
Acompanha comigo.
Disney+ e Star+ fundiram-se numa única plataforma. HBO Max e discovery+ fizeram a mesma coisa, e agora são o Max (que poderia se chamar HBO no futuro – e isso não seria surpresa). A Netfix é a única que lucra de verdade, e o Apple TV+ é uma cara piada para os seus usuários.
Hoje, praticamente todas as plataformas de streaming contam com parcerias com aquela que, 12 anos antes, as enxergavam como grandes inimigas: as empresas de TV por assinatura, que estão trocando o cabo e a fibra ótica pelo IPTV, para reduzir os custos.
As mensalidades das plataformas disparam os seus preços sem aviso prévio, e assinar dois ou mais serviços se tornou algo praticamente inviável para o brasileiro médio. Os planos mais baratos contam com publicidade, degradando o serviço de forma quase obscena.
Estes movimentos não representam estratégias de expansão ou aumento de lucratividade. São sinais claros de que a guerra do streaming acabou. E ninguém venceu.
Todo mundo perdeu.
Especialmente você.
A promessa que foi quebrada

Lembra quando prometeram que filmes e séries estariam disponíveis para sempre, com preços acessíveis e em uma experiência de uso diferenciada da arcaica TV por assinatura?
Mentira. Tudo mentira.
O streaming transformou-se numa TV paga “premium”, apenas sob demanda.
Os conteúdos somem do catálogo sem explicações. Quer assistir “Hemlock Grove”, uma das primeiras produções originais da Netflix? Impossível – a plataforma a excluiu em 2022. O mesmo aconteceu com “Willow” do Disney+, que desapareceu apenas quatro meses após finalizar sua única temporada.
Por quê? Simples: corte de custos. Sai mais barato simplesmente retirar a série do ar do que seguir pagando royalties para todos os envolvidos pelos direitos de imagem e participação nos (poucos) lucros de reprodução.
Os planos no formato “básico com anúncios” se tornaram a nova regra de praticamente todas as plataformas, pois são alternativas sustentáveis para monetizar em cima do grande público consumidor.
Aqui, não existe inovação ou revolução: é exatamente o mesmo modelo de negócio da muito criticada TV paga, já que chegamos ao cúmulo de pagar para ver publicidade. Algo que pode muito bem ser totalmente de graça no streaming.
Os canais FAST confirmam o que estou falando.
A matemática implacável

Os executivos das grandes corporações enfrentaram a dura realidade, onde investir bilhões em conteúdo e ter apenas assinaturas como receita é insustentável. Ou a plataforma diversifica os seus lucros com distribuição de conteúdo para outros serviços e até o marketing de produtos físicos atrelados aos filmes e séries, ou essas mesmas plataformas correm o sério risco de fechar as portas de forma permanente.
E é por isso que agora testemunhamos os “super bundles” de serviços de streaming com plataformas de IPTV, como são os casos do Claro TV+ e do SKY+. Sem essas parcerias, onde cada uma das envolvidas fica com um pedacinho do bolo, os dois lados do negócio simplesmente vão ruir.
Por outro lado, os estúdios estão investindo quantias absurdas de dinheiro para suas produções, e entendem que é o assinante que tem que pagar por essa conta, custe o que custar.
Um exemplo extremo ilustra bem: a Amazon gastou mais de US$ 1 bilhão (R$ 5,59 bilhões) apenas nos direitos e produção de “O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder”.
Para cobrir este investimento, o Prime Video precisaria adicionar 50 milhões de assinantes nos EUA. No Brasil? Seriam necessários 279 milhões de novos contratos – mais que toda nossa população.
E qual foi a solução da Amazon?
Criar “do nada” um plano básico com anúncios para cobrar R$ 10 a mais por mês dos assinantes que não querem ver a publicidade durante o seu entretenimento.
Simples assim.
Só a Netflix lucra – e, ainda assim…

