
A tecnologia está sempre vencendo. Ou melhor, as mentes habilidosas que usam os recursos ao seu dispor para burlar o “status quo” do sistema. Neste caso, a indústria do cinema e sua rígida proteção aos direitos autorais.
Eu não sei se você percebeu, mas existem alguns lançamentos recentes do cinema que já podem ser vistos no YouTube, de forma totalmente gratuita e sem maiores dificuldades. E isso está tirando o sono dos executivos dos estúdios, que queimam uma grana para que todos vejam as estreias nas salas.
Aparentemente, o YouTube está tomando medida contra o assunto. Mas aparentemente isso parece não ser o suficiente para coibir e combater o problema de forma eficiente.
O que está acontecendo?

Um relatório recente da empresa Adalytics mostra que o YouTube está sendo usado para veiculação ilegal de filmes e séries recém-lançados nos cinemas, como é o caso recente de “Lilo & Stitch”, novo filme da Disney.
Os vídeos chegam a acumular centenas de milhares de visualizações antes de serem removidos, burlando os sistemas de detecção da plataforma, como o Content ID, e gerando lucros diretos e indiretos para os canais que compartilham esse conteúdo.
Técnicas como corte de imagem, efeito espelho, alteração de velocidade e inserção de trechos externos são usadas para enganar os algoritmos. Isso permite que os uploads permaneçam por tempo suficiente para gerar receita publicitária.
Mais grave ainda: os anunciantes, sem saber, acabam financiando esse tipo de conteúdo através da publicidade, já que só olham para os números que o canal gera no YouTube, mas sem verificar o tipo de conteúdo que é veiculado.
Aqui, devemos incluir também os grandes estúdios afetados pela própria pirataria como “patrocinadores” dos filmes compartilhados de forma ilegal.
De acordo com Krzysztof Franaszek, fundador da Adalytics, cerca de 60% dos investimentos publicitários em certos casos foram direcionados a vídeos posteriormente removidos por violação de direitos autorais ou outras infrações.
Isso representa um problema reputacional para as marcas envolvidas, que não conseguem rastrear precisamente onde seus anúncios estão sendo exibidos.
Aqui, a falha é do próprio YouTube e do seu sistema de inserção de publicidade.
Os anunciantes vão sempre pagar a mais para incluir publicidade nos conteúdos com maior capacidade viral e ascensão rápida de audiência. Porém, o sistema do YouTube ainda é falho ao identificar o tipo de conteúdo que aquele vídeo exibe, o que resulta no constrangimento da indústria do cinema “bancando” (de alguma forma) a pirataria online.
O YouTube se pronuncia sobre o assunto

Em resposta, Jack Malon, porta-voz do YouTube, afirmou que os canais com conteúdo ilegal já foram removidos, mas não revelou se a empresa chegou a lucrar com os anúncios veiculados antes da remoção dos vídeos.
O que é outro aspecto importante da problemática: o próprio YouTube ganha com essa venda de publicidade, o que pode indicar que a empresa está “fazendo vista grossa” para capitalizar em cima desse conteúdo.
De certa forma, seria o YouTube ignorando a sua própria política de uso (que prevê a remoção dos vídeos e penalização dos canais que infringem direitos de propriedade intelectual), apenas e tão somente pela comodidade de lucro com esse material.
Malon também minimizou as conclusões do relatório da Adalytics, que acusa o YouTube de usar o estudo como estratégia comercial.
O YouTube se respalda na legislação norte-americana, especialmente na DMCA (Lei de Direitos Autorais do Milênio Digital), que isenta plataformas da responsabilidade direta sobre o que é postado por usuários.
A proteção legal tem como principal objetivo garantir a liberdade de expressão e publicação dos conteúdos em um ambiente de internet aberta, mas é severamente criticada por permitir abusos como esse, uma vez que a brecha legal está aberta.
Enquanto isso, os grandes estúdios enfrentam prejuízos financeiros, e os anunciantes veem sua imagem ameaçada, num cenário que revela a limitação das ferramentas atuais de combate à pirataria online.
O que aprendemos com tudo isso?

Que não tem santo ou inocente nessa história.
O YouTube se esquiva da polêmica, com o clássico “eu não tenho nada a ver com isso”, enquanto conta as notas de dólares que entram na conta bancária pela publicidade veiculada nesses vídeos.
Os anunciantes também não se responsabilizam, já que, em muitos casos, nem ficam sabendo que estão colocando publicidade em vídeos que foram compartilhados de forma ilegal.
E os estúdios de cinema, que são sim prejudicados com tudo isso, estão recebendo o troco por compactuarem com cobranças abusivas de preços nos ingressos das salas e nas plataformas de streaming.
Não estou defendendo a pirataria nas plataformas digitais, mas entendo por que o compartilhamento de filmes e séries em massa continua a acontecer. Afinal de contas, o streaming não democratizou a oferta de conteúdo, acabando com um modelo de negócios que era economicamente viável para o consumidor no começo.
E muitos se cansaram em pagar R$ 100 a cada ida ao cinema.

