
Fato: a Globo é sim a maior do país no segmento de mídia e entretenimento. Independentemente do que você pensa a respeito dele.
Também é fato: o futuro da Globo como produtora e distribuidora de conteúdo é o Globoplay, que finalmente deu lucro. Porém, os ganhos foram limitados pela queda de receitas dos canais do grupo na TV por assinatura e nas vendas de conteúdo para o exterior.
É uma conta que não fecha.
Tudo isso aconteceu no quarto trimestre de 2025 (que tiveram seus resultados apresentados agora, em março de 2026).
E olhar para o que aconteceu com a Globo pode ser algo revelador para o futuro dos setores de TV paga e streaming no Brasil.
O que os números revelam

Pela primeira vez desde 2014, a receita total da Globo superou a casa dos R$ 16 bilhões, sendo que R$ 10 bilhões vieram da publicidade na TV aberta.
O que não é algo ruim. Pelo contrário: é o que salvou o dia, no final das contas.
A receita anual da publicidade na Globo cresceu expressivos 57%, e o salto no quarto trimestre de 2025 foi de absurdos 571%.
Acontece que a Globo não é o Google, e para exibir comerciais nos seus canais, precisa investir em programação e – pasmem – na existência desses canais.
E é aqui que está o grande problema.
No quarto trimestre de 2025, a Globo perdeu (ou melhor, deixou de arrecadar) R$ 100 milhões de receita nas áreas de conteúdo, programação e assinaturas em comparação com o mesmo trimestre de 2024.
A porcentagem aqui é de apenas 4%. Mas R$ 100 milhões é sim muito dinheiro em qualquer lugar.
Para você ter uma ideia, a Globo perdeu apenas em um trimestre muito mais do que os lucros acumulados do SBT EM DOIS ANOS.
E isso dá uma dimensão do tamanho que a Globo tem, já que essa é a comparação com aquela que, em teoria, é a segunda colocada.
E onde o Globoplay se encaixa com tudo isso?
O serviço de streaming da Globo deu lucro pela primeira vez em 10 anos, em um cenário muito similar ao de sua co-irmã Netflix. Com 30 milhões de usuários ativos mensais, a plataforma aumentou a sua base de assinantes em mais de 30% em 12 meses.
E até o Premiere Play cresceu em número de assinantes no último trimestre, com 32% a mais de usuários, motivados pelos jogos exclusivos dos campeonatos nacionais (e, talvez, pela queda em massa de vários serviços de streaming e IPTV alternativos).
Tá, mas… onde está o problema?

A Globo perdeu 4%, mesmo com um aumento de audiência no streaming e no pay-per-view esportivo. Ao mesmo tempo, os canais de TV paga pesam nas contas, e até a Claro (sim, a operadora de TV por assinatura com a melhor relação custo-benefício) pesa nessa equação.
O Globoplay aumentou em assinantes e audiência, mas não necessariamente ganhou mais dinheiro por isso.
Por que isso aconteceu?
Sabe aquele “mimo” que a Claro oferece para praticamente todos os seus assinantes ao ofertar o Globoplay “de graça” em diferentes níveis (apenas o streaming para quem só tem internet, e streaming com os canais para quem tem TV por assinatura)?
Então… o acordo LIMITA o lucro do Globoplay e dos canais de TV paga, pois ele é por valor fixo.
A Claro fechou um acordo de parceria que determinou um valor único para ter o Globoplay vinculado aos seus planos. O Grupo Globo não estimou a possibilidade de aumento de usuários dentro do serviço em nenhum momento, deixando de ganhar dinheiro no movimento.
Muito provavelmente o acordo foi feito para impulsionar o crescimento do Globoplay, que precisava ganhar usuários a todo custo… inclusive para aumentar as receitas com publicidade, que é hoje o principal responsável pela manutenção financeira do Grupo Globo como um todo.
