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É o fim da “Era de Ouro” da televisão

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Durante boa parte do século 21, a televisão viveu o que muitos consideraram sua “Era de Ouro”. Um período marcado por produções ousadas, com qualidade cinematográfica, roteiros complexos e personagens com profundidade emocional raramente vistos antes nas telinhas.

Em 2025, estamos testemunhando o que muitos especialistas consideram o crepúsculo desse período extraordinário na história da televisão. Após mais de duas décadas de uma evolução sem precedentes, a chamada “Era de Ouro” da televisão parece estar chegando ao fim.

Quem afirma isso é ninguém menos que a The Economist, que declarou de forma incisiva: “pague mais, assista menos conteúdo”. A frase resume um sentimento crescente de frustração entre espectadores, produtores e críticos, refletindo uma indústria em transformação — e em crise.

Ou seja, estamos pagando cada vez mais caro para ter uma qualidade cada vez menor.

 

Do papel machê ao ouro

A revolução televisiva não aconteceu da noite para o dia. Até o final dos anos 90, o panorama era dominado por produções de baixo orçamento, cenários simples e narrativas previsíveis.

Na década de 1990, as sitcoms reinavam absolutas, com programas como “Seinfeld”, “Friends” e “Os Simpsons” liderando os índices de audiência. Essa dominância tinha uma explicação econômica simples: eram séries que exigiam investimentos muito menores, e o retorno comercial era enorme.

As séries dramáticas existentes seguiam uma estrutura episódica rígida: cada capítulo apresentava uma história completa que se resolvia ao final, permitindo que o próximo episódio começasse com uma nova trama sem consequências narrativas significativas.

Este formato, conhecido como “serialização”, raramente permitia desenvolvimento profundo dos personagens ou arcos narrativos complexos.

Gêneros como fantasia e ficção científica eram tratados com recursos mínimos, resultando em efeitos especiais amadores e interpretações exageradas. Séries como “Power Rangers” ou “Xena” não tentavam esconder suas limitações orçamentárias, adotando um tom quase autoparódico.

A televisão daquela época não apostava em experimentações. A maioria dos roteiros era pensada para não exigir continuidade entre episódios. Essa escolha tinha justificativa econômica: produzir episódios fechados era mais barato, mais fácil de vender internacionalmente e mais palatável para os anunciantes, que temiam afastar o público com tramas densas ou muito segmentadas.

 

Quando a televisão encontrou o cinema

O marco divisório que transformou fundamentalmente a televisão veio em 1999, com o lançamento de “The Sopranos” pela HBO.

A série introduziu elementos revolucionários para a pequena tela: um protagonista moralmente ambíguo, técnicas cinematográficas sofisticadas, narrativas complexas e um desenvolvimento de personagens profundo que evoluía ao longo dos episódios.

Esta transformação foi possível graças ao modelo de negócios da HBO, baseado em assinaturas em vez de publicidade. Livre das pressões dos anunciantes, a emissora pôde dar liberdade criativa sem precedentes a seus produtores e roteiristas.

O sucesso de “The Sopranos” elevou drasticamente o patamar qualitativo e abriu caminho para produções extraordinárias como “The Wire” (2002), “Lost” (2004), “Mad Men” (2007), “Breaking Bad” (2008) e “Homeland” (2011).

 

A ascensão do streaming e a democratização do conteúdo premium

O surgimento das plataformas de streaming apenas intensificou esta tendência. A Netflix, seguindo o modelo pioneiro da HBO, democratizou o acesso a conteúdo premium com produções como “House of Cards” e “Stranger Things”.

O diferencial do streaming foi a internacionalização, permitindo que fenômenos globais emergissem de diversos países, como “Squid Game” da Coreia do Sul ou “La Casa de Papel” da Espanha.

A entrada de gigantes como Disney+, Amazon Prime Video e Apple TV+ ampliou ainda mais o espectro de produções ambiciosas. Séries de fantasia e ficção científica ganharam orçamentos cinematográficos, com produções como “Game of Thrones”, “The Expanse”, “The Foundation” e as séries do universo Marvel recebendo investimentos sem precedentes.

Segundo dados da consultoria Ampere Analysis, a receita do setor de streaming ultrapassou US$ 17 bilhões em 2024, deixando para trás a TV por assinatura. Plataformas como Netflix e Disney+ agora reúnem centenas de milhões de assinantes ao redor do mundo, confirmando o domínio desse novo formato de distribuição.

 

Dinheiro e qualidade em escala industrial

Os números ilustram a magnitude desta transformação.

Em 1998, antes da revolução iniciada por “The Sopranos”, a NBC estabeleceu um recorde ao investir 286 milhões de dólares anuais em uma única série de 22 episódios: “ER”. Ajustado pela inflação, esse valor corresponderia a aproximadamente 500 milhões de dólares atuais – uma quantia considerável, mas que perde relevância quando comparada aos 13 bilhões de dólares investidos pela Netflix em conteúdo apenas em 2023.

A qualidade também experimentou um salto significativo. Conforme dados do IMDb analisados pelo The Economist, as séries dramáticas dos anos 70 e 90 apresentavam uma pontuação média de 7,85 em 10. Em 2010, essa média havia subido para 8,17.

Mais impressionante ainda, desde 2010, 73 séries ultrapassaram a nota 9, enquanto na década de 90 apenas 11 produções alcançaram essa marca.

