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Como a Huawei acertou na estratégia de manter em sigilo os processadores dos seus smartphones

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A Huawei Technologies confirmou oficialmente que seus novos smartphones Pura 80 são alimentados pelo sistema em chip Kirin 9020, desenvolvido internamente.

Tal revelação marca a primeira vez em aproximadamente cinco anos que a empresa sancionada pelos Estados Unidos divulga abertamente informações sobre seus processadores avançados para dispositivos móveis.

E ao revelar ao mundo as características técnicas do seu novo processador, dá uma lição ao mundo: que a independência dos chips norte-americanos fez dos processos de fabricação dos chineses algo superior e mais eficiente.

 

Manter tudo em segredo foi uma estratégia

O nome do chipset da Huawei, projetado pela subsidiária de design de semicondutores HiSilicon, apareceu em capturas de tela compartilhadas por usuários após uma atualização do sistema operacional. A confirmação representa uma mudança na estratégia de comunicação da companhia, que anteriormente mantinha sigilo total sobre as especificações técnicas de seus processadores.

Durante anos, as informações sobre os processadores utilizados pela Huawei em smartphones 5G foram descobertas apenas por meio de análises de desmontagem realizadas por empresas especializadas.

Laboratórios independentes como a canadense TechInsights revelavam os segredos dos dispositivos através de processos complexos de engenharia reversa e análise de componentes.

A revelação do Kirin 9020 demonstra a crescente confiança da empresa em seus recursos de design de silício e fabricação nacional de semicondutores. O movimento sinaliza uma transformação na postura corporativa diante das restrições tecnológicas impostas pelo governo americano à indústria chinesa de tecnologia.

 

Sobre o Kirin 9020

O processador Kirin 9020 foi fabricado pela Semiconductor Manufacturing International Corp (SMIC) utilizando o processo avançado de produção de 7 nanômetros. A parceria com a maior fundição de semicondutores da China continental representa um marco na independência tecnológica do país asiático.

Segundo relatório da TechInsights publicado em dezembro, o chipset representa uma melhoria incremental em relação ao seu antecessor, o Kirin 9010. A análise técnica indica que não houve um redesenho dramático da arquitetura, mas sim otimizações pontuais para melhorar desempenho e eficiência energética.

O Kirin 9020 estreou inicialmente nos smartphones Mate 70 da Huawei no ano passado, antes de chegar à linha Pura 80. A utilização do mesmo processador em diferentes linhas de produtos premium demonstra a estratégia de padronização tecnológica adotada pela fabricante chinesa.

A consequência de tudo isso foi a implementação dos processos de fabricação, alcançando processadores tão eficientes ou mais que os chips da Qualcomm dentro do segmento móvel.

E o mais importante: utilizando tecnologias que estão na frente daquelas adotadas pelos norte-americanos.

O que era uma dificuldade se tornou uma oportunidade para a própria Huawei.

 

A Huawei se forjou nas dificuldades

Nada disso que estou escrevendo indica que a Huawei alcançou esse ponto de excelência com um pé nas costas. É exatamente o contrário.

Richard Yu Chengdong, presidente do grupo de negócios de consumo da Huawei, relembrou recentemente as dificuldades enfrentadas durante o período mais crítico das sanções americanas. O executivo descreveu como as vendas internacionais da empresa despencaram drasticamente após a inclusão na lista negra dos Estados Unidos.

A empresa enfrentou um colapso em suas remessas anuais, que caíram para menos do que costumava enviar em apenas um mês antes das restrições. O impacto das sanções forçou a Huawei a repensar completamente sua estratégia de negócios e cadeia de suprimentos global.

Além dos desafios relacionados aos semicondutores, a Huawei investiu pesadamente no desenvolvimento de seu sistema operacional proprietário HarmonyOS. Yu Chengdong descreveu a criação do HarmonyOS como uma “grande aventura” que mobilizou mais de 10.000 desenvolvedores anualmente durante seis anos.

O investimento de dezenas de bilhões de yuans no HarmonyOS visa estabelecer uma plataforma móvel capaz de rivalizar com os sistemas da Apple, Google e Microsoft. A estratégia busca reduzir a dependência de tecnologias estrangeiras e criar um ecossistema tecnológico chinês robusto e autossuficiente.

Atualmente, mais de 10 milhões de dispositivos operam com o HarmonyOS 5, conforme anunciado pela Huawei em julho passado. O crescimento da base instalada demonstra a aceitação gradual do sistema operacional chinês no mercado interno e internacional.

 

Líder em casa, Huawei prepara expansão internacional

A Huawei conquistou a liderança no mercado chinês de smartphones durante o trimestre encerrado em junho, alcançando 18,1% de participação nas remessas. O feito representa a primeira vez em quatro anos que a empresa chinesa ocupa a posição de destaque no competitivo mercado doméstico.

A estratégia de transparência adotada com a revelação do Kirin 9020 reflete a nova fase de confiança da Huawei em suas capacidades tecnológicas. A decisão de divulgar publicamente informações sobre o processador sinaliza que a empresa superou os momentos mais difíceis impostos pelas sanções americanas.

O sucesso da Huawei em contornar as restrições tecnológicas americanas através de parcerias domésticas e investimentos em pesquisa e desenvolvimento próprios representa um marco significativo. A conquista demonstra a capacidade da indústria chinesa de desenvolver soluções tecnológicas avançadas mesmo sob pressão geopolítica intensa.

Agora, a Huawei pensa na sua expansão internacional, justamente para reduzir ainda mais a dependência do mercado norte-americano. E aqui, o Brasil ganha protagonismo na estratégia.

A Huawei voltou ao Brasil recentemente, oferecendo produtos que são considerados de ponta, com os seus principais telefones disponíveis para o consumidor brasileiro… que tem dinheiro para pagar o que a marca pede.

Sim… os smartphones premium da Huawei são consideravelmente mais caros que os seus principais concorrentes de marcas consolidadas. Mas quando a produção da marca se tornar local, quem sabe essa diferença monetária pode ser compensada ou amortizada de alguma forma.

E quando isso acontecer, a Huawei será um player muito competitivo por aqui.

Bom… é o que eu espero.

 

Via SCMP


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