Press "Enter" to skip to content

Como a Apple lembra a BlackBerry (para pior)

Compartilhe

A Apple demonstra aparente indiferença (ou enorme incompetência, dependendo do ponto de vista) em relação à inteligência artificial, contrastando com Microsoft e Google, que fizeram da IA o foco absoluto de suas conferências recentes.

A WWDC de junho promete poucas novidades em IA, concentrando-se principalmente no redesenho dos sistemas operacionais através do projeto “Solarium”. Já abordamos em diversos artigos nossos pensamentos sobre essa postura da Apple em não dar o devido foco para a principal tecnologia emergente do momento.

A empresa continua perdendo oportunidades importantes no mercado de IA. Enquanto a concorrência desenvolve modelos próprios ou fecha acordos estratégicos com startups como OpenAI, a Apple mantém uma postura cautelosa que começa a prejudicar sua reputação no setor.

E neste aspecto, a postura da Apple lembra muito a da BlackBerry quando o iPhone chegou ao mercado.

E todo mundo sabe o que aconteceu depois.

 

Problemas internos e externos

A plataforma Apple Intelligence, quando finalmente revelada, apresentou resultados decepcionantes devido a limitações funcionais e lentidão na implementação.

A cautela excessiva da empresa está cobrando um caro preço em termos de credibilidade no mercado, ainda mais agora que foi revelado que a gigante de Cupertino aparentemente mentiu sobre praticamente tudo o que envolve o Apple Intelligence no iPhone 16.

O fracasso da Siri ilustra para qualquer pessoa os problemas da Apple com a inteligência artificial.

O assistente de voz deveria ter evoluído substancialmente, mas permanece em desenvolvimento, com promessas não cumpridas e atrasos confirmados pela própria empresa, gerando críticas severas de analistas renomados.

Pelo contrário: a Siri nunca foi tão burra, e a culpa disso é toda da desorganização (ou descaso) da Apple.

 

Paralelos históricos preocupantes

A situação atual da Apple lembra o caso da BlackBerry, que dominou o mercado móvel, mas ignorou o impacto do iPhone no mercado. E a postura até arrogante dos seus executivos se converteu em uma das maiores quedas que o setor testemunhou até hoje.

A BlackBerry manteve crescimento até 2011, quando despencou definitivamente, tornando-se irrelevante no mercado. Hoje, o que resta da Research in Motion está centrada nas tecnologias de proteção de dados corporativos, com um relativo sucesso nesse nicho.

Mas muito longe de ser a toda poderosa BlackBerry, que era sinônimo de status para todo o segmento corporativo. Usar um smartphone da marca era um sinal claro de que você alcançou o sucesso profissional.

Aqui, recomendo que você assista ao filme que conta a história de ascensão e queda da BlackBerry, pois a narrativa da obra de ficção é bem fiel aos acontecimentos do mundo real.

Não estou aqui afirmando que o mesmo vai acontecer com a Apple, que se tornou grande demais para desaparecer com uma queda bruta. Mas a lição está mais do que dada, e com um contexto histórico relevante.

Será que Tim Cook está disposto a aprender alguma coisa com a história da tecnologia?

 

Liderança questionada

Apesar dos bons resultados financeiros atuais, os primeiros sinais reais de preocupação começam a emergir na Apple. O iPhone, principal produto da empresa, apresenta crescimento modesto de apenas 2% em 2024, indicando que o produto pode ter atingido seu pico de vendas.

Tim Cook enfrenta crescentes críticas por sua incapacidade de reagir às mudanças do mercado. O CEO continua focando na estratégia baseada na inércia do iPhone, uma abordagem que pode não se sustentar indefinidamente no futuro.

Executivos da própria Apple reconhecem as limitações da estratégia atual. Eddy Cue declarou em processo judicial que “você pode não precisar de um iPhone em 10 anos”, uma afirmação surpreendente vinda de um alto executivo da empresa.

Agora, some tudo isso à toda a nova e complexa dinâmica tarifária imposta por Donald Trump nos Estados Unidos, e é correto afirmar que tem muito investidor e acionista na Apple perdendo o sono nas últimas semanas.

 

Oportunidades e caminhos futuros

A Apple possui uma vantagem competitiva potencial através de seu compromisso histórico com a privacidade. A empresa promete uma IA mais privada, executável localmente sem dependência total da nuvem, diferenciando-se dos concorrentes neste aspecto.

E não podemos dizer que a Apple está totalmente errada nessa abordagem. A empresa está tentando entregar algo mais difícil que os demais. O problema é que essa tentativa está totalmente desordenada e desorganizada.

O alto preço que a Apple está pagando para oferecer um Apple Intelligence superior é fazer com que a sua atual tecnologia se torne obsoleta rapidamente, ao mesmo tempo que limita o avanço da empresa neste campo, em uma corrida que acelerou nos últimos meses.

Além da IA, os óculos conectados representam mais uma oportunidade para fortalecer o ecossistema iPhone através de novos wearables, conforme indicam dados recentes do mercado.

Mas até mesmo o Vision Pro acaba comprometido por essa estratégia. A impressão que fica é que o dispositivo de realidade mista foi lançado de forma apressada, e custa caro demais para convencer o grande público consumidor de sua real validade no mercado.

A empresa tem histórico de chegar tarde às revoluções tecnológicas e posteriormente dominá-las. Mas não parece ser este o caso dessa vez.

 

Via Bloomberg, Wall Street Journal


Compartilhe