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A crise das memórias gerada pela corrida na IA vai acabar com a indústria dos videogames?

A indústria dos videogames, que já enfrenta seus próprios problemas (que, por sinal, não são poucos), foi atingida por um golpe vindo de uma direção que está na rota de colisão de toda a indústria de tecnologia: a inteligência artificial.

Não se trata de gráficos mais inteligentes ou NPCs mais realistas, mas sim da briga por um recurso físico e finito, doravante conhecidos como os chips de memória RAM. O apetite voraz dos data centers de IA por componentes de alto desempenho está criando um gargalo na produção, e as consequências estão chegando aos estoques das lojas e aos planos das gigantes do setor.

Na prática, o que estamos testemunhando é um efeito dominó que começa na sua assistente virtual e termina na prateleira vazia onde deveria estar o seu novo console. Se você pensou em comprar um Steam Deck ou um PlayStation nos próximos meses, pode estar certo de que vai dar de cara com a mensagem “fora de estoque”.

A Valve confirmou o óbvio: a escassez de componentes, impulsionada pela demanda do mercado de IA, secou os modelos OLED de 512 GB e 1 TB, com a versão LCD de 256 GB já tendo sido descontinuada em dezembro.

Este é apenas o primeiro sintoma de uma crise que promete redefinir os cronogramas e os preços dos principais lançamentos do mundo dos games pelos próximos anos. E o que estamos testemunhando é uma tempestade perfeita para o presente e o futuro dos videogaems, onde o futuro do PlayStation 6, do Switch 2 e até dos planos da Valve para novos hardwares está em jogo.

 

O banquete da IA e a “fome” de memória

O coração do problema está na disputa por um punhado de fabricantes. Cerca de 90% da produção global de DRAM (Dynamic Random Access Memory) é controlada por apenas três empresas: Samsung, SK Hynix e Micron.

Com a explosão da inteligência artificial, os data centers de gigantes como OpenAI, Google e Amazon passaram a consumir toda a capacidade de produção da memória HBM (High Bandwidth Memory), uma variante ultrarrápida e essencial para servidores de IA.

Para atender a essa demanda bilionária e lucrativa, os fabricantes realocaram suas linhas de produção, priorizando esses chips de alto valor. O resultado é uma redução drástica na fabricação de memórias mais “comuns”, como a LPDDR5 usada no Steam Deck e a GDDR7 planejada para o PS6.

A consequência foi um aumento de preço explosivo no hardware. Modelos específicos de DRAM já subiram 75% desde o fim do ano passado, com analistas usando o termo “RAMmageddon” para descrever o cenário .

Empresas de todos os setores estão sentindo o baque. A Apple já alertou que a escassez está comprimindo as margens de lucro do iPhone, e a Tesla, na pessoa de Elon Musk, admitiu que pode ser forçada a construir sua própria fábrica de chips para não “bater no muro”.

E para os videogames, a disputa é igualmente cruel: os consumidores agora competem por esses componentes com as maiores empresas de tecnologia do planeta.

 

Steam Deck: o primeiro a sentir o aperto

A Valve foi uma das primeiras a sentir publicamente os efeitos dessa crise.

A falta do Steam Deck OLED em mercados cruciais como América do Norte e Japão não é um acaso logístico, mas um sinal claro de que a produção não acompanha a demanda devido à falta de memória. A empresa emitiu um comunicado confirmando que, embora outros componentes estejam disponíveis, a disponibilidade de NAND Flash e DRAM se tornou um gargalo crítico.

E o problema vai além do console portátil. Os planos ambiciosos da Valve para invadir as salas de estar com o novo Steam Machine, o headset Steam Frame e o novo Steam Controller foram duramente impactados.

A janela de lançamento, antes prevista para o “início de 2026”, foi discretamente alterada para “primeira metade de 2026”, e a empresa admite que não pode cravar preços ou datas.

A incerteza é tanta, que as primeiras estimativas de preço para o Steam Machine, que giravam em torno de 700 a 800 dólares, agora são vistas como otimistas demais. Analistas já projetam que o preço final pode facilmente ultrapassar a barreira dos 1.000 dólares, um valor que o colocaria em uma liga completamente diferente dos consoles tradicionais.

A pergunta que fica é: a Valve estaria priorizando a pouca memória disponível para o Steam Machine, deixando o Steam Deck em segundo plano e agravando sua escassez?