A Netflix consegue lucrar – US$ 6,9 bilhões (R$ 38,5 bilhões) em 2023 – mas à custa de frustrações. Séries adoradas são canceladas. O compartilhamento de senhas, antes incentivado, agora é proibido. E os aumentos de mensalidades irritaram a muitos assinantes da primeira leva da plataforma.
No esporte, a gigante evita grandes investimentos. Aposta em documentários e eventos alternativos, como um jogo de tênis entre Nadal e Alcaraz ou a futura luta entre Mike Tyson e Jake Paul. Seus US$ 5 bilhões na WWE compram entretenimento, não esporte genuíno.
Se serve como consolo para os fãs do esporte de verdade, os jogos de Natal da NFL transmitidos ao vivo pela Netflix foram um sucesso, e a experiência vai se repetir pelos próximos anos.
Sem falar nos direitos de transmissão da Copa do Mundo Feminina nos EUA para 2027 e 2031, o que deve ajudar a sustentar a sua liderança.
O que as demais plataformas de streaming (que olham para os resultados da Netflix com desejo) não entendem é que a plataforma líder no setor comeu o pão que o diabo amassou até alcançar o atual status.
Durante os seus 10 primeiros anos de atividades, a Netflix se deu ao luxo de receber investimentos bilionários para dar prejuízo. Só depois que acabou com o compartilhamento de senhas no serviço é que os lucros vieram de forma mais consistente.
E tudo o que os demais serviços estão fazendo é repetir os passos da Netflix, deixando de lado a inovação e a oferta de conteúdos originais mais interessantes.
A crise nacional

O Globoplay, principal plataforma brasileira, deve registrar seu primeiro lucro este ano, por conta de uma mudança drástica na sua estratégia comercial.
A substituição de Erick Brêtas, que priorizava qualidade, por Manuel Belmar, diretor financeiro, sinaliza tempos difíceis. O adiamento de produções em estágio avançado é outro sinal de que as coisas no Globoplay estão mais complexas do que o esperado ou desejado.
Para piorar a situação, vem a informação da própria Globo de que o Premiere só recebe o dinheiro das mensalidades de um em cada cinco usuários do serviço, o que faz com que a empresa deixe de ganhar nada menos que R$ 500 milhões anuais, por conta do “Gatonet”.
Não dá para não dizer que o Grupo Globo tem culpa nesse cenário. Foi a empresa que escolheu esse caminho, ignorando (em partes) a realidade econômica do público brasileiro e do perfil do seu público-alvo.
Agora, a Globo cortará custos onde puder. As consequências já aparecem nas novelas, com elencos mais modestos, e a qualidade das séries vai cair com a troca no comando da empresa.
Então… quanto tempo até o assinante perceber e cancelar?
O futuro é sim incerto

Esse efeito de retenção de custos e diminuição estratégica de produções também está acontecendo lá fora.
A Max lançou apenas 11 séries dramáticas em inglês em quatro anos. Dez foram canceladas. Entre as comédias, o cenário não melhora: de 13 lançamentos, só cinco continuam.
David Zaslav, CEO da Warner Bros. Discovery, anunciou que séries aguardadas como “Harry Potter” e “Welcome to Derry” não serão exclusivas do streaming.
O Paramount+ enfrenta problemas maiores. A Paramount Global está à venda, com Sony, Skydance e Apollo Global Management como potenciais compradores. Até a Warner demonstrou interesse no serviço.
E a Disney encerrou as atividades de sete dos seus canais ao redor do mundo (menos nos Estados Unidos), apostando suas fichas na exclusividade de (parte do) seu conteúdo no streaming, em uma plataforma que, aqui no Brasil, é a mais cara de todas.
Quando uma empresa inteira está em jogo, planejar o futuro de uma plataforma torna-se secundário. Por enquanto, o streaming sobrevive, mas… por quanto tempo?
E o que é mais grave: os executivos das plataformas não entendem uma regra muito simples desse mercado:
Se o consumidor perde, as plataformas de streaming vão perder também.
