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Como o ChatGPT está mudando nossa fala e escrita

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A inteligência artificial já está mudando a forma em como nos expressamos ou escrevemos. Afinal de contas, como a ferramenta virou a sua ghostwriter linguística, até o “bom dia” está parecendo introdução de tese de mestrado.

Um novo estudo do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano revela que o ChatGPT — e qualquer outra plataforma de IA que você usa pra pedir ajuda na hora de escrever e-mails, trabalhos ou mensagens de desculpas pra ex tóxica — está moldando o nosso jeito de se comunicar.

Não é exagero: ele está, literalmente, mudando a nossa fala. E neste artigo, mostro os prós e os contras dessa transformação.

 

O que diz o estudo?

A pesquisa analisou mais de 700 mil horas de podcasts e vídeos no YouTube — o equivalente a passar quase 80 anos ouvindo gente tagarelando — para descobrir um aumento expressivo no uso de palavras e construções típicas do ChatGPT.

Expressões como “delve into”, “nuanced perspective” e “rich tapestry” (traduzindo: blá-blá-blá pseudo sofisticado com viés gourmetizado) saíram dos parágrafos do bot para as bocas de influenciadores, podcasters e usuários comuns.

Mas… por que isso está acontecendo?

Porque o ChatGPT, como todo bom modelo de linguagem, é treinado com toneladas de dados e tem uma mania irritante de soar como um acadêmico com doutorado em retórica.

Ele escreve de forma clara, lógica, formal e um tiquinho pedante. E, convenhamos, isso acaba sendo contagiante. Uma vez que você pede para ele reescrever seu e-mail para o RH, é difícil voltar ao “e aí, galera, tudo certo?”.

Os pesquisadores chamam isso de “GPT-ização da linguagem”: um fenômeno em que a maneira estruturada, meticulosa e exageradamente articulada da IA começa a influenciar o modo como as pessoas se expressam, seja por texto ou oralmente.

E não, não é só coisa de nerd. Essa transformação já alcançou o cotidiano das pessoas comuns, das mensagens de voz no WhatsApp às conversas em reuniões de trabalho.

 

O lado bom de tudo isso

Estudantes e falantes não nativos de inglês têm se beneficiado muito com esse padrão, por incrível que pareça. Usar o ChatGPT como “tutor de escrita” melhora a clareza, o vocabulário e a gramática, de um modo geral.

Uma pesquisa da revista Smart Learning Environments mostra que os alunos que utilizam a IA como coach textual melhoram sua coesão textual, ampliam o vocabulário e ganham mais segurança para escrever.

É como ter um professor particular que nunca se cansa — e nem te julga por errar o “there, their ou they’re”.

Além disso, profissionais de áreas diversas passaram a se comunicar melhor com ajuda da IA. A escrita ficou mais clara, objetiva e até elegante, o que sempre melhora a comunicação – e esse ganho coletivo não pode ser ignorado.

Para pessoas que sempre sofreram com insegurança ao redigir, isso pode ser um divisor de águas. O ChatGPT virou o corretor ortográfico de luxo — só que com opinião.

 

O lado “não tão bom assim”

Mas (sempre tem um “mas”), nem tudo é encantamento gerado por prompts mágicos.

Existe um preço por esse polimento todo: o risco de que nossas vozes individuais sejam apagadas em nome da eficiência sintática.

Quando todo mundo começa a falar como se estivesse narrando um TED Talk, algo se perde. E todo mundo recebe em troca da perda textos frios e sem personalidade.

Gírias regionais, sotaques, expressões culturais e até aquela desorganização charmosa que humaniza nossos textos podem desaparecer sob uma camada de verniz artificial.

Outro ponto delicado: o ChatGPT, como muitas ferramentas de IA, opera a partir de um padrão linguístico específico — no caso, o inglês americano padrão.

Isso, a longo prazo, pode promover uma espécie de “colonialismo linguístico digital”, achatando a diversidade idiomática e promovendo um vocabulário globalizado e pasteurizado.

Há também o fator emocional.

Muitas pessoas usam a IA para escrever mensagens importantes, como pedidos de desculpas ou declarações de amor.

Acontece que a IA pode acertar a gramática, mas tropeça no coração.

A mensagem fica bonitinha, mas soa estranhamente impessoal — como um bilhete deixado por alguém que assistiu a muitas novelas, mas nunca amou de verdade.

 

Como usar o ChatGPT para escrever bem?

O conselho dos especialistas é claro: use o ChatGPT como ferramenta, não como voz oficial.

Ele é ótimo para rascunhar, sugerir estruturas e organizar ideias. Mas a edição final — com seus tropeços, gírias, metáforas tortas e piadas internas — ainda deve ser sua. Só você sabe colocar alma em um parágrafo.

Isso é, se você tiver o mínimo de um bom português para isso. E se não tiver, tudo bem. Até melhor. Ao menos o texto fica mais natural.

Então, da próxima vez que alguém disser que vai “se aprofundar no tema” ou mencionar uma “tapeçaria de ideias complexas”, pare e pense: essa pessoa leu um artigo acadêmico… ou teve uma conversinha com a IA ontem à noite?

Seja como for, estamos diante de uma nova etapa da evolução da linguagem. E, por mais que ela venha do silício, o que vai mantê-la humana é o nosso toque imperfeito.

A IA pode escrever bonito, mas só você sabe o que quer dizer com aquele “kkkk” no fim da frase.

 

Via Tom’s Guide


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