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Como o YouTube TV fez a DirecTV mudar o pacote MySports

O mercado de televisão paga nos Estados Unidos vive um dos momentos de maior transformação de sua história. Tal e como acontece aqui no Brasil, o segmento está em queda livre no número de assinantes, e com a concorrência direta do streaming, os serviços precisam se reinventar.

Impulsionada pelo fenômeno do cord-cutting — o abandono massivo de pacotes de TV convencional em favor de serviços de streaming — uma nova geração de produtos chamados skinny bundles (pacotes enxutos) redefine as regras do consumo audiovisual.

No centro dessa batalha, DirecTV e YouTube TV protagonizam uma disputa acirrada pelo bolso do fã de esportes americano. A plataforma de streaming lançou recentemente os novos planos de seu serviço de IPTV, o que obrigou a tradicional marca de TV paga norte-americana a reformular o recém-lançado pacote MySports, que ficou mais objetivo e direto para quem quer acompanhar todas as principais modalidades esportivas.

Vamos entender melhor os impactos dessa mudança.

 

O terreno que antecedeu a guerra

Para entender o movimento da DirecTV, é preciso recuar alguns meses no calendário.

Em 2024, uma ambiciosa joint venture batizada de Venu Sports prometia reunir sob um único teto os canais esportivos da Disney, da Warner Bros. Discovery e da Fox. O projeto, que concentraria mais de 50% dos direitos esportivos americanos, foi barrado judicialmente após uma disputa movida pela FuboTV, que alegou práticas anticompetitivas.

Com o Venu Sports fora do ar antes mesmo de estrear, abriu-se um vácuo estratégico no mercado.

A DirecTV aproveitou o espaço deixado pelo fracasso da empreitada e lançou, no início de 2025, o MySports como alternativa direta — um pacote temático desenhado especificamente para o público que consome esportes ao vivo e não quer pagar por dezenas de canais de entretenimento, culinária ou noticiário que jamais acessa.

 

O que é o MySports e como ele foi reformulado

Lançado originalmente em janeiro de 2025, o MySports chegou ao mercado com 40 canais esportivos e de transmissão aberta, ao preço inicial de US$ 49,99 mensais nos primeiros três meses, passando depois para US$ 69,99 por mês.

O pacote incluía, desde o início, nomes de peso como ESPN, Fox Sports, TNT, TBS, NBA TV, NFL Network, MLB Network, NHL Network, além de redes abertas locais como ABC, Fox e NBC.

A novidade recente, porém, veio com uma reformulação significativa na proposta comercial. A DirecTV revampou o MySports com uma versão atualizada precificada a US$ 64,99 mensais, eliminando alguns canais de notícias da grade e concentrando a oferta em conteúdo esportivo e grandes redes de transmissão aberta.

O movimento foi deliberado: ao retirar emissoras jornalísticas do pacote base, a empresa reduziu o preço em relação à versão anterior e passou a competir diretamente com o plano esportivo recém-lançado pelo YouTube TV.

Para novos assinantes, há ainda uma taxa introdutória de US$ 44,99 por mês durante os primeiros dois meses, após o qual o serviço passa para o valor padrão.

 

A estratégia de dois trilhos para assinantes antigos

Um detalhe operacional relevante distingue a abordagem da DirecTV: a empresa não forçou a migração de quem já era assinante para o novo modelo.

Os clientes já inscritos no MySports continuam recebendo a grade de canais anterior, incluindo as emissoras de notícias que foram removidas da versão renovada. O plano deles foi renomeado como “MySports Original” e permanece a US$ 70 mensais.

Há, contudo, uma crítica pertinente ao processo: a empresa não notificou proativamente os assinantes existentes sobre as modificações.

Para descobrir as mudanças e decidir entre manter o status de plano grandfathered ou migrar para a oferta mais barata, o assinante precisa acessar ativamente a seção “Manage Account” no site ou aplicativo da DirecTV.

Alguns usuários relataram em fóruns que foram orientados a cancelar e reativar o serviço para ter acesso ao novo preço.

 

O que está incluso na versão reformulada

A grade do MySports reformulado mantém um leque robusto de canais.

Por US$ 64,99 mensais, o pacote entrega canais esportivos e as principais redes abertas, sem cobrar por conteúdos que o assinante não consome — além de incluir o ESPN Unlimited sem custo adicional.

O ESPN Unlimited é a versão evoluída do antigo ESPN+, com cobertura ampliada de partidas ao vivo.

A grade conta com ESPN, ESPN2, ESPNU, SEC Network, FS1, NFL Network, NHL Network, NBA TV, entre outros canais voltados a grandes ligas e competições universitárias.

Para quem quiser expandir a cobertura, a DirecTV disponibiliza complementos opcionais: o MySports Extra, por US$ 12,99 adicionais mensais, acrescenta canais como NFL RedZone e MotorTrend; já o MyHome Team, por US$ 19,99 por mês, libera o acesso às redes esportivas regionais (RSNs), com jogos de times locais da MLB, NBA e NHL.

Outro diferencial tecnológico: o MySports oferece transmissão em 4K para os conteúdos disponíveis nos canais do pacote sem custo adicional, além de DVR na nuvem ilimitado e até 20 streams simultâneos na rede doméstica.

