Compartilhe

A Academia de Hollywood e o Oscar 2020 foram bem duros com a Netflix, de modo que repensar a vida é algo inevitável para a gigante do streaming. A aposta pela qualidade com O Irlandês não se pagou, uma vez que teve um foco diferente do apresentado por Roma em 2019, que foi um filme muito mais empático para os votantes.

De 24 indicações, a Netflix só ganhou os dois prêmios que eram dados como mais ou menos certos: o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante para Laura Dern por História de um Casamento, e o Oscar de Melhor Documentário por American Factory, o primeiro filme fruto do acordo entre a produtora e o casal Barack e Michelle Obama.

Roma, dirigido por Alfonso Cuarón, tomou de assalto todas as premiações, e era forte candidato a vencer o Oscar de Melhor Filme em 2019 (perdeu para Green Book). Por outro lado, esse foi um filme que praticamente saiu do nada, pois poucas salas de cinema nos Estados Unidos exibiram o longa. Isso gerou uma série de discussões sobre o que era cinema de verdade e o que não era. Na verdade, a discussão acontecia por que a ascensão da Netflix na indústria do cinema era algo inevitável, com o objetivo final em alcançar o status de gigante do setor, tal e como outros estúdios tradicionais.

Porém, o resultado da noite de ontem (9) nos obriga a repensar esse status.

Alguns sinais indicavam que a Netflix não seria essa Coca-Cola toda no Oscar 2020. O Irlandês foi sistematicamente derrotado por 1917, filme de guerra dirigido por Sam Mendes e considerado impecavelmente técnico. Além disso, Jonathan Pryce e Adam Driver não tinham chance contra Joaquin Phoenix. E, na reta final, Parasita tomou de assalto a todos, ficando com prêmios importantes como Melhor Filme Internacional, Melhor Roteiro Original, Melhor Direção e Melhor Filme.

 

 

O Irlandês remou contra a maré

 

O recorde de 24 indicações ao Oscar 2020 é explicado com 10 indicações para O irlandês, seis indicações para História de um Casamento, três indicações para Dois Papas e a indicação da animação Klaus. Números expressivos, que resultaram em um investimento monstro de US$ 70 milhões em publicidade. No final, esse dinheiro foi jogado fora, pois a Netflix só recebeu dois prêmios.

Ted Sarandos (CEO da Netflix), tenta relativizar o fracasso, enfatizando o mérito da empresa receber 24 indicações, mais do que qualquer outro estúdio. Porém, além do stablishment de Hollywood não ir com a cara do serviço de streaming, é preciso considerar também o paralelismo da estratégia de marketing (com uma quantidade absurda de dinheiro, insisto) com Harvey Weinstein, o predador sexual safado que foi derrotado (com justiça) pelo movimento #MeToo. Desde 2018, uma das principais estratégias da Netflix para a campanha do Oscar é contar com Lisa Tabek (e sua equipe de 60 pessoas), um dos principais nomes do time de Weinstein na década de 1990.

Outros truques utilizados pela Netflix foi comprar artigos na revista Fila, com indicação de jornalistas e especialistas renomados, alugar o Belasco para projetar O Irlandês para atender aos desejos da Academia de Hollywood, e viagens de luxo para Los Angeles com todas as despesas pagas para críticos e membros da Academia, para conhecer os astros dos seus filmes (algo que funcionou muito bem com o Critics’ Choice Awards, por exemplo).

O que a Netflix deve fazer agora? Repensar a vida e a estratégia. Jogar dinheiro na cara dos outros não levou a lugar nenhum, e nem mesmo Scorsese convenceu os votantes do Oscar. Especialmente quando os membros da Academia entendem que a plataforma está comprando talentos no lugar de investir dinheiro no desenvolvimento de sua forma em apresentar o cinema e suas histórias ao mundo.

A Netflix já enfrentou essas acusações antes, e os próximos passos em suas produções serão muito importantes para que a empresa se livre dessa fama indigesta.


Compartilhe