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Como a Huawei desafia o duopólio do Android e do iOS

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O mercado de sistemas operacionais móveis sempre foi dominado por Android e iOS. As duas plataformas dividiram praticamente todo o espaço por mais de uma década, acabando com todos os concorrentes que tentaram um lugar ao sol no mercado mobile.

Muitas empresas ao longo desse tempo tentaram criar uma terceira opção entre os sistemas operacionais móveis. Nenhuma conseguiu se consolidar diante do poder das gigantes, com Google e Apple dominando completamente o mercado.

E o mundo aceitou isso. Até agora.

A Huawei surge como a principal candidata a mudar esse cenário. Com o HarmonyOS, a fabricante chinesa busca quebrar o duopólio e conquistar seu espaço. E o mercado brasileiro passa a ter um papel decisivo para que o sistema operacional da empresa se torne uma terceira via no segmento.

Vamos entender melhor qual é o plano da Huawei nesse segmento.

 

A meta da Huawei

O presidente da divisão de consumo da Huawei, Richard Yu, afirmou que a empresa quer alcançar um terço do mercado global de sistemas móveis. A meta coloca a companhia em confronto direto com Google e Apple.

O HarmonyOS já deu seus primeiros passos fora da sombra do Android, com uma decisão considerada ousada por muitos especialistas. O sistema foi totalmente reescrito, deixando para trás qualquer dependência de código herdado.

O objetivo da empresa é transformar o HarmonyOS em uma alternativa global, com um ecossistema próprio e funcionalidades similares aos seus adversários. Isso significa não apenas competir, mas realmente dividir o mercado em três.

Algo que nenhuma outra empresa chegou perto de conseguir ao longo da última década. Dá até para dizer que o HarmonyOS tem papel similar ao Linux no segmento de computadores (e eu sei que o Android tem profundas raízes no Linux).

 

O peso do investimento

Esse movimento da Huawei não se resume a promessas ou retóricas, mas se converte em  muito dinheiro injetado para alcançar esse objetivo. A empresa já investiu cerca de 10 bilhões de yuans para facilitar a migração de desenvolvedores para seu ecossistema.

Além disso, mais de 10.000 pessoas trabalharam anualmente durante seis anos no desenvolvimento do sistema. O resultado é um código com mais de 130 milhões de linhas que, repito, foram escritos do zero absoluto.

A Huawei também recebeu grandes aportes no setor de semicondutores. Um consórcio de 60 empresas foi formado para garantir a produção nacional de chips, em um movimento que foi praticamente obrigatório por conta dos recentes bloqueios comerciais estabelecidos pelos governos dos Estados Unidos nos últimos anos.

Aliás, muitas das mudanças implementadas pela Huawei nos seus diversos segmentos de produtos e serviços aconteceram por conta desse bloqueio comercial. A empresa fez da dificuldade uma oportunidade para inovar e crescer, se tornando ainda mais dona de si mesma e menos dependente das tecnologias de terceiros.

É algo semelhante ao que a Apple fez com os seus principais produtos, com a grande diferença que a Huawei possui uma maior autossuficiência e margem para capitalizar sem todas as complexidades logísticas e tarifárias impostas à gigante norte-americana.

 

A independência do HarmonyOS Next

O HarmonyOS Next é o ponto central da estratégia da Huawei nessa jornada para ter uma fatia do mercado de sistemas operacionais móveis. Trata-se de um sistema completamente independente, sem qualquer ligação com o Android.

A independência não se limita ao software, mas também passa pelo hardware que é gerenciado pelo sistema operacional. A Huawei também aposta em componentes internos, como os processadores Kirin e sensores SmartSens.

Essa combinação de hardware e software reforça a ambição da marca no mercado de tecnologia. O plano é reduzir a dependência de fornecedores externos e consolidar sua autonomia tecnológica.

Reforço que o movimento foi algo obrigatório, por ser uma consequência do cenário comercial global estabelecido. E o grande mérito da Huawei foi converter essa dificuldade em solução prática para tornar os seus produtos mais rentáveis e eficientes.

E neste sentido, a volta da Huawei ao Brasil é um movimento decisivo para consolidar essa mudança no mercado mobile.

 

A estratégia de expansão

A Huawei quer ir além dos celulares para obter uma fatia do mercado global de tecnologia. A meta é levar o HarmonyOS a TVs, tablets, eletrodomésticos, veículos elétricos e até computadores, colocando o sistema operacional em todos os lugares (ou pelo menos nos principais dispositivos do usuário).

Essa diversificação cria um ecossistema integrado, não só expandindo a presença do software nos produtos, mas escalonando a participação de mercado por tabela (ou pela quantidade de produtos). Quanto mais dispositivos adotarem o sistema, maior será o apelo para desenvolvedores e usuários.

A empresa também oferece incentivos para acelerar a adesão. Desenvolvedores recebem apoio financeiro, enquanto usuários contam com vantagens e promoções, em movimentos que naturalmente devem aumentar a presença do HarmonyOS no mercado.

O Brasil passa a ser decisivo nesse movimento. Nosso mercado possui um enorme potencial de vendas, e o consumidor brasileiro agora pode buscar outras alternativas que vão além das marcas que sempre foram líderes por aqui.

O único ponto é que os produtos da Huawei ainda contam com preços mais caros por aqui, pois a marca não possui um sistema de fabricação local dos dispositivos. Quando isso mudar, a tendência é que o HarmonyOS comece a ganhar usuários, aumentando sua participação em nosso país.

 

A aceitação inicial

Dentro da China, os primeiros resultados já apareceram. Empresas como Tencent e Alibaba tornaram seus aplicativos compatíveis com o HarmonyOS, e outras empresas de produtos e serviços tendem a fazer o mesmo com o passar do tempo.

Esses parceiros são fundamentais para aumentar a confiança dos consumidores. Afinal, a presença de aplicativos populares é um dos pilares para atrair novos usuários, já que ninguém vai usar um sistema operacional que não possui os seus apps favoritos.

Esse apoio interno fortalece a Huawei. Porém, a grande questão é se essa aceitação pode se repetir em outros mercados, ainda mais considerando a enorme variedade de preferências de software nos diferentes mercados globais.

 

O grande desafio

A Huawei sabe que sua maior barreira não é técnica. A principal dificuldade está em convencer milhões de pessoas a abandonar o conforto do Android e do iOS para apostar em um novo sistema operacional.

A expansão global ainda não tem um cronograma definido, e se alterna em diferentes regiões do planeta, sem ter um movimento homogêneo de lançamentos. A incerteza mostra que, apesar da ambição, o caminho será longo para a Huawei.

A marca já é líder novamente na China, também em parte por todo o movimento nacionalista que o país vive por conta dos conflitos tarifários e geopolíticos com os Estados Unidos. De qualquer forma, a Huawei está provando que seu potencial de recuperação no mercado é algo real.

Contudo, conquistar consumidores fora de suas fronteiras será um teste ainda maior. E vamos testemunhar com muita atenção se a Huawei e o HarmonyOS podem mesmo criar uma terceira via no mercado mobile, que até agora aceitou um duopólio sem maiores questionamentos.

 


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