
Enfim, a hipocrisia.
Lembra quando Elon Musk pediu para todo mundo dar uma pausa no desenvolvimento de inteligência artificial? Pois é, aparentemente ele esqueceu do próprio conselho.
Em março de 2023, o bilionário assinou uma carta aberta pedindo uma moratória global no desenvolvimento de modelos de IA mais avançados que o GPT-4.
O documento, que também contou com assinaturas de peso como Steve Wozniak e Andrew Yang, alertava para os perigos de entregar o futuro da humanidade a sistemas autônomos sem regulamentação democrática.
Mas… plot twist: dois anos depois, o próprio Musk apresenta hoje o Grok 4, um modelo de linguagem que não só ignora completamente seu pedido anterior, como ainda tem a audácia de tentar se posicionar como líder absoluto no setor.
É como pedir para todo mundo parar de correr e depois sair disparando na frente, como se fosse o Dick Vigarista tentando vencer a todo custo a Corrida Maluca – clássico Musk.
Da moratória à aceleração total
A carta de 2023, promovida pelo Future of Life Institute, pedia a suspensão do treinamento de modelos mais poderosos que o GPT-4 por pelo menos seis meses.
Os argumentos eram válidos para a época, e muitos acreditaram no papinho do Musk: preocupações com disseminação de desinformação, substituição de empregos humanos e o risco de criar uma inteligência não humana incontrolável.
O mesmo Musk, que já tinha suas rusgas com a OpenAI (organização que cofundou e abandonou em 2018), falava em “riscos existenciais” da tecnologia.
Mas como a moratória nunca veio e o setor privado continuou avançando, nosso empreendedor decidiu aplicar o famoso “se não pode vencê-los, junte-se a eles” e fundou a xAI.
Dois anos depois da carta, temos o Grok integrado ao X (finado Twitter), com uma base de dados enorme e até se dando ao luxo de ser racista e antissemita.
O que é esse tal de Grok 4?

O Grok 4 é a mais recente iteração do sistema de linguagem natural desenvolvido pela xAI de Musk.
Segundo a empresa, trata-se de um modelo que vem em duas versões: uma de uso geral e outra voltada especificamente para desenvolvimento de software (Grok 4 Code).
O modelo foi treinado no que Musk descreve como “o cluster de treinamento de IA mais poderoso do mundo”, com mais de 200.000 GPUs Nvidia trabalhando em paralelo.
Para muitos, Musk transferiu sua personalidade para o Grok, transformando a IA em um potencial perigo para a sociedade. Mas é claro que estou sendo irônico nessa parte do texto.
Ou talvez não.
Os números apresentados são impressionantes: 45% no Humanity’s Last Exam (um teste para medir raciocínio humano), contra 21% do Gemini 2.5 Pro. Também alcançou 95% de precisão na competição AIME’25 e 88% no GPQA.
Como se não bastasse, o Grok 4 oferece integração com veículos Tesla, acesso em tempo real a dados do X (antigo Twitter) e capacidade de contribuir para o desenvolvimento de videogames de alto orçamento.
Basicamente, Musk quer que sua IA esteja em todos os lugares, o que é algo simplesmente assustador.
A volta por cima mais contraditória da história
A rápida evolução do Grok – saltando da versão 1 para a 4 em menos de dois anos – levanta questões desconfortáveis para muitos especialistas.
O que aconteceu com o apelo à prudência? Aquela carta de 2023 foi uma expressão sincera de preocupação ou apenas uma manobra para ganhar tempo e posicionar seus próprios modelos no mercado?
Ou foi apenas uma fala hipócrita de alguém que queria avançar no jogo de alguma forma, mas que estava atrás de todo mundo?
Me parece crível a estratégia de frear a concorrência para avançar sozinho.
Para alguns, a reviravolta de Musk segue uma lógica pragmática do tipo “se outros vão fazer isso, é melhor nós fazermos também” – uma dinâmica clássica de corrida armamentista digital.
Para outros, pedir uma moratória e depois liderar exatamente o desenvolvimento que você pediu para parar é simplesmente incoerência pura.
Mas… seja bem sincero: dá para pedir coerência de alguém como Elon Musk?
Ao longo de sua carreira, o empresário sul-africano se especializou em ser simultaneamente o profeta do apocalipse tecnológico e o incansável impulsionador da inovação.
Seu histórico (assim como o de Sam Altman, seu ex-amigo e atual rival) inclui advertências terríveis sobre os riscos da IA geral, ao mesmo tempo em que investe bilhões em modelos que se aproximam exatamente desse conceito.
O simples fato do Grok hoje se comportar como a mentalidade e visão de mundo do Musk já é uma resposta clara para várias perguntas levantadas neste artigo.
É como se dissesse: “A IA vai acabar com a humanidade, mas pelo menos vai ser a minha IA.”
Sim, posso parecer alarmista. Mas não estou tão distante da realidade.
No final das contas, a única coisa consistente na abordagem de Musk é a inconsistência – e talvez seja exatamente isso que o torna tão fascinante e irritante ao mesmo tempo.

