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Como usam a tecnologia para te enganar

Quando pessoas desprovidas de códigos morais e éticos usam a tecnologia para suplantar os direitos individuais de terceiros, as chances de algo muito ruim acontecer são enormes. E os impactos dessa violência ao próximo podem ser devastadores.

Infelizmente, é correto afirmar que ninguém está a salvo de uma exposição comprometedora ou de um ato indecente em função das tecnologias que estão ao nosso alcance neste exato momento. E precisamos reavaliar legislações para ao menos tentar conter de alguma forma o uso negativo desses recursos tecnológicos.

Os casos de violação de privacidade e exposição ao próximo estão aparecendo de forma cada vez mais frequente ao redor do mundo. E quando muitos antes se preocupavam apenas com as deepfakes, agora precisam pensar que óculos inteligentes e pingentes que gravam tudo também são ameaças à integridade moral.

 

O caso das Meta Ray-Ban na Espanha

A polícia espanhola prendeu o primeiro homem no país por usar óculos Meta Ray-Ban para gravar centenas de mulheres sem consentimento.

O detido utilizava os vídeos para promover seu curso de sedução, vendido por 3.000 euros mais mensalidade de 45 euros. Durante as abordagens, ele também realizava toques inapropriados e tentativas de beijo não consensuais.

O aspecto mais intrigante do caso revela que nenhuma das vítimas demonstrou perceber que estava sendo gravada, mesmo com os óculos Meta Ray-Ban contando com um LED indicativo que permanece aceso durante gravações e emitem sons ao capturar fotos ou iniciar gravações.

O problema é que existem algumas exceções que impedem o funcionamento caso o LED seja obstruído. Logo, fica a pergunta: como esse cara conseguiu gravar as pessoas sem elas perceberem disso?

Duas hipóteses explicam como as gravações passaram despercebidas:

  1. A modificação do hardware dos óculos, o que indica uma violação direta dos termos de uso do dispositivo;
  2. Ou simplesmente o desconhecimento das vítimas sobre os indicadores visuais.

A segunda opção parece mais provável, evidenciando a ausência de uma convenção social estabelecida para identificar quando alguém está gravando com esses dispositivos.

Os smartphones automaticamente nos deixam alertas quando vemos alguém segurando um na nossa frente. Já no caso dos óculos inteligentes, a grande maioria das pessoas ainda não desenvolveu uma percepção objetiva sobre o status de gravação.

Reguladores europeus da Irlanda e Itália questionam se os indicadores LED são suficientes para garantir transparência, mas enquanto uma legislação não estabelece um parecer mais claro sobre o assunto, as chances dos mais leigos serem enganados são enormes.

 

Inteligência artificial e desinformação visual

O lançamento do Veo 3 está acelerando o fenômeno do “grande descrédito digital”, expandindo a desconfiança das imagens para os vídeos.

Os criadores de conteúdo mais conscientes marcam de forma transparente seus conteúdos como gerados por IA, aproveitando as marcas d’água automáticas do SynthID. Esse é um pré-requisito implementado por algumas redes sociais, mas não em todas.

Mas boa parte dos usuários não está se importando em compartilhar essa informação de conteúdo gerado por IA, pois o objetivo final é efetivamente enganar os mais leigos. E a grande maioria das pessoas ainda não despertaram para uma percepção objetiva sobre o material que pode ser criado por um chatbot.

Os comentários dos usuários revelam reações diversas: alguns lamentam o conteúdo artificial de baixa qualidade, outros tratam os vídeos como gravações reais de rua. Existem também aqueles que identificam o uso de IA mas escolhem ignorar essa informação, e outros para quem a distinção entre real e artificial perdeu relevância.

 

Adaptação tecnológica desigual em um cenário de transformação

O fenômeno mostra de forma clara como o futuro tecnológico já existe, mas sua compreensão não está uniformemente distribuída na sociedade.

Durante o período de adaptação do público geral às tecnologias já utilizadas pelos early adopters, surgem oportunidades tanto para atividades criminosas quanto para criação de conteúdo questionável.

Essa defasagem é temporária, felizmente. A cobertura midiática do caso das Ray-Ban, discussões em programas de televisão e viralização nas redes sociais devem educar gradativamente o público sobre esses dispositivos, o que vai desenvolver no coletivo um maior ceticismo em relação ao conteúdo visual online.

As novas tecnologias naturalmente mudam a nossa percepção do mundo e as convenções sociais que considerávamos imutáveis. A onipresença de smartphones transformou qualquer espaço público em área de potencial gravação, criando um “Big Brother distribuído” onde qualquer ação pode ser capturada.

O conteúdo gerado por IA inicialmente parece inaceitável quando confunde ou aparenta ser real, sendo classificado como desinformação. E dentro dessa perspectiva, é uma visão correta.

Contudo, muitos criadores vão descobrir que essa distinção se torna secundária para o público, pois frequentemente o importante são os objetivos do vídeo e seu poder viral, e não sua origem tecnológica.

No final das contas, plataformas de geração de vídeos por IA pode sim beneficiar os produtores de conteúdo independentes e comprometidos com o entretenimento dentro de códigos morais e éticos.

Para os demais, que vão tentar manipular a realidade ou invadir a privacidade alheia, fica a esperança de legislações mais rígidas para conter os abusos do uso da tecnologia moderna.

Em qualquer cenário (online, offline ou virtual), prejudicar o outro de forma objetiva tem as suas consequências para quem entende que o outro não merece respeito.

 

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