Press "Enter" to skip to content

Apple TV no Brasil: a ascensão que ninguém esperava

O mercado brasileiro de streaming mudou bastante no primeiro trimestre de 2026. A JustWatch divulgou o seu tradicional relatório com dados referentes ao mercado brasileiro de streaming no primeiro trimestre de 2026, e o resultado trouxe um movimento que poucos analistas antecipavam: a Apple TV se consolidou como uma das plataformas de crescimento mais expressivo do período.

O crescimento do Apple TV ao longo de 2025 e início de 2026 é um dos pontos mais surpreendentes do relatório. Para um serviço que opera com catálogo intencionalmente enxuto e sem produções locais no Brasil, o avanço é mais do que notável — é um sinal de mudança de comportamento do consumidor brasileiro.

O mercado de entretenimento digital no Brasil atingiu um patamar de maturidade e fragmentação sem precedentes em 2026, e se há poucos anos a escolha era simples, hoje o consumidor se vê diante de um ecossistema complexo de assinaturas, planos com anúncios, taxas de membro extra e direitos de transmissão esportiva pulverizados.

Nesse cenário, a Apple TV não apenas sobreviveu — ela avançou.

 

Os números que explicam o destaque da Apple TV

O serviço de streaming da Maçã aparece em 5º lugar no ranking, com 9% de participação. Embora esse número seja o mesmo registrado no trimestre anterior, ele representa um crescimento de três pontos percentuais em relação ao 1º trimestre de 2025.

A combinação de estabilidade trimestral com expansão anual sólida indica crescimento construído de forma orgânica.

O Apple TV teve a sua participação no mercado de streaming brasileiro encolhida ainda mais durante os três primeiros meses de 2025, atingindo 6%. Partir de 6% e chegar a 9% em um ano, num mercado tão competitivo, representa uma virada real de trajetória.

De acordo com os dados, o Apple TV ficou com 8% do mercado no terceiro trimestre de 2025, ocupando a sexta posição do ranking. O salto de sexto para quinto lugar, combinado com a ultrapassagem do Globoplay, reforça que a curva ascendente foi consistente ao longo de quatro trimestres consecutivos.

 

Como a Apple TV ultrapassou o Globoplay

A Apple TV deu um salto de gigante, crescendo 3 pontos percentuais no ano e alcançando 9% de participação. Com isso, a plataforma da Maçã ultrapassou o Globoplay, que caiu para os 7%.

O peso simbólico desse resultado é enorme: uma plataforma internacional, sem produções nacionais, passou à frente da maior plataforma brasileira do país.

A plataforma da Apple ampliou sua participação em 3 pp no período de um ano, encerrando o primeiro trimestre de 2026 com 9% de market share. O Globoplay, por sua vez, vive o dilema de plataformas nacionais diante da concorrência global.

O Globoplay continua sendo a principal plataforma nacional no mercado brasileiro, no entanto, a perda de 4 pontos percentuais ao longo de 2025 indica que a concorrência com serviços globais está cada vez mais difícil.

Na prática, o movimento sinaliza uma mudança profunda de preferências. A ascensão do Disney+ e da Apple TV mostra que o público brasileiro está diversificando suas assinaturas em busca de conteúdos específicos, como franquias de heróis e produções originais premiadas.

O critério de escolha deixou de ser o tamanho do catálogo e passou a ser a qualidade percebida de cada título.

 

A estratégia de poucos títulos e alto impacto

A proposta editorial da Apple TV é radicalmente diferente da maioria dos concorrentes. A abordagem diferenciada da Apple contrasta com o modelo tradicional de streaming.

Enquanto Netflix e Prime Video combinam produções próprias com catálogos extensos de filmes e séries licenciadas, o Apple TV oferece apenas conteúdo original.

A empresa investe aproximadamente US$ 4,5 bilhões anuais em conteúdo original, mantendo um catálogo enxuto, mas de alta qualidade. O resultado é uma curadoria cirúrgica: poucos lançamentos por mês, mas com padrão técnico e narrativo que costuma superar a média do mercado.

Curadoria é uma palavra que define bem o catálogo do Apple TV. Cheio de produções elogiadas, como as séries Ted Lasso e Ruptura, o streaming da Apple conta com estrelas renomadas em suas produções, que formam um catálogo mais enxuto e de muita qualidade.

Para o público que consome com critério, a plataforma virou referência.

 

O Brasil como segundo maior mercado global da Apple TV

Um dos dados mais reveladores sobre o crescimento da Apple TV vem de dentro da própria empresa. O Brasil é o segundo maior mercado do Apple TV no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

A revelação foi feita por Eddy Cue, vice-presidente sênior de Serviços da Apple, em entrevista à Folha de S. Paulo. Segundo o executivo, o país não só ocupa a segunda posição em quantidade de assinantes como também é o mercado que cresce mais rapidamente no mundo.

