E a partir de agora, compartilho o contexto geral desse discurso, e o que penso sobre as opiniões expressas pelo Kojima.

 

A tristeza declarada de quem ainda compra Blu-ray

Kojima não escondeu o desconforto pessoal com o desaparecimento gradual das mídias físicas. Ele contou que tem comprado Blu-rays e CDs justamente para manter viva uma coleção que considera ameaçada.

O designer cresceu em uma época em que o objeto físico garantia certa segurança contra decisões corporativas unilaterais. Perder isso, para ele, representa mais do que uma questão sentimental.

Por trás da fala existe um raciocínio que vai fundo na forma como consumimos cultura hoje. Kojima não está discutindo apenas discos, mas o próprio conceito de posse em um mundo cada vez mais dependente de servidores externos.

 

A diferença entre baixar um jogo e abrir uma torneira

O ponto mais contundente do discurso está na distinção entre download digital e streaming. Segundo Kojima, quando um jogo é baixado, os dados ficam instalados no disco rígido do usuário, mesmo que a compra seja tecnicamente uma licença.

Já no streaming a lógica muda por completo. Ele usou uma metáfora direta para descrever o modelo: existe um servidor em algum lugar do mundo, e o usuário paga pelo direito de abrir uma torneira, fazendo os dados fluírem até sua tela.

O problema fica evidente quando se pensa em quem controla essa válvula. Se a empresa decidir fechar o fluxo por motivo comercial, jurídico ou político, o acesso desaparece instantaneamente, sem aviso prévio ao consumidor.

Vale destacar que essa comparação é uma opinião do próprio Kojima, e não um dado técnico comprovado sobre a arquitetura de qualquer serviço específico. Trata-se de uma interpretação sobre os riscos do modelo de streaming como um todo.

 

Um alerta que já existia desde 2021

A preocupação de Kojima não nasceu agora. Em agosto de 2021, ele publicou nas redes sociais um aviso que voltou a circular com força após a repercussão da fala em Roma.

Na publicação, o designer afirmava que em breve nem os dados digitais seriam algo que as pessoas pudessem possuir por conta própria. Ele mencionava que mudanças políticas, sociais ou até governamentais poderiam bloquear repentinamente o acesso a filmes, livros e músicas.

O trecho mais citado da publicação de 2021 resume bem o temor: tornar-se alguém que não tem nada, presa a decisões alheias sobre o próprio acervo cultural. Cinco anos depois, o cenário descrito parece cada vez mais próximo da realidade prática do mercado.

 

Os números por trás da decisão da Sony

A escolha da Sony de encerrar a fabricação de discos para novos jogos não surgiu isoladamente. Os próprios dados divulgados pela companhia mostram um comportamento de consumo já consolidado:

  • No ano fiscal encerrado em março de 2026, discos físicos representaram apenas 5% da receita total de software de jogos da Sony;
  • As vendas digitais de jogos completos alcançaram entre 78% e 85% do total em determinados períodos;
  • A Capcom já relatou que 93% de suas vendas de jogos acontecem em formato digital;
  • Grand Theft Auto VI, um dos lançamentos mais aguardados da indústria, deve chegar ao mercado com código de download em vez de mídia física.

A Sony fez questão de esclarecer um detalhe importante nesse processo. A fabricação de discos para títulos já lançados antes de 2028 continuará normalmente, e o corte vale apenas para os lançamentos futuros.

 

Uma crítica que vem de dentro do próprio ecossistema

O peso das declarações de Kojima aumenta quando se observa sua relação histórica com a Sony. Foi a companhia japonesa que financiou a fundação da Kojima Productions após a saída conturbada do designer da Konami, além de ceder a engine Decima para o desenvolvimento de Death Stranding.

Atualmente Kojima trabalha em Physint, um novo projeto de espionagem tática que será exclusivo de PlayStation. Segundo estimativas do setor, o lançamento deve ocorrer por volta de 2030, embora essa data ainda não tenha confirmação oficial da Sony.

Diante desse vínculo comercial próximo, a crítica ganha um caráter diferente. Não se trata de um concorrente atacando por interesse próprio, mas de alguém que depende financeiramente da empresa e ainda assim decide expor publicamente os riscos do caminho adotado pela indústria.

 

O que o consumidor perde nessa transição

A mudança de modelo carrega consequências práticas que vão além do debate filosófico sobre posse. Sem o disco físico, o jogador perde a possibilidade de revender, emprestar ou preservar independentemente sua coleção.

O setor de jogos em nuvem já movimenta cifras expressivas, com o mercado global avaliado em cerca de 14 bilhões de dólares. Uma parcela dos consumidores já reagiu ao anúncio da Sony, reunindo mais de 30 mil assinaturas em uma petição para tentar reverter o fim da produção física.

Apesar da resistência, a direção do mercado parece definida pela própria demanda majoritária dos consumidores. A conveniência do acesso imediato segue vencendo a discussão sobre controle e permanência do conteúdo.

 

O alerta que fica para o futuro

O recado de Kojima ultrapassa os limites do universo dos videogames. Se filmes, séries e livros seguirem o mesmo caminho de dependência total de servidores externos, toda uma geração pode crescer sem nunca ter possuído de fato aquilo que consome.

A pergunta que fica no ar não tem resposta simples. Quando a torneira estiver totalmente nas mãos de poucas empresas, quem garante que ela continuará aberta daqui a uma ou duas décadas?