Outro indicador da revolução televisiva foi a migração de talentos do cinema para a televisão. Atores consagrados como Martin Sheen, Kiefer Sutherland, Kevin Spacey e Cillian Murphy protagonizaram séries sem que isso fosse interpretado como um rebaixamento em suas carreiras – pelo contrário, a televisão passou a ser vista como um meio capaz de oferecer papéis tão ou mais desafiadores e complexos que o cinema.

 

Quando a bolha começa a murchar

Existem sinais crescentes de que este período áureo está chegando ao fim.

Em 2022, foram produzidas 599 séries originais, um número considerado “limite” pela Variety. No ano seguinte, observou-se uma queda drástica de 24% na produção, conforme dados da Ampere Analysis.

A tendência de declínio continuou em 2024, embora em ritmo menos acentuado, com uma redução de 7% nas produções nos Estados Unidos.

Paradoxalmente, enquanto o número de séries diminui, os gastos continuam aumentando: 14% em 2023 e 9% em 2024. No entanto, esses incrementos parecem modestos quando comparados ao aumento extraordinário de 45% observado entre 2021 e 2022, período imediatamente posterior à pandemia.

O excesso de conteúdo, a competição por atenção e a fragmentação das plataformas fizeram com que a experiência do usuário se tornasse mais frustrante.

Ao invés de concentrar suas séries favoritas em um único serviço, o espectador precisa hoje assinar múltiplas plataformas para acompanhar o que antes estava centralizado.

Pior: a promessa de qualidade nem sempre se cumpre.

O volume crescente de lançamentos diluiu o padrão de excelência. Muitas produções são lançadas sem direção clara, com roteiros genéricos e apelo puramente comercial.

Além disso, a explosão de investimentos não é mais sustentável. Gigantes do setor começaram a demitir equipes, cancelar séries antes mesmo do final da primeira temporada e investir menos em produções autorais.

A busca por lucro e crescimento acelerado transformou um terreno fértil para a criatividade em uma indústria marcada por incertezas.

 

Lucratividade acima da criatividade

As declarações de figuras importantes da indústria refletem esta mudança de paradigma. David Chase, criador de “The Sopranos”, lamentou recentemente que “a era da televisão complexa e ambiciosa acabou” após 25 anos de extraordinária liberdade criativa, afirmando que os estúdios agora exigem roteiros mais simplificados sob a justificativa de que o público “não consegue se concentrar” em narrativas densas.

A especialista em mídia Siobhan Lyons foi ainda mais específica ao afirmar que com o término de “Better Call Saul” (2015-2022), a Era de Ouro da televisão chegou oficialmente ao fim.

Estas percepções coincidem com mudanças visíveis nas estratégias comerciais das plataformas de streaming. Desde 2023, os principais serviços implementaram restrições ao compartilhamento de contas e aumentaram significativamente os preços de assinatura.

A publicidade, elemento que as plataformas de streaming inicialmente rejeitavam, está retornando através de planos com anúncios, oferecidos como alternativas mais acessíveis.

 

Presente dourado, futuro incerto

O panorama atual sugere uma transição do que os críticos denominavam “Golden Age” (Era de Ouro) para o que agora chamam de “Peak TV” (TV de Pico): continuaremos recebendo grande volume de conteúdo, mas provavelmente com padrões qualitativos inferiores aos que caracterizaram as últimas duas décadas.

Para os consumidores, a realidade está se tornando menos atraente: pagamentos mais elevados por acesso a um catálogo que, apesar de ainda vasto, oferece menos novidades e possivelmente menor qualidade média.

As estratégias de agrupamento de serviços (bundling) já estão sendo implementadas, com Disney e Warner Bros lançando pacotes combinados de suas plataformas, enquanto a Comcast oferece Netflix e Apple TV+ junto com seu próprio serviço, o Peacock.

Fusões e aquisições também marcam esta nova fase. A venda da Paramount, um dos estúdios mais tradicionais de Hollywood, para a Skydance Media deve ser concluída em 2025, enquanto rumores de outras consolidações envolvendo Comcast, Warner Bros e Fox Corporation ganham força.

 

O legado permanente

Apesar das perspectivas incertas, o legado da Era de Ouro da televisão permanecerá. As duas décadas entre o lançamento de “The Sopranos” e o encerramento de “Better Call Saul” representaram uma revolução sem precedentes que elevou permanentemente os padrões narrativos, técnicos e artísticos da televisão.

Mesmo que estejamos testemunhando o fim de uma era extraordinária, o vasto repositório de obras-primas produzidas neste período continuará disponível, permitindo que gerações futuras revisitem este momento singular na história do entretenimento audiovisual.

Para os espectadores contemporâneos, a recomendação é clara: aproveitem 2025, que ainda incluirá projetos adiados devido às greves de Hollywood de anos anteriores. Com novas temporadas de séries aclamadas como “The White Lotus” e o capítulo final de “Stranger Things” chegando às telas, este ano pode representar o último suspiro verdadeiramente dourado de uma era que revolucionou para sempre nossa relação com a televisão.

O fim da Era de Ouro não significa o fim da televisão de qualidade. Assim como o cinema passou por diversas fases, a TV também está se reinventando. O cenário atual parece indicar uma transição: menos produções megalomaníacas, mais foco em nichos, narrativas mais enxutas e orçamentos controlados.

Há quem veja com otimismo essa mudança. A saturação pode abrir espaço para obras mais autorais, novas linguagens e formatos híbridos — entre cinema, podcast, vídeo sob demanda e redes sociais.

A TV, afinal, é resiliente. E a criatividade, mesmo sufocada por métricas e executivos, sempre encontra um jeito de emergir.

A pergunta que fica não é se a televisão está morrendo, mas qual será a próxima revolução — e quem irá liderá-la.


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