
A recente plataforma Grokipedia, criada por Elon Musk e sua empresa xAI, foi lançada como uma alternativa à Wikipedia. Musk afirma que o objetivo é oferecer “a verdade, toda a verdade e nada além da verdade”, mas o projeto rapidamente se tornou controverso.
No universo de Elon Musk, a verdade é algo muito mais volátil que a pura constatação dos fatos. As visões alternativas de mundo do dono da Tesla aparentemente pautam a perspectiva dos acontecimentos da Grokipedia, o que é algo extremamente problemático.
Críticos apontam que o site reproduz parte do conteúdo da Wikipedia, porém com distorções ideológicas e omissões propositais. Além disso, os textos favorecem a imagem de Musk e de suas empresas, enquanto articulam narrativas contrárias a pautas de diversidade e ciência.
Conteúdo enviesado e racista
A Grokipedia apresenta artigos que diferem drasticamente de suas referências na Wikipedia. Muitos deles contêm linguagem que especialistas classificam como racista e transfóbica, especialmente em páginas sobre raça, gênero e minorias sociais.
O caso de George Floyd é um exemplo emblemático: o artigo minimiza o assassinato e enfatiza seu histórico criminal, algo interpretado como expressão deliberada de preconceito racial. Entradas sobre pessoas trans usam termos ultrapassados e ofensivos, novamente em contraste com o padrão inclusivo da Wikipedia.
Essas práticas reforçam a percepção de que o site reflete a visão de mundo pessoal de Musk e setores políticos à direita do espectro. De acordo com analistas, o tom lembra o discurso comum em fóruns on-line alinhados ao extremismo digital.
Ideologia mascarada de “neutralidade”
Embora Musk anuncie a Grokipedia como uma enciclopédia neutra, seu conteúdo demonstra preferências políticas e científicas claras. Artigos sobre vacinas, mudanças climáticas e COVID-19 enfraquecem consensos científicos amplamente documentados.
Ao sugerir incerteza em temas comprovados, a plataforma promove uma narrativa de ceticismo infundado, algo visto como perigoso em tempos de desinformação digital massiva. Vários portais de checagem notam que a Grokipedia dá legitimidade a teorias desmentidas há anos.
A aposta de Musk parece ser ideológica: ele busca criar um repositório de informações filtrado por uma lógica “anti-woke”. Essa escolha, segundo especialistas, não apenas reduz a credibilidade da página, mas também tensiona o debate sobre liberdade de expressão e responsabilidade digital.
Musk como protagonista conveniente
Enquanto críticas proliferam em tópicos sociopolíticos, a cobertura sobre Musk e suas empresas é notavelmente favorável. Biografias suavizam aspectos controversos, como a fortuna familiar ou as falhas corporativas da Tesla e da SpaceX.
O texto sobre Musk omite ligações familiares com o regime do apartheid na África do Sul e o tenta retratar como exemplo de meritocracia. Seus produtos, por outro lado, são descritos de forma elogiosa, e problemas técnicos são minimizados ou atribuídos à “má mídia”.
Esse padrão revela uma tática clara de construção de imagem pública. A Grokipedia, nesse sentido, funciona tanto como enciclopédia parcial quanto como instrumento de reforço da marca pessoal de Musk e de suas empresas frente ao público de direita global.
E se muitas pessoas reclamavam das possíveis inconsistências da Wikipedia por conta do seu propósito colaborativo (com informações compartilhadas e verificadas pelos próprios usuários), no caso da Grokipedia, o contexto é alarmante e criminoso.
A não ser que você seja o tipo de pessoa que normaliza o racismo, a transfobia e o nazismo. Neste caso, o site é mais do que recomendado.
Via The Verge

