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Donald Trump tem problemas com os chineses e as redes sociais. Agora, some as duas coisas, e fica fácil entender por que o TikTok se tornou o seu novo inimigo mortal. Até porque é pouco provável que vamos ver ele com alguma coreografia na plataforma (e, no fundo, nem queremos ver isso).

Seja por motivos mediáticos, seja por motivos eleitoreiros, o TikTok pode ser banido dos Estados Unidos a menos de 100 dias das eleições presidenciais norte-americanas (eleições essas que Trump quer adiar para ganhar tempo), e isso não é mera coincidência. O presidente dos Estados Unidos anunciou a decisão de proibir o TikTok nos Estados Unidos durante um voo no Air Force One para jornalistas, com o argumento do “tenho autoridade para isso”, dando a entender que ele pode fazer isso através de uma ordem executiva.

Ou seja, a tradicional canetada, algo que todo governo autoritário adora fazer.

Mas vamos tentar nesse post olhar para todas as perspectivas que levam Trump a tomar uma decisão tão drástica, e quais são as consequências dessa medida para nós.

 

 

 

Ser chinês é sinônimo de ser um inimigo na mente de Trump

 

 

O tema da segurança está se tornando uma sombra cada vez mais escura sobre a cabeça do TikTok, assim como é nesse momento para a Huawei, que é boicotada no mundo todo porque a gestão Trump está pressionando meio mundo para não aceitar as suas redes.

Não faz muito tempo que ficamos sabendo que várias empresas queriam proibir os seus funcionários de utilizar o TikTok, e não podemos nos esquecer que o aplicativo pertence à ByteDance, uma empresa chinesa. E isso basta para despertar a ira de Trump.

Some isso ao fato da plataforma ser criticada por boicotar um ato de campanha do atual presidente norte-americano, e você entende toda essa animosidade (talvez mútua) que fica evidente no cenário atual envolvendo todos os protagonistas desse conflito.

Na verdade, a rixa entre Donald Trump e TikTok não vem de agora. Tudo começou em 2017, justamente quando a ByteDance adquiriu o aplicativo musical.ly, que tinha funcionalidade muito similar e, no final das contas, acabou se fundindo ao atual app de vídeos curtos que todos conhecem. As suspeitas daquela época só aumentaram de lá para cá, onde a bomba explodiu de vez em junho de 2020, quando o aplicativo de vídeos curtos foi banido da Índia. Lembrando que, depois disso, a Austrália tomou a mesma decisão e, agora, os Estados Unidos devem fazer o mesmo de forma oficial.

A possível solução para o problema foi proposto pela ByteDance, que anunciou que queria reduzir a zero a sua participação no TikTok, abrindo assim as portas para outra empresa (muito provavelmente uma gigante do setor tecnológico e, de preferência, norte-americana) substituir o papel da chinesa nas ações do serviço. E tal cenário abriu as especulações sobre as empresas que poderiam estar interessadas nessa operação.

 

 

 

Microsoft interessada na compra do TikTok

 

 

É aqui que a Microsoft entra como elemento novo nessa história.

A Microsoft confirmou a intenção de compra do TikTok junto à ByteDance, mas com alguns detalhes, além da principal condicionante de uma eventual aprovação do governo norte-americano.

Satya Nadella (CEO da Microsoft) conversou com Donald Trump para resolver as questões pendentes sobre a privacidade do aplicativo, onde a Microsoft se compromete a realizar uma revisão de segurança da plataforma caso a compra seja concretizada.

Tanto a ByteDance como a Microsoft já notificaram o Comitê de Investimentos Estrangeiros dos Estados Unidos sobre a intenção do negócio, que deve acontecer até o dia 15 de setembro de 2020. Até lá, as duas empresas esperam chegar a um acordo e obter a aprovação do governo norte-americano.

A Microsoft vai comprar a parte do TikTok que funciona em quatro países de língua inglesa (Austrália, Canadá, Estados Unidos e Nova Zelândia), onde a gigante de Redmond vai atuar como principal proprietário. Outros investidores menores norte-americanos podem participar como parceiros nesses países.