 

PlayStation 6 pode entrar em um hiato histórico

A notícia que mais incomodou nos últimos dias foi o possível adiamento do PlayStation 6. Fontes familiarizadas com os planos da Sony, citadas pela Bloomberg e outros veículos, indicam que a empresa está considerando seriamente empurrar o lançamento de seu próximo console para 2028 ou até 2029.

Se confirmado, este será o maior intervalo entre gerações da história da marca, com o PS5, lançado em 2020, tendo uma vida útil de quase uma década.

A justificativa é puramente técnica e econômica. O PS6, ainda em fase de especulação, provavelmente chegaria ao mercado com algo em torno de 30 GB de memória GDDR7, um salto significativo em relação ao PS5.

O problema aqui é que a Samsung já vendeu toda a sua capacidade de produção desse tipo de memória para 2026, e a Micron afirma não ter espaço para novos contratos até 2027. Simplesmente não há silício disponível para produzir o console em massa num futuro próximo.

Isso não significa que o PS5 esteja ameaçado. A Sony já garantiu que possui memória suficiente para sustentar a produção de seu console atual até 2027, sem aumentos de preço.

A estratégia, agora, parece ser a de esticar a atual geração ao máximo, lançando mais jogos cross-gen e possivelmente novos modelos intermediários, enquanto espera a poeira da corrida da IA baixar para poder lançar seu próximo grande investimento.

 

Switch 2, um sucesso que virou dor de cabeça

Se a Sony pode adiar seu problema, a Nintendo vive um dilema mais imediato e complexo. O Switch 2 já está no mercado e é um sucesso estrondoso, com quase 18 milhões de unidades vendidas.

Esse mesmo sucesso, porém, torna a empresa extremamente vulnerável à volatilidade dos preços das memórias. A Nintendo é uma das grandes responsáveis por ter esgotado a oferta de memória em 2025, e agora a conta chegou.

De acordo com fontes próximas da empresa, a Nintendo está pagando cerca de 41% a mais pelos 12 GB de RAM de cada unidade do Switch 2 do que o projetado inicialmente. Manter o preço atual de US$ 449,99 significa, na prática, ter um prejuízo estimado em US$ 50 por console vendido ao longo de 2026.

Para uma empresa que vende dezenas de milhões de unidades (e depende muito das vendas de hardware para a prosperidade econômica do seu negócio), esse rombo é insustentável.

Diante desse cenário, circulam fortes rumores de que a Nintendo está avaliando um aumento de preço para o Switch 2 ainda em 2026. O próprio presidente da empresa já admitiu publicamente que o “mercado atual de memórias é muito volátil” e que o aumento dos custos dos componentes “supera nossas expectativas”.

Apesar de ter estoques e acordos de longo prazo, a pressão sobre o preço final ao consumidor é imensa e pode se tornar inevitável.

 

Um futuro de escolhas difíceis

O que estamos presenciando é uma reestruturação profunda e provavelmente permanente na cadeia de suprimentos de tecnologia. E quem vai pagar a conta, independentemente do cenário a se apresentar é, para variar, o consumidor final.

A IDC, em seus relatórios, já classifica o fenômeno como uma “realocação estratégica permanente da capacidade global de silício”, com a previsão de que, em 2026, cerca de 70% de toda a memória produzida no mundo será consumida por data centers.

Para os jogadores, isso se traduz em um futuro de escolhas difíceis.

Teremos que aceitar um preço mais alto para o Switch 2, ou esperar pacientemente até 2029 por um PS6 que custará uma fortuna?

A Valve conseguirá equilibrar o custo de seu Steam Machine sem perder a competitividade?

O problema, que afeta simultaneamente PCs, consoles de mesa e portáteis, deixa claro que nenhum setor está imune.

A indústria dos games, que já viveu de avanços geracionais previsíveis e, por que não dizer, insípidos, agora entra em uma era de escassez e adaptação forçada, com a inteligência artificial não como uma aliada, mas como uma concorrente voraz por recursos.

Já dá para dizer que a crise dos videogames que, antes, era especulativa e relativizada pelos mais otimistas (mas que dava sinais claros de realidade com as recentes quedas nas vendas de consoles e jogos), acabou de piorar?

 

Via TechSpot, NotebookCheck, Kotaku