
O vício em smartphones não é exclusividade dos jovens. Basta observar ao redor: pessoas com mais de 60 anos passam horas com o celular nas mãos, absortas em um mundo virtual que antes lhes era estranho.
É inegável que o público da melhor idade se tornou totalmente conectado nos últimos anos. Para o bem, e também para o mal. Afinal de contas, é o grupo etário que está mais propenso a compartilhar notícias falsas e disseminação.
Mas até mesmo os adultos mais velhos estão ficando fatigados com o uso do smartphone e das redes sociais e, aos poucos, vão buscando alternativas para não ficarem saturados. Mais ou menos da mesma forma que os seus netos da Geração Z estão fazendo.
Entre jogos cognitivos e fake news
Estudos recentes da Nature, analisando dados de 400.000 adultos acima de 50 anos, revelam que o uso de celulares pode trazer benefícios cognitivos para idosos. Pesquisadores suíços chegaram a conclusões semelhantes, identificando um melhor desempenho de memória em idosos que utilizam internet regularmente.
Mas a teoria nem sempre reflete a prática, e o uso constante do smartphone não se converte sempre em benefícios objetivos. Os adultos mais velhos, assim como os jovens, também sucumbem às distrações digitais e aos perigos do scroll infinito, comprometendo atenção e saúde emocional.
Eu conheço uma pessoa de quase 70 anos com leve perda de memória. Após avaliações neurológicas, os médicos descartaram doenças neurodegenerativas, atribuindo o problema à idade e ao uso excessivo do smartphone.
Durante as reuniões familiares, ela repete o comportamento típico dos adolescentes: olhos fixos na tela, alheia às conversas.
Este não é um caso isolado. Em praças e restaurantes, o uso compulsivo de celulares atravessa gerações. Enquanto jovens consomem TikTok vorazmente, aposentados mergulham em correntes de “bom dia” no WhatsApp e compartilham notícias falsas no Facebook sem filtro crítico.
Os neurologistas são enfáticos em suas observações: não se trata de abandonar a tecnologia, mas direcioná-la para melhorar habilidades cognitivas, especialmente após os 60 anos.
Tecnologia como ferramenta de estímulo mental

A recomendação médica inclui jogos como sudoku, caça-palavras, Scrabble e Cluedo nos smartphones. Esses passatempos digitais estimulam a concentração e o pensamento crítico – fundamentais em qualquer idade, mas cruciais na terceira idade.
O isolamento social, historicamente associado ao envelhecimento, encontra no celular um poderoso antídoto. WhatsApp e Facebook permitem que idosos mantenham contato com filhos, netos e antigos amigos, criando uma rede de apoio permanente que combate a solidão.
Os benefícios são inegáveis, mas o uso precisa ser orientado. Idosos não devem abandonar seus smartphones, mas precisam utilizá-los adequadamente.
Educação digital intergeracional
É fundamental ensinar aos mais velhos a como identificar informações falsas nas redes sociais e em mensagens encaminhadas, mesmo quando vêm de contatos próximos. Caso contrário, esse problema de desinformação em escala que apareceu em nossas vidas nos últimos anos nunca será respondido.
Os idosos precisam ser instruídos a reconhecer possíveis golpes e proteger contas online. E essa é uma responsabilidade das gerações mais jovens, que cresceram imersos nessas tecnologias.
Enquanto a Geração Z nasceu na era digital e os millennials foram alcançados pela tecnologia na infância, os boomers e a primeira fase da Geração X precisaram adaptar-se aceleradamente, sem instruções claras.
E essa adaptação tende a ser muito mais difícil e, em alguns casos, cruel. Como é um grupo etário que não cresceu com esses recursos tecnológicos, tende a se sentir mais perdida diante dos dispositivos eletrônicos e da internet.
E no caso das notícias falsas, são os mais velhos os mais propensos a compartilhar toda essa desinformação. E por um único motivo: é a geração mais apegada às convicções, deixando de lado a prática de verificar os fatos.
Cabe agora às gerações mais jovens retribuir a educação recebida, guiando os mais velhos para um uso consciente e saudável da tecnologia – com paciência, empatia e exemplo prático.

