
Estados Unidos e China estão em plena rota de colisão. A guerra comercial entre as duas maiores potências do planeta já deixou de ser uma disputa entre governos e passou a afetar diretamente o dia a dia de empresas e consumidores.
A cada novo aumento de tarifas, o preço final de produtos importados dispara — e a tecnologia está no centro dessa batalha. O cenário é simplesmente caótico e imprevisível, e a própria China já declarou que seguir escalando os impostos “é algo ridículo”.
A estratégia de Donald Trump é clara: forçar empresas como a Apple a trazerem a produção para dentro de casa. Mas fabricar um iPhone nos Estados Unidos, com todos os seus componentes e processos, não é tão simples quanto parece.
Ainda assim, há um precedente que mostra que mudar de rota é possível. Basta olhar para o (e eu tenho surpresa que você está surpreso com isso) Brasil.
O Brasil como modelo alternativo de produção

Não é segredo que a Apple já monta iPhones em território brasileiro. A operação ocorre em Jundiaí, São Paulo, por meio da parceira Foxconn.
O principal objetivo da operação é o mais óbvio do mundo: reduzir os impostos cobrados sobre eletrônicos importados e aproveitar os incentivos oferecidos pela chamada Lei de Informática.
Criada em 1991 e atualizada nos últimos anos, a legislação brasileira incentiva a fabricação local ao oferecer isenção de tributos a quem cumpre o chamado Processo Produtivo Básico (PPB). Isso inclui montagem, soldagem, testes e até a integração de telas no país. Em troca, os custos caem, e os aparelhos se tornam mais competitivos.
Foi essa lei que, basicamente, permitiu que o Brasil finalmente entrasse em uma era de consumo digital, permitindo que videogames, computadores, celulares e smartphones chegassem ao mercado nacional de forma mais acessível para o grande público consumidor.
Antes, o Brasil vivia a estúpida ideia de protecionismo econômico para priorizar a indústria nacional. A visão era fruto do ultranacionalismo estabelecido pela Ditadura Militar, que só resultou em três décadas de atraso tecnológico para o nosso país.
Ou seja, Trump está cometendo EXATAMENTE O MESMO ERRO do Brasil no passado. Mais do que isso: o mesmo erro que os Estados Unidos cometeu em 1930, que resultou na Grande Depressão econômica naquele país.
Sem a Lei de Informática, continuaríamos a montar computadores “Frankenstein”, com peças adquiridas no Paraguai. E hoje, o cenário seria ainda mais dramático, já que pagamos 92% de impostos nos produtos importados acima de US$ 50.
Foi o novo modelo de gestão brasileiro que permitiu que não apenas Sony, Acer, Lenovo, Samsung e qualquer outra grande marca internacional montasse computadores por aqui, mas também beneficiou a indústria nacional por tabela.
Ou você acha que a Multi, a Positivo Tecnologia e outras fabricantes de computadores conseguiriam prosperar em nosso mercado sem a queda do protecionismo econômico?
Ou seja, quando um empresário dono de uma marca que vende produtos White Label (e afirma que brasileiro “tem complexo de vira-lata” porque só gosta de comprar produtos de marcas estrangeiras – que sempre entregam uma qualidade melhor) ou dono de uma grande rede varejista com uma brega Estátua da Liberdade na porta (que também importa boa parte dos produtos que vende, mas paga menos impostos que você) fica berrando contra a importação, lembre-se: eles TAMBÉM se beneficiam de tudo isso.
No caso específico da Apple aqui no Brasil, ela monta os modelos mais populares do iPhone, sejam eles dispositivos de entrada (iPhone 16, 16 Plus e 16e), sejam os modelos de gerações anteriores.
Já os modelos Pro e Pro Max, com menor volume de vendas, continuam sendo importados e, por conta disso, são bem mais caros no território nacional, pois não recebem a isenção fiscal dos modelos básicos.
Por que a China ainda domina a produção?

Se o Brasil mostra que há alternativas viáveis, por que a Apple e tantas outras gigantes ainda concentram suas fábricas na China?
A resposta está na eficiência da produção.
A China construiu um ecossistema industrial imbatível. Não apenas concentra a maior cadeia de suprimentos do mundo, como também detém a mão de obra mais especializada no setor eletrônico. Componentes, montagem e testes acontecem em um raio de poucos quilômetros — muitas vezes dentro da mesma cidade, como Shenzhen.
Além disso, o custo da força de trabalho ainda é significativamente mais baixo do que em países como os EUA. A combinação de escala, velocidade e preço continua sendo um atrativo difícil de superar.
Foi isso que levou empresas do mundo todo a migrarem suas operações para o território chinês nas últimas décadas.
O Brasil eventualmente poderia seguir o modelo chinês e se tornar um grande parque industrial para as gigantes de tecnologia de todo o mundo. O país só teria a ganhar, em diferentes frentes.
Porém, para chegar no nível de excelência asiático, os investimentos teriam que ser robustos. Não apenas na construção de fábricas, mas também na formação de mão de obra especializada para o processo de fabricação de componentes e montagem de dispositivos.
A Apple até poderia fazer isso aqui no Brasil, mas em um processo em médio e longo prazos. O parque industrial da China não nasceu do nada. Foi construído ao longo de 15 anos (pelo menos).
Quem sabe o cenário atual promova o início de uma nova fase na produção industrial no Brasil. Mas pelo menos por enquanto, a Apple e várias outras gigantes de tecnologia seguem dependendo (e muito) da Ásia para entregar os seus dispositivos mais importantes para o mercado global.
A pressão de Trump e a resposta da Apple

