
A Samsung Electronics atravessa um dos momentos mais delicados de sua trajetória recente, com sua divisão System LSI enfrentando um cenário de perdas expressivas e desafios tecnológicos que colocam em xeque sua continuidade.
A unidade, responsável pelo desenvolvimento de processadores Exynos, sensores ISOCELL e modems 5G, deve registrar um prejuízo de aproximadamente 1 trilhão de won (cerca de 3,7 bilhões de reais) em 2024, um reflexo direto da incapacidade de acompanhar o avanço dos concorrentes no setor de semicondutores.
Essa crise não aconteceu de forma repentina, mas resulta de anos de decisões estratégicas questionáveis e da crescente defasagem tecnológica em relação a empresas como Qualcomm e Apple. O impacto disso para a Samsung vai muito além das perdas financeiras imediatas, colocando em risco a própria credibilidade da divisão e levantando dúvidas sobre o futuro da empresa nesse mercado altamente competitivo.
As causas do colapso da divisão de semicondutores

A exclusão do processador Exynos 2500 da linha Galaxy S25 emerge como um dos principais sintomas dessa crise.
Tradicionalmente, a Samsung buscava equilibrar suas linhas de smartphones entre modelos equipados com chips Exynos e versões com processadores da Qualcomm, dependendo da região.
No entanto, com os sucessivos problemas de desempenho e eficiência energética dos Exynos, a fabricante foi forçada a recorrer exclusivamente aos processadores Snapdragon da Qualcomm em seus dispositivos premium. A decisão não representa apenas uma perda financeira significativa, mas também um golpe na reputação da divisão System LSI.
Quando uma empresa opta por não utilizar sua própria tecnologia em produtos de ponta, sinaliza ao mercado que não confia em sua capacidade de competir. O próprio gerente geral da divisão, Kwon Hyung-man, admitiu publicamente que a unidade está aquém das expectativas, reforçando o senso de urgência para mudanças drásticas dentro da companhia.
Mas a situação alarmante da System LSI não é fruto apenas de um erro isolado, mas do acúmulo de falhas estratégicas ao longo dos anos.

A divisão perdeu competitividade tanto no setor de processadores móveis quanto no mercado de sensores de imagem, onde enfrenta a forte concorrência da Sony. No caso dos chips Exynos, as críticas recaem sobre a defasagem no desempenho gráfico e na eficiência energética, dois fatores essenciais para a experiência do usuário moderno.
O Exynos 2200, por exemplo, marcou a estreia da parceria com a AMD, prometendo gráficos avançados baseados na arquitetura RDNA 2. Porém, o chip não conseguiu entregar a performance esperada, apresentando problemas de superaquecimento e consumo excessivo de energia, o que fez com que a linha Galaxy S22 perdesse espaço para modelos equipados com o Snapdragon 8 Gen 1.
Além disso, a Samsung enfrenta dificuldades em sua produção de semicondutores, especialmente na litografia de 3 nanômetros, um processo crucial para competir com a TSMC, que atualmente lidera esse segmento.
Enquanto a Apple e a Qualcomm avançam com chips mais eficientes e poderosos, os processadores da Samsung continuam a demonstrar dificuldades em atingir os mesmos padrões de performance.
Isso gera um efeito cascata que prejudica não apenas a divisão System LSI, mas também outras áreas da empresa, como a de dispositivos móveis, que depende de componentes de alto nível para manter sua relevância no mercado.
O futuro incerto da System LSI

Diante desse cenário, a Samsung já estaria considerando uma reestruturação profunda dentro da divisão de semicondutores.
Fontes próximas à empresa sugerem que uma das alternativas avaliadas é a fusão entre a unidade de fabricação de chips e a divisão de smartphones, seguindo um modelo semelhante ao da Apple, onde o desenvolvimento de hardware e software é mais integrado.
A ideia seria criar uma sinergia operacional capaz de otimizar custos e melhorar o alinhamento entre os processadores Exynos e os dispositivos da Samsung, evitando os problemas de incompatibilidade e desempenho que marcaram os lançamentos recentes.
É claro que a possível reestruturação não está isenta de riscos. A fusão entre as divisões pode gerar impactos negativos na unidade de dispositivos móveis, atualmente um dos pilares mais lucrativos da empresa.
Se os problemas de desempenho dos processadores continuarem, a Samsung corre o risco de comprometer a competitividade de seus próprios smartphones e tablets, afastando ainda mais os consumidores.
Existe também a possibilidade de que a Qualcomm se fortaleça ainda mais como fornecedora de chips para a Samsung, aumentando a dependência da empresa sul-coreana em relação a um concorrente direto.
A Samsung enfrenta, portanto, um dilema complexo: salvar a divisão System LSI sem comprometer outras áreas estratégicas do seu negócio.
Seja qual for o caminho escolhido, a empresa precisará de uma mudança radical em sua abordagem para evitar que essa crise se transforme em um problema ainda maior, ameaçando sua posição de destaque no setor de tecnologia global.
Via BusinessPost