 

O YouTube TV entra na disputa com plano próprio

Foi a movimentação do YouTube TV que catalisou a resposta da DirecTV.

A plataforma do Google passou a lançar novos planos segmentados por gênero a partir de fevereiro de 2026, incluindo um Plano Sports a US$ 65 mensais — US$ 18 a menos que o pacote completo da plataforma, que custa US$ 83 por mês.

O pacote esportivo do YouTube TV reúne cerca de 30 canais, incluindo as grandes emissoras abertas (ABC, CBS, Fox e NBC), as redes ESPN, TBS, TNT, USA, além de canais especializados como Big Ten Network, Golf Channel, NBA TV e NFL Network.

O serviço do Google tem vantagens pontuais. Em alguns mercados, o YouTube TV Sports inclui as redes regionais NBC Sports, que não integram o pacote base do MySports da DirecTV — embora a DirecTV ofereça o complemento MyHome Team por US$ 20 adicionais para cobrir essas redes em determinadas regiões.

Por outro lado, o YouTube TV Sports apresenta lacunas perceptíveis. A plataforma não oferece MLB Network, NHL Network nem ESPN Unlimited — três canais considerados essenciais por fãs de beisebol, hóquei e consumidores de conteúdo ESPN mais aprofundado.

 

A Fubo também está no ringue

O duelo não é bilateral.

A FuboTV — que paradoxalmente ajudou a inviabilizar o Venu Sports com sua ação judicial — também tem um produto no segmento.

O Fubo Sports custa US$ 56 mensais para 21 canais e inclui o ESPN Unlimited, embora não traga Turner Sports (TBS e TNT) nem CBS em sua grade básica. Redes esportivas regionais ficam restritas ao plano de US$ 74 mensais.

O Fubo aparece, portanto, como a opção mais barata entre as três, mas com uma grade menos abrangente. Para quem prioriza custo-benefício acima de completude, pode ser suficiente; para o fã que não quer abrir mão de nenhuma grande liga, o pacote apresenta limitações evidentes.

 

Vantagens e desvantagens comparativas

Uma análise lado a lado dos três serviços revela nuances importantes para o consumidor. DirecTV MySports, Fubo Sports e YouTube TV Sports compartilham ou compartilharão o ESPN Unlimited sem custo adicional, o que nivela esse quesito específico entre as plataformas

Em termos de satisfação de usuário, os números pesam a favor da DirecTV.

Em pesquisa de satisfação realizada em 2026 com assinantes de TV ao vivo por streaming, a DirecTV obteve 82% de aprovação geral — a maior entre os grandes provedores, superando o YouTube TV em mais de 10 pontos percentuais.

Além disso, 97% dos assinantes da DirecTV relataram satisfação com a experiência de assistir esportes ao vivo.

O YouTube TV, por sua vez, tem como trunfo sua interface consolidada, o DVR ilimitado e o ecossistema Google — além da exclusividade do NFL Sunday Ticket, o pacote de jogos fora de mercado da NFL, que a DirecTV perdeu para a plataforma em anos anteriores.

 

O pano de fundo: a crise estrutural da TV paga

A disputa pelo assinante esportivo não acontece no vácuo. Ela é sintoma de uma transformação mais profunda na indústria televisiva americana.

A DirecTV convive há anos com o impacto do cord-cutting, que vem reduzindo o número de assinantes de forma contínua — processo agravado pelos reajustes de preço e pela perda do NFL Sunday Ticket para o YouTube.

Os skinny bundles surgem como resposta adaptativa a essa realidade. Em vez de tentar reter o consumidor com uma oferta enciclopédica de canais que ele não assiste, as operadoras apostam na segmentação por nicho.

Quem quer esportes paga por esportes. Quem quer entretenimento paga por entretenimento. O modelo reconhece, de forma explícita, que o telespectador do século 21 não aceita mais pagar pelo que não consome.

O CEO da DirecTV, Bill Morrow, deixou claro que o MySports é apenas o primeiro passo de uma estratégia mais ampla. A empresa planeja lançar outros pacotes temáticos, abrangendo conteúdo infantil, lifestyle e cultura — um ecossistema de genre packs que já conta com MyEntertainment, MyNews, MiEspañol e MyKids, além do carro-chefe esportivo.

 

O que o movimento sinaliza para o mercado

A reformulação do MySports a US$ 64,99 — exatamente o mesmo preço do plano Sports do YouTube TV — não é coincidência. Trata-se de um posicionamento deliberado para competir diretamente no mesmo patamar de preço, eliminando o argumento de custo como diferencial do concorrente.

O campo de batalha agora se desloca para a qualidade da grade, a robustez tecnológica das plataformas e a capacidade de cada serviço de garantir os direitos de transmissão das competições mais relevantes.

Com a ESPN preparando seu próprio produto direto ao consumidor, com a NBA e a NFL firmando acordos de transmissão que reconfiguram o ecossistema, e com novas plataformas entrando no mercado a cada temporada, a guerra pelos fãs de esportes americanos está apenas começando.

Para o assinante, o resultado imediato é positivo: mais opções, preços menores e pacotes mais alinhados com seus hábitos reais de consumo.

Para as empresas, o desafio (para muitos, em forma de pesadelo) é crescente — e a margem para erro, cada vez mais estreita.