Se a compra se concretizar, teremos três versões do TikTok coexistindo: o TikTok da ByteDance Douyun, que funciona na China, o TikTok da ByteDance que funciona fora da China, e o TikTok da Microsoft.

O anúncio não garante que a compra vai se materializar, e a Microsoft não vai oferecer maiores informações até que o acordo definitivo (ou a desistência da compra) se materialize.

 

 

 

Se a Microsoft comprar parte do TikTok, o que vai mudar?

 

De imediato, não muito. A experiência de usuário tende a ser a mesma. O que vai mudar é nos aspectos de segurança e privacidade, com o armazenamento dos dados ficando fora da China e longe do alcance da ByteDance.

Todos os dados dos usuários norte-americanos seriam transferidos para servidores dos Estados Unidos, com uma maior supervisão da segurança pelas autoridades dos quatro países mencionados antes.

É importante reforçar que qualquer acordo nesse sentido altera automaticamente a propriedade do aplicativo de vídeos, o que poderia (na teoria) resolver a questão de uma vez por todas.

Porém, nada é tão simples quanto parece. Além do fato do governo norte-americano considerar nesse momento “muitas alternativas” para a decisão sobre o que fazer com o TikTok, a própria Microsoft teria perdido o interesse na compra do aplicativo, uma vez que o seu futuro seria incerto, mesmo com a compra por uma empresa norte-americana.

Na prática, depende mais do bom humor de Trump do que do pragmatismo de uma legislação.

 

 

 

TikTok, um risco para a segurança nacional norte-americana?

 

 

As dúvidas sobre a segurança no uso dos dados dos usuários no TikTok fez com que ele ganhasse essa imagem de potencial ameaça de espionagem para algumas autoridades e, principalmente, para Donald Trump.

Vários senadores norte-americanos estão pedindo há meses que os serviços de inteligência investiguem os riscos que o TikTok pode implicar para os norte-americanos. Riscos que estariam relacionados com as práticas do gerenciamento de dados e as conexões operacionais entre o governo chinês e a ByteDance, onde o aplicativo encaixaria em cheio no contexto de guerra comercial que envolve os dois países.

Pois bem, a investigação aconteceu. Ficou por conta da CIFUS (Comitê de Investimentos Estrangeiros nos Estados Unidos), e os resultados foram apresentados na semana passada. Dados atualizados mostram a suposta ameaça que a rede social representa para a cidadania norte-americana, e é isso o que levou Donald Trump a cogitar proibir o uso do app nos Estados Unidos.

Além disso, outro projeto de lei está em desenvolvimento, e tem como objetivo ilegalizar o uso do app em dispositivos do governo por parte dos funcionários federais. Algo muito mais razoável do que banir o TikTok dos Estados Unidos, mas que cria o precedente perfeito para a sua não recomendação para o grande público.

 

 

 

O que vai acontecer com o TikTok na prática?

 

 

O TikTok ganhou indiscutível popularidade durante o confinamento obrigatório pela crise sanitária global, onde o número dos seus downloads dispararam. Estima-se que, nesse momento, ele já conte com mais de 1 bilhão de downloads.

Dito isso, é difícil imaginar como será o futuro do TikTok. O app começou a apresentar falhas em alguns países da América Latina, mas pelo menos por enquanto não há nenhuma decisão oficial para o seu funcionamento no continente, incluindo o Brasil.

Porém, conhecendo o comportamento de vários governantes do continente, não é exagero dizer que alguns países vão seguir a decisão dos Estados Unidos, e banir o TikTok nos próximos meses. Mas vamos aguardar com paciência os próximos acontecimentos.

O que é certo nesse momento é que o TikTok nunca esteve tão ameaçado como nesse momento. E o seu futuro é mais incerto do que nunca.

 

 

Via Reuters, The New York Times, Microsoft, Wall Street Journal


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