
Durante a transmissão das finais da NBA em junho de 2025, uma propaganda inusitada chamou a atenção: cenas desconexas como um alienígena tomando cerveja, um homem idoso de chapéu de caubói segurando um chihuahua e uma pessoa nadando em uma piscina de ovos.
Esses fragmentos bizarros faziam parte de um anúncio criado por inteligência artificial para a plataforma de apostas Kalshi. A empresa buscava uma forma barata e chamativa de divulgar seu serviço diante de milhões de telespectadores.
E conseguiu: o vídeo produzido com a ajuda do Veo 3 do Google custou bem menos que os valores cobrados por grandes agências de publicidade, o que já coloca os profissionais da área em estado de alerta máximo.
O processo criativo
Segundo o criador do vídeo, PJ Accetturo, que se descreve como “filmmaker de IA”, a propaganda foi criada com o Veo 3, o novo gerador de vídeo por texto da Google. O custo total do projeto foi de apenas US$ 2 mil e levou de dois a três dias para ser finalizado por uma única pessoa.
A comparação com a produção tradicional é gritante: Accetturo estima uma redução de 95% no custo em relação a campanhas convencionais de TV, que podem custar centenas de milhares de dólares.
A criação da propaganda seguiu uma metodologia que se torna cada vez mais comum em projetos com IA generativa.
Accetturo começou com um roteiro simples, gerou uma lista de tomadas com a ajuda do Gemini, o modelo de linguagem da Google, e depois alimentou o Veo 3 com os prompts gerados.
Ele destaca a importância de limitar os pedidos a cinco prompts por vez para manter a qualidade das cenas. Foram necessárias entre 300 e 400 gerações para obter apenas 15 clipes usáveis.
Após a seleção dos clipes, a montagem foi feita com ferramentas de edição acessíveis como CapCut e Adobe Premiere Pro. A combinação de IA generativa com edição leve mostra como é possível produzir peças de marketing minimamente funcionais com uma estrutura de produção caseira.
A chegada da IA à propaganda televisiva
O anúncio da Kalshi é considerado um marco simbólico porque leva o conceito de “slop content” (conteúdo visualmente bizarro ou sem sentido, gerado por IA) da internet para a televisão aberta, durante um dos eventos mais assistidos do esporte americano.
Análises como a publicada pelo The Verge destacam que o Veo 3 é “o sonho de um traficante de slop”, sugerindo que a IA da Google é capaz de criar rapidamente conteúdos absurdos, mas de forma eficaz para atrair a atenção.
O lançamento do Veo 3 é recente, mas a sua aplicação em uma propaganda nacional sugere um futuro no qual a produção audiovisual de baixo custo será explorada de maneira agressiva por marcas que desejam se destacar sem depender de grandes orçamentos.
Plataformas como Amazon, Meta e Netflix também vêm desenvolvendo soluções de IA para produção de conteúdo publicitário.
É o fim dos grandes orçamentos em publicidade?
A tendência apontada por especialistas é que veremos um crescimento exponencial do uso de IA generativa na produção de conteúdo, especialmente em publicidade digital e televisiva.
Além da redução de custos e tempo, a IA permite testes rápidos de formatos visuais, adaptações regionais e personalização em larga escala.
Esse novo cenário levanta questionamentos sobre a qualidade e o impacto das mensagens publicitárias. Mesmo eficientes para captar a atenção pelo inusitado, anúncios como o da Kalshi podem contribuir para a normalização de conteúdo incoerente ou visualmente saturado, tornando a experiência do espectador ainda mais caótica.
É tudo muito novo. Mas aparentemente inevitável.
A IA vai deixar a vida de muitos profissionais mais prática, mas deve gerar muito desemprego entre aqueles que não sabem escrever um prompt.
Veja o vídeo aqui. https://x.com/Kalshi/status/1932891608388681791
