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Como um CEO desconhecido lidera o ranking salarial dos EUA

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O CEO mais bem pago dos Estados Unidos em 2024 é James Anderson, um executivo praticamente desconhecido do grande público, que comanda a Coherent, uma empresa de tecnologia especializada em sistemas de rede e laser sediada na Pensilvânia.

Anderson recebeu uma compensação total de US$ 101,5 milhões, sendo o único CEO no ranking da Equilar a ultrapassar a barreira dos nove dígitos em remuneração, muito acima da média salarial dos CEOs, que atingiu o recorde de US$ 25,6 milhões.

Apenas como contexto: Anderson possui ganhos que superam a todos os grandes CEOs do planeta. Tem executivos que vivem apenas dos lucros acionários, ou que não contam com salários.

 

O que aconteceu aqui?

Anderson possui um salário base que supera a casa de um milhão de dólares anuais, mas 99,4% de seus recebimentos vieram de um pacote de ações cujo valor disparou inesperadamente após o anúncio de sua nomeação na Coherent.

A própria empresa reconheceu que o método de avaliação das ações não refletia a subsequente explosão do mercado, o que amplificou artificialmente o valor do pacote.

Além disso, a compensação incluía valores referentes à perda de ações acumuladas durante sua passagem pela Lattice Semiconductor.

O impacto de sua transferência entre empresas foi imediato: no mesmo dia do anúncio, a Lattice perdeu US$ 1,6 bilhão em valor de mercado, enquanto a Coherent ganhou cerca de US$ 2 bilhões em capitalização.

 

Ele vale tudo isso?

Anderson tem um histórico comprovado de bons serviços prestados pelas empresas que passou, tendo elevado as ações da Lattice em mais de 875% durante seu mandato, superando significativamente o índice S&P 500.

O caso de Anderson confirma uma tendência dominante na remuneração de executivos contemporâneos, que é o pagamento de bônus salariais em ações de empresas, que representa cerca de 73% do salário médio total dos CEOs, um aumento de 41% em relação ao ano anterior.

Essa forma de remuneração, associada ao desempenho em bolsa e não aos resultados imediatos, tem justificado compensações extremamente elevadas, mesmo em empresas que não apresentam lucros proporcionais para realizar tais pagamentos.

 

Um método alternativo de compensação

Além de salários e ações, muitos CEOs contam com benefícios extravagantes, como serviços de segurança pessoal e voos em jatos particulares. E isso, só para mencionar algumas das regalias mais “normais” para esses profissionais.

Tim Cook, por exemplo, recebeu mais de US$ 780.000 em serviços de segurança e US$ 655.000 em voos particulares. E tudo isso, vai para a conta dele como “compensação” de gastos por prestar serviços relevantes para a Apple no seu posto de CEO.

Aproximadamente um terço das empresas do S&P 500 já oferece alguma forma de proteção executiva a seus dirigentes em forma de compensação financeira ou ações, um aumento de 28% em relação a 2023, confirmando a tendência de métodos alternativos para pagamentos de salários e bônus empresariais.

Outro exemplo emblemático de CEO que obtém benefícios através da política de compensação empresarial é ninguém menos que Elon Musk.

Embora ausente do ranking porque a Tesla ainda não apresentou seu relatório de compensação, Musk possui um plano de 10 anos aprovado em 2018 na empresa, que é atualmente avaliado em cerca de US$ 70 bilhões.

É tão absurdo, que foi contestado judicialmente e aguarda decisão na Suprema Corte de Delaware.

 

Recortes de vida distantes da realidade

A crescente desconexão entre o desempenho real das empresas e a remuneração dos executivos tem alimentado críticas à falta de controles eficazes sobre a compensação corporativa.

Como resumiu Dean Baker, cofundador do Centro de Pesquisa Econômica e Política, “não há controle real sobre o que os CEOs recebem”, acrescentando que muitos desses profissionais não são extraordinários em suas funções, mesmo que sejam pagos como se fossem.

E tudo isso acontece no momento em que o debate sobre a desigualdade salarial e a concentração de riqueza se torna mais intenso com toda a dinâmica de economia global, com o tarifaço, conflitos internacionais e inflação nos principais mercados.

James Anderson não apenas é uma grande exceção do mundo real, como é quase uma aberração corporativa. A materialização de uma problemática tendência estrutural no sistema corporativo norte-americano, onde a percepção de valor frequentemente excede a realidade objetiva do desempenho.


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