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Bill Gates previu o fim do iPod, mas não previu que a Apple venceria sem ele

Em maio de 2005, Bill Gates concedeu uma entrevista ao Frankfurter Allgemeine Zeitung que, 21 anos depois, continua sendo um dos documentos mais reveladores sobre a psicologia da indústria de tecnologia.

Na época, o iPod vendia aos milhões. O iPhone sequer existia. O Windows Mobile dominava o nicho de assistentes digitais corporativos. E Gates, com o tom pragmático de quem já vira aquele roteiro antes, disparou a frase que virou manchete: o sucesso estrondoso do iPod chegaria ao fim.

Ele estava certo. Absolutamente, categoricamente certo. E isso é o menos interessante da história.

O que realmente importa não é a precisão da previsão, mas o fato de que Gates — e a Microsoft como um todo — enxergou o futuro com clareza solar e, ainda assim, foi incapaz de construí-lo. A empresa que antecipou a convergência dos dispositivos de bolso passou a década seguinte sangrando capital ao tentar executá-la. A Apple, que evitou previsões públicas, construiu a máquina que transformou essa convergência em realidade.

Essa é a diferença entre visão e execução. E é uma lição que o mercado de tecnologia insiste em ignorar.

 

O que Gates disse, exatamente

O contexto da entrevista ajuda a dimensionar o momento. Gates não mencionou o iPod gratuitamente: respondia a uma pergunta sobre a presença da Microsoft em telefonia móvel, que na época era um negócio modesto perto do monopólio do Windows, mas tido como promissor. O entrevistador questionou quando a divisão pararia de dar prejuízo. Gates desviou do balanço imediato e mirou o quadro geral:

“Para mim, esta área tem importância estratégica absoluta. Cada vez mais funções serão integradas em um único dispositivo, e isso exige soluções de software.”

Tocar música era apenas uma dessas funções. Foi o gancho para a sua aposta:

“Não acredito que o sucesso do iPod possa ser sustentado indefinidamente, por melhor que a Apple seja. Acho que podemos traçar paralelos com o computador: a Apple, com seu Macintosh e a interface gráfica, já foi extremamente forte — muito parecido com o iPod hoje — e depois perdeu sua posição. Os consumidores querem mais opções, e as terão porque há muita inovação nessa área.”

A lógica parecia irretocável. Se o telefone celular estava destinado a se tornar o centro nevrálgico da rotina digital, por que alguém continuaria carregando um aparelho secundário exclusivo para música? O iPod era um dispositivo de função única em um ecossistema que se movia rumo à convergência. Gates não precisava de clarividência mística para apontar isso; bastava ler a evolução dos componentes e da conectividade.

O problema foi supor que o modelo de ruptura seguiria o manual da Microsoft dos anos 1980 — sem prever que a própria Apple ditaria as regras da transição.

 

O iPod em 2005: maior do que a narrativa sugere

Para compreender o alcance daquela declaração, é preciso olhar os números. Em 2005, a Apple comercializou cerca de 22,5 milhões de iPods. Era um volume formidável, mas o auge do dispositivo não antecedeu a entrevista: veio depois. Entre 2007 e 2010, as remessas anuais atingiram o patamar de 50 a 54 milhões de unidades.

Gates antecipou o ocaso de um produto que ainda quadruplicaria de tamanho antes da curva descendente. O iPod não evaporou da noite para o dia: atingiu o pico, iniciou um declínio gradual e só foi formalmente descontinuado pela Apple em 2022 — 17 anos após a publicação no jornal alemão.

O ponto cego de Gates foi desconsiderar que a Apple seria a primeira a devorar a própria criação. O iPhone, revelado em 2007, nascia como três produtos em um: um telefone revolucionário, um comunicador de internet e o melhor iPod já desenhado. Ciente da péssima experiência com o Motorola ROKR em 2005 — a malfadada tentativa de embutir o iTunes em um celular comum de terceiros —, Steve Jobs concluiu que delegar a convergência a parceiros era suicídio comercial.

A Apple não esperou que a indústria sepultasse o iPod: ela mesma assumiu o golpe. Em 2010, o faturamento gerado pelo iPhone já superava os melhores dias do tocador de música. Em poucos anos, tornava-se o produto de consumo mais rentável de todos os tempos.

 

A Microsoft viu a rota, mas errou a navegação

Enquanto Cupertino orquestrava a transição, Redmond tentava reagir com ferramentas concebidas para outra época.

