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Como o streaming faz você dormir mais cedo

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Fato: alguns de nós dormimos mal por causa do streaming. Todas aquelas horas e horas procurando conteúdos na Netflix e madrugadas manatonando filmes e séries iriam cobrar um preço mais cedo ou mais tarde.

Mas… quando a ciência decide interferir e realizar estudos que são menos úteis do que descobrir a cura do câncer, apenas e tão somente para contrariar aquilo que acreditamos que sabemos, tudo fica um pouco mais interessante.

A relação entre tecnologia e bem-estar continua surpreendendo os especialistas (e não os usuários). Enquanto muitos alertam sobre os perigos da exposição excessiva às telas, uma descoberta contradiz parcialmente essa narrativa.

Diferentemente do esperado, as plataformas de streaming não prejudicaram nossos padrões de descanso – pelo contrário: contribuíram para uma antecipação significativa do horário em que as pessoas vão dormir.

 

Dormindo mais cedo na era digital

Um estudo conduzido pela Universidade do Kansas analisou o impacto dos serviços de streaming nos hábitos noturnos da população. Intitulada “O papel da mudança dos horários televisivos e do recolhimento na era inicial do streaming”, a pesquisa revelou dados surpreendentes sobre como nosso comportamento evoluiu nas últimas duas décadas.

De acordo com os pesquisadores, atualmente as pessoas vão para a cama aproximadamente às 22h14, representando um avanço de 22 minutos em comparação a 2003, quando o horário médio registrado era 22h36.

O levantamento, que entrevistou 200 mil adultos, demonstra uma transformação significativa nos padrões de repouso da sociedade contemporânea.

A mudança é ainda mais expressiva entre os jovens adultos. Na faixa etária de 18 a 29 anos, o horário médio de recolhimento é ainda mais cedo: 21h42. Este dado contradiz a percepção comum de que os jovens estariam mais vulneráveis aos efeitos negativos da tecnologia sobre o sono.

Ou seja, ninguém está perdendo o sono por causa das buscas de conteúdo ou maratonas de séries. Só estão cansados de assistir temporadas de Casamento às Cegas, ou de rever todos os episódios de Pesadelo na Cozinha.

Na verdade, a questão vai um pouco além disso.

 

Flexibilidade como catalisadora de hábitos saudáveis

O principal fator por trás dessa transformação reside na própria natureza dos serviços de streaming. Ao contrário da televisão tradicional, plataformas como Netflix, Disney+, Max e Apple TV+ oferecem controle total sobre quando assistir ao conteúdo desejado.

A disponibilidade permanente elimina a necessidade de permanecer acordado até tarde para acompanhar episódios específicos ou estreias programadas. Não existe mais a obrigatoriedade de adaptar a rotina aos horários fixos da programação televisiva, permitindo que cada indivíduo organize seu entretenimento de forma compatível com um ciclo de sono mais saudável.

O fim do senso de urgência para ficar na TV assistindo a um determinado conteúdo só existe neste momento para os conteúdos de notícias e esportes ao vivo. E, ainda assim, o usuário pode simplesmente optar em ir dormir e assistir às reprises daquele programa, dependendo do tipo de tecnologia que o usuário tem em casa (que permite o replay da programação) ou até mesmo da plataforma de streaming que ele está assinando.

Sem falar que o mundo moderno consome muito mais tempo de nós do que gostaríamos. Hoje, trabalhamos mais, estudamos por mais tempo e buscamos por mais interações sociais após a maior crise sanitária global dos últimos 100 anos.

Hoje, assistir TV é apenas uma opção no meio de tantas alternativas de entretenimento e compromissos sociais. E combinando tudo isso, é natural que as pessoas busquem fazer outras coisas melhores do que ficar na frente de uma tela.

Como, por exemplo, dormir.

 

Idosos mantêm padrões tradicionais

Apesar dessa tendência geral, o estudo identificou que a população idosa permanece largamente alheia a essa mudança. Pessoas com 65 anos ou mais demonstram menor propensão a alterar seus hábitos de sono, principalmente porque continuam consumindo predominantemente televisão linear em vez de adotar os serviços de streaming.

Esse aspecto da pesquisa é relativo, e discordo um pouco da análise. Bom, existe a possibilidade de o comportamento dos idosos alternar em diferentes países, e tudo passa a ser uma questão de perspectiva cultural.

Mas posso afirmar com certa propriedade que os idosos brasileiros estão consumindo mais e mais conteúdos via streaming, pois estão mais propensos a aprender e se adaptar à novas tecnologias… justamente pelo fato de a TV linear não ser suficiente para o entretenimento.

Os especialistas responsáveis pela pesquisa concluem que “as descobertas apoiam a possibilidade de que, na era do streaming, as pessoas possam programar seu consumo de mídia em horários que facilitam padrões de sono mais saudáveis”.

A relação inesperada entre tecnologia e bem-estar reforça como as transformações digitais podem, quando utilizadas conscientemente, contribuir positivamente para aspectos fundamentais da saúde humana, como a qualidade do sono e a regularidade dos ciclos circadianos.

É fato também que aquelas pessoas que terminam o dia com um filme relaxante ou uma série de comédia vão dormir mais relaxadas. E tendem a relaxar mais cedo.

Ao contrário da antiga necessidade de adequar nossa rotina à programação televisiva, a revolução do streaming nos devolveu o controle sobre quando consumir entretenimento – e aparentemente, estamos usando essa liberdade para dormir um pouco mais cedo.

Exceto é claro quando as corridas de Fórmula 1 acontecem de madrugada, ou no Australian Open. Ou quando começamos aquele filme às 23h30… e o filme é “O Senhor dos Aneis: O Retorno do Rei”.


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