A declaração surpreende pelo peso simbólico: a Apple nunca produziu uma série ou filme original em território brasileiro. Enquanto concorrentes como Netflix, Amazon e Disney já estabeleceram polos de produção locais há anos, a fabricante do iPhone ainda não bancou nenhum projeto nacional.

Mesmo com crescimento acelerado e base consolidada de usuários, a Apple nunca produziu uma série ou filme brasileiro para a plataforma. O paradoxo é real: o segundo maior mercado da plataforma no mundo ainda não recebeu nem um único projeto local em retorno.

 

O papel do ecossistema Apple no crescimento brasileiro

Uma das grandes vantagens competitivas da Apple TV não está apenas no conteúdo. O Apple One, que combina o streaming com outros serviços por R$ 42,90, oferece valor agregado para usuários do ecossistema Apple. A integração com dispositivos iPhone, iPad e Mac cria vantagem competitiva entre proprietários destes produtos.

Atualmente, o Apple TV tem apenas um plano mensal de assinatura que custa R$ 29,90 por mês após um período de teste gratuito de sete dias. Caso você compre um aparelho da Apple, há a oferta de assinatura por três meses gratuitos.

Quem já é usuário de iPhone ou iPad recebe o serviço praticamente embutido na compra do dispositivo.

O Apple TV costuma se destacar pelo preço competitivo, ainda que com um catálogo menor. Num contexto em que o custo total para manter os planos premium das maiores plataformas ultrapassa facilmente os R$ 300 mensais, uma assinatura de R$ 29,90 com conteúdo premiado faz sentido para quem quer qualidade sem pesar o orçamento.

 

O que impulsiona o engajamento na plataforma

A estratégia de crescimento foca em qualidade e reconhecimento crítico para construir marca premium no entretenimento. Investimentos em talentos como Martin Scorsese para Killers of the Flower Moon sinalizam compromisso com cinema de prestígio. A expansão para documentários e programas infantis diversifica o portfólio além de ficção tradicional.

A Apple tem intensificado os investimentos em filmes com potencial para disputar o Oscar, usando a premiação como vitrine global para ampliar a visibilidade do Apple TV. Indicações e vitórias em cerimônias de prestígio funcionam como marketing orgânico de alto alcance.

A Apple anunciou uma parceria com a Netflix nos EUA para disponibilizar a nova temporada de Fórmula 1: Drive to Survive no Apple TV — serviço que, no Brasil, também transmite gratuitamente jogos da MLS a partir de 2026.

Movimentos como esses ampliam o apelo da plataforma para públicos além dos fãs de séries dramáticas.

 

O dilema do crescimento sem produção local

O avanço expressivo no Brasil gera uma pergunta cada vez mais pertinente: até quando a Apple TV pode crescer sem investir em conteúdo nacional? Plataformas como Netflix, Amazon e Disney investem fortemente em produção local no Brasil há anos. Séries e filmes brasileiros se tornaram parte essencial da estratégia de expansão dessas empresas no país.

Produção local aumenta engajamento, fidelização e relevância da marca em mercados regionais. A ausência de conteúdo brasileiro na plataforma é, ao mesmo tempo, um ponto cego e uma oportunidade gigantesca ainda não explorada.

O executivo explicou que o modelo da Apple é focado exclusivamente em produções originais de alta qualidade — a empresa nunca licenciou séries ou filmes de terceiros — e que esse padrão exige tempo para ser replicado em novos territórios.

“Não funciona tão rapidamente quanto eu gostaria, especialmente se você quer ser realmente bom, mas chegaremos lá.”

A fala de Cue indica que o Brasil está no radar, mesmo que ainda sem prazo definido.

 

O que esperar para os próximos trimestres

O mercado global de streaming de mídia vale US$ 151,17 bilhões em 2026, com projeção de crescimento a uma taxa composta de 7,36%, ou US$ 215,6 bilhões em 2031. Esse crescimento está fortemente ligado à mudança de propostas exclusivamente baseadas em assinatura para modelos híbridos que combinam planos pagos com publicidade.

O Brasil representa 36% da receita de entretenimento digital na América Latina e ocupa a 11ª posição global, com previsão de investimento de US$ 39,4 bilhões em streaming, música, games e serviços digitais em 2025. A relevância do mercado brasileiro torna qualquer movimento da Apple aqui ainda mais estratégico.

O streaming brasileiro entrou em uma fase de maturidade: já não é só “quem chegou primeiro”, mas “quem entrega mais valor pelo preço”. O Prime Video lidera com um pacote de benefícios, o Disney+ avança com franquias e catálogo ampliado, e a Netflix busca se reposicionar em um mercado mais disputado.

Nesse cenário, a Apple TV chega ao segundo trimestre de 2026 com vento a favor — e com muito espaço para avançar se decidir apostar no Brasil de vez.