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Como o Disney+ usa a TV aberta para crescer no Brasil

Com os canais pagos encerrados, a Disney precisava de novos caminhos para alcançar o público brasileiro em massa. Será que o grupo entendeu que foi prematuro se retirar da TV por assinatura da forma como fez.

Afinal de contas, por mais que a TV paga seja uma proposta que corre sério risco de extinção ou desaparecimento, ela ainda poderia entregar receita de publicidade.

Sem falar que este era um ativo importante, inclusive para promover a divulgação e migração do publico para o Disney+.

E quando a Disney pensou que todos os seus fãs iriam para o streaming, se deparou com a cruel realidade de que o movimento foi exatamente o oposto.

A solução encontrada foi, paradoxalmente, uma aproximação com a TV aberta — o veículo mais tradicional e popular do país.

Vamos ver de perto como a Disney está tentando se reinventar com a ajuda do SBT e da Record.

 

The Voice Brasil: streaming encontra o SBT

O caso mais emblemático desse novo modelo é o retorno do reality musical “The Voice Brasil”.

Após 11 anos na grade de programação da Globo, o The Voice Brasil passou a ser exibido simultaneamente pelo SBT e Disney+.

A lógica comercial por trás do acordo é revelada por ninguém menos que o Boninho (ex-Rede Globo), diretor responsável pela atração:

“O SBT tem um público mais C e D, a Disney tem um público mais A, B e C. Quando a gente estiver exibindo o ‘The Voice’, a gente vai estar falando com todo mundo ao mesmo tempo”

O formato é inédito no mercado audiovisual nacional:

“O reality show será exibido simultaneamente ao vivo no Disney+ e no SBT. Mas com uma diferença: só no Disney+ o assinante terá uma experiência única complementar com conteúdo estendido além do episódio.”

Com o novo modelo, Boninho acredita que a TV aberta e o streaming deixaram de ser concorrentes exclusivos e passaram a ser complementares.

 

A Record como parceira surpreendente

Numa jogada que poucos esperavam, o Disney+ também firmou acordo com a Record TV.

O Disney+ estreou a novela bíblica “Paulo, o Apóstolo”, da Record, ampliando seu catálogo nacional com parcerias inéditas no Brasil.

A estreia de uma novela bíblica brasileira no Disney+ é mais um passo do serviço na valorização do conteúdo local, expandindo seu leque para além das produções infantojuvenis e blockbusters internacionais.

A medida visa conquistar públicos variados, incluindo o religioso, que tem forte presença no país.

Outra estreia muito aguardada pelo grande público e, principalmente, pelos fãs de realitys é o novo “A Casa do Patrão”.

Também dirigido por Boninho, o programa promete seguir os moldes do Big Brother Brasil: uma casa de confinamento com pessoas anônimas disputando um grande prêmio final em dinheiro.

Ainda não sabemos como será a mecânica desse programa (inclusive para descobrir se Record TV e Disney serão processadas pelo grupo Endemol por possível plágio).

Mas as expectativas gerais para a estreia estão altas, e isso certamente deve alavancar o público para as novas parceiras de conteúdo.

 

Globo: do rival histórico ao parceiro estratégico

A relação da Disney com a Globo foi talvez a mais transformadora.

Renato D’Angelo, general manager da The Walt Disney Company, garantiu que, hoje, vê a Globo mais como parceiro do que como concorrente.

Segundo o executivo:

“Não conseguiríamos conquistar nosso objetivo de crescer no Brasil e fazer com que os conteúdos brasileiros sejam vistos aqui e no mundo sem parceiros. Com a Globo, anunciamos quatro projetos, mas estamos pensando em muitos outros.”

A Globo fechou com a Disney um importante acordo para a coprodução de filmes brasileiros — a primeira parceria em coprodução entre dois gigantes da indústria audiovisual mundial.

O acordo resultará na produção de quatro longas-metragens, lançados um por ano nos cinemas, com uma segunda janela de exibição simultânea no Globoplay e em um dos serviços de streaming da Disney disponíveis no Brasil.

Outro exemplo concreto do peso dessa aliança aconteceu na cerimônia do Oscar 2025: a Globo pretendia tirar o evento da TV aberta e transmiti-lo no Globoplay, mas não pôde.

O contrato com a Disney tinha algumas obrigações, e uma delas era a exibição em rede nacional.

 

O conteúdo local como arma de conversão

Entre os assinantes de Disney+ no Brasil, 67% afirmam que querem assistir a conteúdos brasileiros na plataforma.

O dado explica o apetite crescente da companhia por produções nacionais. Nas palavras do próprio D’Angelo:

“As pessoas não têm perspectiva do tamanho do nosso investimento no Brasil. Nos últimos anos, foram 142 projetos locais.”

A estratégia da Disney inclui diversificar seu acervo com produções coreanas como “Tempest” e novelas brasileiras como “Jó” e “Escrava Isaura”.

A inclusão de títulos populares e de nicho — do universo gospel ao sertanejo — demonstra uma tentativa clara de falar com diferentes camadas do público brasileiro.

 

Pacotes com operadoras: o caminho pelo varejo

Além das parcerias com emissoras, a plataforma tem buscado crescer por meio de acordos com grandes operadoras de telecomunicações.

A Claro tornou-se a primeira operadora do Brasil a reunir, em um único produto, os aplicativos de streaming Netflix, Globoplay, HBO Max, Apple TV+, Prime Video e Disney+.

A operadora oferece economia de até 55% em relação à contratação separada dos serviços.

Há também o modelo via telefonia móvel: planos TIM Black Família com determinadas franquias de dados oferecem a possibilidade de incluir a assinatura Disney+, sem alterar o preço da oferta e sem tempo de uso definido.

 

Desafios financeiros e a pressão por resultados

O caminho não é isento de turbulências.

Segundo reportagem do The Wrap, o Disney+ teria perdido cerca de 700 mil inscritos no primeiro trimestre de 2025 — movimento global que reflete tanto a saturação do mercado de streaming quanto os percalços criativos da plataforma.

Quem busca maior diversidade de gêneros pode achar a oferta limitada frente a concorrentes como Netflix, Globoplay e Prime Video.

Para tentar compensar a perda de assinantes, o Disney+ confirmou novos reajustes nas mensalidades de seus planos no Brasil, afetando tanto novas assinaturas quanto contratos já existentes, incluindo a cobrança por membros adicionais fora da residência principal.

A medida, porém, gerou reações negativas entre parte do público consumidor.

No balanço global, mesmo com a redução de 700 mil assinantes, o negócio fechou 2024 com saldo positivo.

Os negócios de streaming de entretenimento da Disney entregaram seu segundo trimestre lucrativo consecutivo, com lucro operacional de US$ 293 milhões em uma receita de US$ 6,07 bilhões.

 

Um novo capítulo ainda sendo escrito

O comportamento da Disney no Brasil revela uma empresa que aprendeu, a duras penas, que operar num mercado de massa aqui exige adaptação cultural profunda.

Como afirmou Renata Brandão, da produtora Conspiração:

“O brasileiro está conectado com a TV aberta. Não só pensar em streaming.” (…) “é um momento feliz, e estamos vivendo de fato uma mudança. É um movimento que não víamos nos dez primeiros anos de história do streaming.”

A convergência entre o streaming premium e a televisão aberta de massa pode ser, afinal, a fórmula que o Disney+ precisava para sair do “traço” e conquistar de vez o coração do público brasileiro.