Durante o seu primeiro mandato, Donald Trump apertou o cerco contra a China e impôs tarifas agressivas, mas eventualmente os dois países conseguiram chegar a um acordo que favorecia o comércio de ambos.
Mas dessa vez, o cenário é bem diferente: Trump quer a todo custo incentivar o retorno da produção industrial aos Estados Unidos, acreditando que a proteção da indústria local é uma das principais vias de recuperação econômica.
É exatamente o contrário.
Na prática, essa política penalizou as empresas americanas, como a Apple, que viram seus custos aumentarem drasticamente. E na última semana, a empresa chegou a perder o posto de companhia mais valiosa do mundo.
Tal e como você leu até aqui (e em outros artigos que escrevi ao longo dos últimos dias), não só vivemos uma realidade de mercado globalizado, mas também de mecânicas de produção que dependem de um processo internacional para tornar os produtos viáveis e nos preços oferecidos ao consumidor final.
Só a Apple depende de nada menos que 79 países para produzir o iPhone pelo preço sugerido nos Estados Unidos. Jogar para o alto essa complexa cadeia de produção é algo que, neste momento, é considerado impossível.
Ainda assim, há sinais de mudança. A Apple começou a diversificar sua cadeia produtiva e a investir em outras regiões. A abertura de uma fábrica da TSMC no Arizona é um exemplo.
A empresa taiwanesa é a principal fornecedora de chips da Apple, e sua chegada ao solo americano mostra que, mesmo com custos mais altos, garantir estabilidade logística pode compensar.
E, mesmo assim: Trump está pressionando a TSMC a garantir as condições de produtividade. Caso contrário, a empresa SOZINHA vai ter que pagar impostos dedicados para permanecer em solo americano.
O futuro da produção global da Apple

A tendência de descentralização para a produção de dispositivos eletrônicos é uma realidade clara, e só Donald Trump não entende isso.
A Apple sabe que depender exclusivamente da China é um risco — ainda mais com tarifas instáveis e a possibilidade de conflitos geopolíticos se intensificarem. O modelo brasileiro, com incentivos locais e fabricação adaptada à realidade do mercado, pode servir como inspiração para os Estados Unidos.
Mais do que isso: pode resultar em uma invasão em massa de empresas internacionais investindo no Brasil ou em parcerias com empresas locais. Nos aspectos logísticos, é mais fácil transportar cargas de dispositivos saindo de São Paulo do que de Nova Déli, e os impostos aqui são de apenas 10%
Montar iPhones em território americano ainda é caro e demorado. Construir uma nova fábrica exige anos de planejamento e investimento pesado. E a janela política que permite isso pode não durar tanto quanto necessário.
Mas, diante da guerra tarifária com a China, a mudança para outros mercados de produção parece cada vez mais inevitável.
O impacto para o consumidor

Essa disputa global deixou de ser algo abstrato para afetar diretamente o consumidor norte-americano. E essa sempre será a pior parte de qualquer processo.
A escalada nas tarifas pode levar à alta nos preços, falta de estoque e até atrasos em lançamentos. Produtos como o futuro iPhone 17, por exemplo, podem chegar mais caros — ou nem chegar — dependendo dos rumos da política comercial.
Acredite: a previsão de PREÇO INICIAL SUGERIDO para o próximo iPhone (17, talvez) na casa dos US$ 2.300 não é alarmismo ou sensacionalismo. São previsões críveis e factíveis, com base no cenário de momento.
Neste momento, acreditar em um iPhone abaixo dos US$ 1.000 seria uma surpresa quase inacreditável. E é de se duvidar que o norte-americano médio vai abraçar a ideia de comprar um smartphone da Apple com esse preço.
Todas as empresas vão precisar se adaptar de alguma forma. Algumas encontrarão alternativas. Outras, como a Apple, terão que equilibrar custos, logística e decisões políticas.
Mas uma coisa é certa: o cenário atual exige mais flexibilidade e visão estratégica do que nunca.
E o Brasil, por incrível que pareça, pode ser modelo e ponto de referência para o mundo.

