
Enquanto muitos estão preocupados com a privacidade dos seus dados e em como as suas informações pessoais são utilizadas pelas mais diversas plataformas online, outros tantos não estão preocupados com isso, e planejam vender os seus dados pessoais para empresas.
Isso está acontecendo lá fora, com os membros da Geração Z. Mas o Brasil será o pioneiro nessa prática, o que não deixa de ser uma novidade e, ao mesmo tempo, algo um tanto quanto assustador.
Se você considera vender (e não apenas compartilhar de graça) os seus dados pessoais, continue a ler este artigo, pois essa possibilidade agora é real e tangível para qualquer brasileiro.
O que sabemos até o momento

O Brasil tornou-se o primeiro país no mundo a implementar um programa nacional que permite aos cidadãos monetizar diretamente seus dados pessoais através de carteiras digitais. A iniciativa é administrada pela Dataprev, empresa estatal de tecnologia, em parceria com a californiana DrumWave.
O sistema funciona através de “contas de poupança de dados” onde os usuários depositam informações geradas por suas atividades cotidianas. Empresas interessadas podem fazer ofertas financeiras para comprar esses dados, criando um mercado direto entre cidadãos e corporações.
O programa piloto começará com um grupo reduzido de brasileiros utilizando as carteiras para transações de empréstimos. Quando uma oferta é aceita, o pagamento é depositado na carteira digital e pode ser transferido imediatamente para uma conta bancária tradicional.
Por que isso é importante?

Esta medida coloca o Brasil à frente dos Estados Unidos, onde uma proposta similar do governador da Califórnia, Gavin Newsom, foi apresentada em 2019, mas nunca avançou. Se implementado completamente, será a primeira parceria público-privada que permite aos cidadãos – e não às empresas – obter participação no mercado de dados pessoais.
Especialistas em proteção de dados brasileiros manifestaram preocupações sérias sobre a iniciativa. Com três em cada dez brasileiros sendo analfabetos funcionais (e isso não é uma crítica, e sim uma constatação estatística), existe o risco de populações mais vulneráveis venderem seus dados sem compreender as consequências futuras.
O Congresso brasileiro trabalha paralelamente em um projeto de lei que classificaria os dados como propriedade pessoal, superando a legislação atual que os considera direito inalienável. A nova regulamentação concederia às pessoas direitos completos sobre suas informações pessoais, especialmente aquelas geradas através do uso de plataformas online, aplicativos e dispositivos conectados.
Quais serão as possíveis consequências?

Os reflexos de uma eventual decisão favorável à monetização dos dados pessoais no Brasil não impactam apenas o cidadão médio, que vai ter mais uma fonte de renda. As big techs estão de olho no que vai acontecer por aqui, pois elas serão as maiores prejudicadas.
Para gigantes tecnológicas como Google, Meta e Amazon, acostumadas a obter dados valiosos oferecendo plataformas gratuitas, a proposta representa uma mudança disruptiva no modelo de negócios.
Volto a repetir o velho mantra: “quando algo é oferecido de graça, o produto é você”.
Pense no cenário onde essas mesmas plataformas não podem mais obter os seus dados de forma gratuita e, em muitos casos, sem o conhecimento ou consentimento do usuário.
O desenvolvimento de vários produtos e serviços que dependem desses dados, principalmente as plataformas de inteligência artificial, seriam seriamente prejudicados, pois todas essas empresas teriam que pagar para ter o acesso aos seus dados.
E… pode ter certeza de que todas elas entraram em uma “encruzilhada” por causa desse projeto. Afinal de contas, não pega bem dizer para as pessoas que “é melhor ceder os seus dados de graça para nós no lugar de lucrar por isso”.
Para os usuários, pode ser o primeiro passo em direção a um mundo onde cada clique, busca e movimento digital tenha valor de mercado tangível, mesmo com os riscos que estão atrelados aos usuários mais leigos.
Muitas pessoas entendem que é algo válido vender informações pessoais e lucrar com isso, quando neste momento as big techs coletam os dados de todo mundo e não pagam um centavo sequer por isso.
Eu entendo perfeitamente quem pensa assim. É o mesmo que vejo acontecer com os conteúdos dos meus sites: o Google pega as informações compartilhadas aqui para oferecer como resposta para a sua inteligência artificial, eliminando as chances de visitas nas páginas e ficando com todo o lucro da publicidade atrelada.
É um assunto polêmico e complexo, que precisa ser discutido de forma ampla pelo coletivo. Só temo que essa discussão não deve avançar muito, já que parte da população só se importa em compartilhar fotos de “bom dia” no grupo do ZapZap.
E a outra parte acredita em fake news.
Entre um grupo e outro existem eu e você, que chegou até o final deste artigo.

