Press "Enter" to skip to content

Como o sucesso de ‘Lilo & Stitch’ nos cinemas “pode ser um problema”

A gente nunca fica satisfeito com nada nessa vida. E você vai entender onde eu quero chegar no final desse artigo, com alguma sorte (vai que eu escrevo um monte de groselhas sem sentido…).

Todo mundo querendo que os cinemas voltem a ganhar evidência, relevância e, principalmente, público. Ainda mais agora, que estamos em pleno verão norte-americano, momento em que as principais estreias chegam nas salas de cinema.

Dito isso, eu tenho uma boa e uma má notícia para contar.

A boa notícia é que o remake live-action de ‘Lilo & Stitch’ foi um enorme sucesso no seu início de vida nos cinemas, algo que já era esperado por muitos (inclusive por mim, que apostou que essa tentativa específica de transformar animação em realidade funcionaria para Disney – diferente das outras porcarias que chegaram aos cinemas).

A má notícia que um sucesso tão grande para um filme da Disney pode representar o fracasso de todo o resto. Inclusive de Tom Cruise, que deve estar muito irritado neste momento.

 

‘Lilo & Stitch’ chegou chutando bundas

O remake live-action de ‘Lilo & Stitch’ dominou completamente as bilheterias mundiais em seu primeiro fim de semana, arrecadando 341 milhões de dólares ao redor do planeta. É, com sobras uma das melhores estreias de 2025.

O filme superou facilmente seu orçamento de produção de 100 milhões de dólares em apenas três dias, tornando-se a segunda melhor estreia do ano, perdendo apenas para o fenômeno ‘Um Filme Minecraft’.

Em vários mercados globais, o efeito ‘Lilo & Stitch’ se repetiu. Em alguns casos, 70% da participação do mercado ficou nas mãos do filme que conta a história da menina havaiana que tem como melhor amigo um alienígena azul que é considerado uma arma de destruição fora do planeta Terra.

A dominância de ‘Lilo & Stitch’ é quase absoluta. Só não foi totalmente hegemônica porque Ethan Hunt estava tentando salvar o mundo pela oitava e última vez.

‘Missão Impossível: O Acerto Final’ também teve uma estreia expressiva, levando em consideração o contexto de momento. O filme produzido e estrelado por Tom Cruise que mostra a última missão de Ethan Hunt arrecadou 190 milhões de dólares ao redor do planeta, e atraiu mais da metade dos espectadores que não assistiram a ‘Lilo & Stitch’ no final de semana de estreia dos dois filmes.

São números expressivos para um filme do porte da franquia ‘Missão: Impossível’. Mas em um cenário de normalidade, com uma estreia isolada, o longa de ação teria números melhores.

E todo esse sucesso de ‘Lilo & Stitch’ reforça uma teoria que, para muitos, é realidade prática faz tempo.

 

O início da ‘era da nostalgia para a Geração Z’

É até esquisito falar de nostalgia para uma geração que sequer chegou aos 20 anos de idade, mas é basicamente isso o que está acontecendo.

A mesma Geração Z, que prefere registrar fotos em câmeras digitais do passado (para obter um resultado mais orgânico das fotos – sem a influência de algoritmos para melhorar as imagens) e que estão recorrendo ao MP3 e celulares “burros” para fugir da hiperconectividade, é a que deu essa audiência toda para ‘Lilo & Stitch’ em todo o planeta.

Ninguém parou para pensar nisso, mas… ‘Lilo & Stitch’ é a primeira grande produção da Disney baseada nas memórias cinematográficas da geração mais jovem. Em função de seu ano de lançamento (2002), ele é o mais “jovem” dos live-actions lançados pela Disney até agora, e conversa diretamente com a Geração Z no quesito nostalgia.

Coincidência ou não, quando ‘Lilo & Stitch’ estreou no começo do século, o lançamento marcou o que muitos consideram até hoje como o “fim” da Era de Ouro da animação da Disney, em função da ascensão da Pixar e da DreamWorks, além de ser um dos últimos filmes lançados no formato VHS, em pleno período de transição definitiva para os DVDs.

Não sou membro da Geração Z, mas tenho um certo aprecio afetivo pelo ‘Lilo & Stitch’ original. Ainda não vi o remake em live-action, mas desde que o projeto apareceu, afirmei de forma categórica que esse poderia ser o filme que mais poderia dar certo nessa proposta da Disney em repaginar os clássicos de animação no formato de realidade.

Pelos números, acho que minha aposta está mais do que paga. E a Disney tinha o mesmo pensamento.

 

Dinheiro, dinheiro, dinheiro

Não podemos nos esquecer jamais que isso é um negócio. E o que a Disney está fazendo é, basicamente, monetizar em cima da nostalgia.

O investimento massivo em marketing faz sentido quando observamos o negócio de merchandising. E diante de tudo o que aconteceu com, por exemplo, o horroroso ‘Branca de Neve’, a Disney tinha que fazer de tudo para esse filme bombar (e muito) nos cinemas ao redor do planeta.

E encontrou em ‘Lilo & Stitch’ uma boa saída, tanto nos aspectos criativos quanto nos comerciais. A Disney percebeu que as crianças de 2002 cresceram, e foram buscar o amigo de infância para conviver com ele no presente, inclusive para transferir para os filhos o amor e o carinho pela criatura.

As vendas anuais de produtos relacionados ao personagem Stitch saltaram de 200 milhões de dólares em 2019 para mais de 2,6 bilhões de dólares no ano passado, segundo dados do Wall Street Journal.

O alienígena azul tornou-se uma das principais atrações nos parques temáticos da Disney. E é certo que são os fãs de ‘Lilo & Stitch’ do começo do século que estão levando os filhos pela mão e usando eles como desculpa para reviver a alegria do passado.

 

E onde tudo isso é um problema para o cinema?

Eu quase ia me esquecendo que prometi falar sobre o aspecto negativo do sucesso de ‘Lilo & Stitch’ em live-action. Na verdade, comecei a falar sobre o assunto quando mencionei a insatisfação de Tom Cruise com a concorrência.

Se ficou difícil para que um filme da franquia ‘Missão: Impossível’ conseguisse capitalizar no seu capítulo final porque “o alienígena azul embaçou o rolê”, imagine para todo o resto.

Enquanto a bilheteria geral cresceu 205% em relação ao fim de semana anterior aos lançamentos dos dois filmes, 16 outros títulos dividiram todo o resto da receita, que é residual quando dois blockbusters estreiam no mesmo final de semana.

Não estamos falando exatamente de um novo “Barbenheimer” aqui. São filmes com públicos diferentes, mas não polarizadores de narrativa como aconteceu em um passado não muito distante.

São filmes blockbuster de toda a regra.

Porém, com estreias de tamanho impacto em um mesmo final de semana, o público naturalmente vai se dividir. Quem venceu foi (obviamente) o filme com perfil mais familiar. O problema é que todo o resto perde, e com muita força.

Colocar dois blockbusters para brigar o tempo todo pelo público passa bem longe de ser uma estratégia inteligente ou sustentável. É uma decisão que acaba com a diversidade cinematográfica nas salas de cinema.

Por mais que as redes de cinemas adorem ver dois grandes filmes vendendo ingressos a rodo, todos os demais deixam de ser vistos e reconhecidos, causando um desnivelamento de visibilidade.

E isso tende a piorar ao longo dos meses de junho e julho, com as estreias que ainda estão por vir.

Por isso, ‘Lilo & Stitch’ bombar desse jeito só é bom basicamente para a Disney.

Para todos os demais envolvidos, é sim motivos de preocupação.