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Como o Google “copiou” a série Silicon Valley

Após as demissões em massa nas big techs, muitos ex-funcionários começaram a compartilhar os bastidores das empresas, revelando dessa forma como era complexo e, em alguns casos, tóxico o ambiente profissional que eles tinham que lidar.

Pegando como exemplo disso a Meta: alguns profissionais relataram que foram contratados mesmo sem haver qualquer tarefa a ser realizada, em uma estratégia para evitar que talentos fossem para concorrentes durante o período de expansão do consumo digital na pandemia.

O Google está fazendo exatamente a mesma coisa na Europa. Mas fez de forma tão piorada, que conseguiu plagiar a série de comédia Silicon Valley (HBO).

 

Copia, mas não faz igual

Relatos indicam que o Google tem remunerado funcionários da área de inteligência artificial sem que eles tenham funções ativas, como forma de impedir que se unam a empresas rivais, em especial no momento de corrida por avanços em IA.

A DeepMind, divisão de IA do Google no Reino Unido, firmou contratos que impedem funcionários de trabalhar na concorrência por até um ano. Embora legalmente válidos na Europa, esses contratos provocam paralisia na carreira de profissionais justamente no auge da evolução tecnológica.

Há relatos de pessoas formalmente contratadas em tempo integral pelo Google que não recebem tarefas e utilizam todo o tempo livre para desenvolver suas próprias startups, evidenciando o paradoxo da ociosidade corporativa forçada.

Ou para deixar esse contexto ainda mais bizarro e engraçado: adotaram exatamente a mesma estratégia vista na série de comédia Silicon Valley, contratando profissionais com potencial para, basicamente, não fazerem nada.

 

Profissionais ficam estagnados na carreira

Embora recebam salários atrativos, muitos desses funcionários relatam frustração por estarem estagnados. A ausência de desafios e a impossibilidade de atuar em outras empresas inviabilizam crescimento profissional e networking.

De acordo com ex-funcionários do Google, o tempo de espera de startups para contratar talentos é limitado. O bloqueio de até um ano imposto por cláusulas contratuais inviabiliza que esses profissionais aproveitem janelas importantes de oportunidade.

Um ex-CEO chegou a afirmar que, dentro dessas grandes empresas, é comum que um funcionário recém-contratado tenha como primeira missão contratar outros, mesmo que sem necessidade real, ampliando um ciclo de ineficiência com aparência de produtividade.

 

Ficar fora do mercado de trabalho custa caro

A evolução acelerada da inteligência artificial, com novos players como o DeepSeek AI da China, transforma a paisagem do setor em questão de horas. Nesse cenário, ficar um ano inativo pode representar atraso irreversível para quem trabalha na área.

O vice-presidente de IA da Microsoft, Nando de Freitas, relatou que constantemente recebe pedidos de profissionais da DeepMind em busca de formas de sair dos contratos. O desespero é tanto que chegam a implorar por ajuda, mesmo sabendo que o problema está na gestão de suas próprias empresas.

Nando apontou diretamente dois executivos da DeepMind — Koray Kavukcuoglu e Douglas Eck — como responsáveis por manter essas práticas. Ele afirmou que, apesar de alegarem ser contra os contratos de não concorrência, ambos seguem compactuando com eles na prática.

 

Mudar de empresa é a única forma de evoluir

Segundo o executivo da Microsoft, há gestores que aconselham seus funcionários a mudar de empresa para conseguir promoções, reconhecendo implicitamente a ineficiência dos planos de carreira internos.

Freitas também alerta que nenhuma corporação, especialmente nos EUA ou Europa, deveria ter tanto poder sobre a liberdade profissional dos seus colaboradores. Para ele, trata-se de um abuso disfarçado de estratégia de mercado.

Embora a Comissão Federal de Comércio dos EUA (FTC) tenha banido cláusulas de não concorrência em 2023, isso não afeta a sede da DeepMind em Londres. Assim, o Google segue utilizando essa brecha para manter profissionais imobilizados.

As práticas do Google para enfraquecer rivais não são novas. Historicamente, a empresa acumulou diversas multas por estratégias consideradas anticompetitivas — mas, mesmo assim, o lucro gerado ao evitar a perda de talentos continua superando as punições financeiras.

A nova geração de profissionais demonstra crescente desinteresse pelas grandes empresas de tecnologia. Questões éticas, valores corporativos ultrapassados e práticas de controle excessivo afastam talentos que preferem ambientes mais flexíveis e inovadores.

E dessa forma, as gigantes de tecnologia perdem esses profissionais talentosos, que passam a ter uma valiosa moeda de troca para não mais se submeterem a práticas laborais abusivas.

Quem diria… a vida imitando a arte…

Ou Silicon Valley sabia muito bem do que estava contando em seus roteiros disfuncionais.

 

Via Business Insider