No passado, o acordo para distribuir o Globoplay para os clientes da Claro funcionou muito bem. Agora, ele significa perda de dinheiro. Ou melhor, deixar de ganhar dinheiro para o Grupo Globo.
E ninguém gosta de perder dinheiro.
Agora, some tudo isso com a queda de receitas na TV por assinatura de um modo geral (uma vez que todo mundo está indo para o streaming) os novos players globais avançando, os novos formatos de distribuição de conteúdo e as mudanças nos direitos esportivos, e fica fácil começar a projetar o que vai acontecer no futuro com todos os envolvidos.
Calma, que pode piorar (para a Globo)

Antes de continuar, é sempre importante lembrar que a queda no trimestre foi de apenas 4%, o que não torna o cenário da Globo de tragédia completa.
Mas liga o sinal de alerta, já que toda empresa que existe em um mundo capitalista (e é composta por acionistas e investidores) visa o lucro.
E eu estou dizendo o óbvio.
Dito isso, a Globo já está tomando medidas para flexibilizar a sua captação de receitas. Algumas dessas iniciativas já estão em prática.
Investir em novelas verticais pode parecer uma grande bobagem… para os mais velhos. Mas a Globo entende que essa é a tendência de consumo de conteúdo, principalmente em um público que ela tem dificuldades em alcançar: os adolescentes e jovens adultos.
Aumentando esse público, as receitas em publicidade fatalmente vão aumentar, já que os investimentos estão majoritários nessas plataformas de vídeos curtos.
Outra iniciativa pensando na recuperação de receita e, ao mesmo tempo, na conquista do público mais jovem é o GE TV.
É mais do que evidente para todo mundo que a iniciativa tem como objetivo maior tentar roubar alguma parcela de público da Cazé TV. Até porque a plataforma, que hoje é parte da Live Mode, modificou drasticamente a perspectiva de consumo esportivo e da distribuição dos direitos de transmissão de eventos.
O público segmentado esportivo está, hoje, na internet. Está assistindo aos eventos da tela do smartphone ou tablet, e não necessariamente na televisão.
E o monopólio da Rede Globo para os eventos mais importantes, como a Copa do Mundo, os Jogos Olímpicos e o futebol brasileiro finalmente acabou.
A internet é a grande rival da TV, e isso está acontecendo desde o nascimento do YouTube. E a Globo neste momento não só tem que lidar com a rede mundial de computadores, mas com toda a concorrência que emergiu em função de sua existência.
A essa altura do artigo, não é preciso ser um Sherlock Holmes para concluir que a Globo precisa tomar decisões drásticas para evitar uma queda vertiginosa no segmento de TV e streaming, o que resultaria como consequência ainda pior a queda de receitas em publicidade.
E é aqui que muita gente vai chorar pelo que pode acontecer.
O que (muito provavelmente) vai acontecer

Você, assinante da Claro, que estava feliz em ter a Globoplay de graça, se prepare para o pior.
Diante do cenário apresentado, é certo que a Globo vai chamar a Claro para renegociar o acordo envolvendo a distribuição dos seus canais de TV paga e do serviço de streaming na operadora.
Por ser a maior operadora do país, fica mais ou menos claro (sem trocadilhos) que as maiores chances de aumento de receitas para amortizar essa queda de R$ 100 milhões no faturamento está diretamente relacionado com a reformulação desse contrato.
Aqui, ou a Globo vai cobrar mais caro para manter o formato de distribuição do Globoplay na operadora, ou esse acordo simplesmente vai acabar, sob pena de remoção do streaming do pacote.
Também existem grandes chances dos canais do Grupo Globo sofrerem um reajuste de preços para a distribuição nas plataformas, o que (muito provavelmente) vai resultar em um reajuste de valores para o consumidor final.
Observe que a grande maioria das operadoras de TV por assinatura que adotaram o formato de IPTV não contam com os canais do Grupo Globo no seu line-up, muito provavelmente porque os custos para ter esses canais são elevados.