O Windows Mobile, derivado das interfaces de bolso dos anos 2000, carregava as premissas do desktop: janelas, menus suspensos e dependência de canetas stylus. Quando a tela capacitiva multitouch do iPhone redefiniu a usabilidade, a resposta imediata da Microsoft foi remendar um núcleo defasado no Windows Mobile 6.5.

Quando finalmente desenhou uma resposta à altura com o Windows Phone em 2010 — apresentando uma interface gráfica minimalista, baseada em tipografia e blocos dinâmicos —, o estrago estava feito. A plataforma chegou atrasada, enfrentou um boicote tácito de desenvolvedores e gigantes como o Google, e sofreu com quebras desnecessárias de compatibilidade de software impostas pela própria Microsoft a cada nova geração.

Em 2014, num movimento drástico para estancar o isolamento de hardware, a Microsoft concluiu a compra da divisão móvel da Nokia por cerca de US$ 7,2 bilhões. Pouco mais de um ano depois, sob a gestão de Satya Nadella, a companhia realizou uma baixa contábil de US$ 7,6 bilhões relacionada à aquisição, selando o desmantelamento da divisão. O sistema foi relegado à manutenção básica até o encerramento definitivo do suporte. A categoria que Gates classificara como de “importância estratégica absoluta” evaporou do catálogo da empresa.

 

Por que a estratégia falhou?

Reduzir o tropeço da Microsoft a simples incompetência de engenharia é ignorar o “dilema da inovação”. Nos anos 2000, a companhia era refém dos dois maiores monopólios de software da história: o Windows e o Office. Iniciativas que desafiassem a primazia dessas plataformas sofriam resistência interna severa. O setor móvel foi tratado durante anos como um satélite do computador de mesa, não como um ecossistema independente.

A Apple vivia uma realidade oposta. O iPod resgatara a marca da irrelevância comercial e provara que a receita da empresa não dependia exclusivamente de computadores Mac. Canibalizar o iPod com o iPhone não gerava conflito ideológico com o passado; era a continuação direta de uma empresa focada em criar objetos de consumo desejáveis por meio da integração vertical entre hardware, software e serviços.

Gates acertou o diagnóstico técnico: funções convergiriam para uma única tela. Mas errou na premissa econômica: previu que o mercado móvel repetiria a vitória do modelo de licenciamento de software sobre o hardware integrado da Apple. Subestimou a capacidade da rival de manter um ecossistema fechado tão coeso e atraente que reverteria para sempre a lógica dos anos 1980.

 

O eco da convergência

Mais de duas décadas após a declaração de Gates, o setor de tecnologia opera sob ciclos parecidos. O smartphone atingiu o ápice de saturação e a busca pela próxima tela — de óculos de computação espacial a interfaces orientadas por agentes de inteligência artificial — segue em aberto.

A declaração de 2005 sobre o fim inevitável do iPod não envelheceu como um erro de vidência, mas como um testemunho irônico sobre os limites do planejamento teórico: na tecnologia de consumo, antecipar o horizonte tem pouco valor prático se a sua própria estrutura corporativa for incapaz de abandonar os sucessos de ontem para construir o produto de amanhã.

 

A ironia final

Bill Gates estava certo sobre o iPod. O sucesso não durou para sempre. O dispositivo foi engolido pela convergência, exatamente como ele previu. Mas a Apple não perdeu sua posição. Pelo contrário. A empresa usou a transição para se tornar ainda mais dominante.

Gates, por outro lado, viu sua empresa perder a chance de liderar a maior revolução tecnológica do século XXI. A Microsoft que ele fundou e dirigiu por décadas não conseguiu transformar sua visão em produto. Ficou presa ao passado, ao Windows, ao Office, a um modelo de negócios que não fazia mais sentido.

A lição é dura e vale para qualquer empresa de tecnologia: não basta prever o futuro. É preciso construí-lo. E construir o futuro exige mais do que inteligência estratégica. Exige coragem para canibalizar o próprio sucesso, obsessão com a experiência do usuário e uma cultura que valorize o novo acima do velho.

A Apple tinha tudo isso. A Microsoft não. E é por isso que, 21 anos depois, a previsão de Gates sobre o iPod é lembrada não como um momento de clarividência, mas como um lembrete do que a Microsoft poderia ter sido — e não foi.