Na melhor das hipóteses (veja bem, melhor), a Claro pode optar por oferecer produtos diferentes para formatos de distribuição diferentes, só para manter a competitividade: quem tem Claro TV+ App e Box não recebe os canais da Globo, e quem ainda possui a TV paga via cabo ou fibra ótica segue com esse conteúdo.
O que complica (para a Claro, é claro – desculpa pelo trocadilho) é que a operadora decidiu migrar toda a base de assinantes para o formato de TV Box que, na prática, é TV por streaming ou IPTV. O que deixaria, em teoria, os canais Globo de fora do produto, caso o impasse se estabelecesse da forma como apresentei.
Além disso, outro ponto que precisa ser observado é esse aumento de assinantes do Premiere Play.
Aqui, a Globo dá a entender que essas assinaturas vieram do serviço de streaming de pay-per-view, e não das parcerias com as operadoras de TV por assinatura.
Ou seja, a Globo, de alguma forma, validou mais uma vez o experimento que fez no ano passado, quando retirou o pay-per-view do seu principal produto nos aspectos comerciais, o Big Brother Brasil, da grade das operadoras de TV paga.
Deixar o BBB exclusivo no Globoplay trouxe impacto direto para as receitas e número de assinantes do serviço de streaming. Isso está confirmado na porcentagem do aumento de usuários na plataforma no primeiro trimestre de 2025 (32%).
Coincidência ou não, o Premiere Play também cresceu nos primeiros três meses do ano passado (52%), turbinado pela aquisição dos direitos de campeonatos estaduais relevantes e pelo início do Campeonato Brasileiro.
Logo, é correto dizer que a Globo pode sim dar o próximo passo: retirar o Premiere da TV paga, deixando o produto exclusivo na Globoplay.
A Globo só não vai fazer isso por conta dos acordos de distribuição ativos com os clubes, e porque muito provavelmente o Premiere é um produto que ainda gera muita receita na TV por assinatura brasileira.
Por fim, quase ia me esquecendo de falar de outro peso morto da Globo: o Telecine.
Essa é outra âncora que o grupo tem que carregar, e não seria nenhuma surpresa em ver esses canais se transformando em uma marca dentro do seu streaming.
É o movimento mais lógico, considerando o comportamento do consumidor atual e a dinâmica de momento do setor. Seria mais ou menos a mesma coisa que a Paramount Skydance fez quando decidiu retirar seus canais da TV por assinatura (saudades, MTV… saudades, Nickelodeon…).
Aliás, vamos ser justos aqui: foi a Disney que iniciou essa tendência de debandada em massa da TV por assinatura, retirando todos os seus canais, com exceção da ESPN, que ainda dá lucro na TV paga.
Então, se em algum momento a Globo retirar o Telecine da TV paga, não pode nem fingir surpresa, pois você foi avisado antes por mim.
Um novo tempo
A Globo está enfrentando um cenário que, na verdade, não é tão novo assim. E muitos de nós já sabiam que tudo isso iria acontecer.
Não consigo ver como desastre ou tragédia essa perda de 4% nas receitas da TV no último trimestre de 2025. Outras variáveis como o cenário econômico, a migração para o streaming e até mesmo as diferentes possibilidades de entretenimento precisam ser consideradas nos números, mas não foram abordadas na apresentação dos resultados.
Mesmo assim: toda queda sempre tem um ponto de partida. Talvez seja justamente esses 4% o sinal que a Globo precisava para mudar a perspectiva do todo.
Vamos acompanhar com atenção aos próximos acontecimentos. Quem sabe a Globo encontrou a desculpa para consolidar um novo modelo de negócio que, internamente, é planejado faz tempo.
A Globo (na TV aberta) ainda gera muita receita em publicidade. É sim o canal mais assistido do país. Mas definitivamente deixou de ser a protagonista do Grupo Globo, para se transformar na porta de entrada dos usuários para a nova rainha do faturamento.
O streaming.
