
Aparentemente, depois de décadas no mercado, a Apple descobriu que água molha, o céu é azul e que um iPhone “acessível” com hardware decente vende que nem pãozinho na padaria.
Quem diria que oferecer um produto moderno por um preço menos extorsivo seria uma boa estratégia de negócios, não é mesmo?
(e perceba uma ironia quando você se deparar com uma, pelo amor de qualquer coisa…)
A revelação veio através de Mark Gurman, da Bloomberg, que tem o hábito irritante de estar sempre certo sobre os planos da Apple.
Segundo ele, a empresa de Cupertino está tão empolgada com o sucesso do iPhone 16e que já está preparando o iPhone 17e para a primavera de 2026 (no hemisfério norte – o equivalente ao segundo quadrimestre no Brasil).
Isso representa uma mudança radical na estratégia da empresa, que historicamente tratava os modelos “baratos” como aquele parente distante que só é lembrado nas reuniões de família.
A longa e tortuosa jornada da Apple para encontrar um “iPhone acessível”

Para entender a dimensão dessa mudança, é preciso voltar no tempo e relembrar o calvário que foi a linha iPhone SE.
Lançado originalmente em 2016, o SE era basicamente um iPhone 6s disfarçado de iPhone 5s, com a desculpa de que “algumas pessoas ainda gostam de telas pequenas”.
Mentira deslavada – o que as pessoas gostavam era do preço menos absurdo.
A Apple então decidiu brincar de esconde-esconde com os consumidores. O iPhone SE 2020 chegou quatro anos depois, desta vez com corpo de iPhone 8 mas com chip A13.
Dois anos depois, em 2022, veio o SE de terceira geração, que era praticamente idêntico ao anterior, mas com chip A15.
Depois desse lançamento… silêncio total.
Dois anos e meio de nada, enquanto os consumidores esperavam feito bobos por uma atualização.
Essa estratégia de lançamentos esporádicos de smartphones pseudo baratos (que, na verdade, eram só menos caros mesmo) não fazia o menor sentido.
Era como se a Apple dissesse para os trouxas que esperavam por uma nova edição do iPhone SE:
“Olha, a gente vai fazer um iPhone barato, mas só quando der vontade, e vocês que se virem com os modelos desatualizados no meio tempo”.
Genius move, Tim Cook. Realmente genius.
iPhone 16e, ou “quando a Apple resolveu fazer as coisas direito”

Antes de continuar, eu devo fazer o meu momento “mea culpa”.
Reconheço que errei em todas as opiniões expressas sobre o iPhone 16e. Afirmei que o produto seria um fracasso e, olha só como são as coisas, estou eu aqui, escrevendo elogios sobre ele.
Não só o iPhone 16e é um sucesso comercial, como a Apple deve seguir lançando novas versões anuais do dispositivo, apenas para fazer a roda da economia girar.
E no final das contas, trouxa fui eu de duvidar da “genialidade” do Tim Cook nesse lançamento. Peço desculpas públicas pela minha burrice.
Dito isso…
Em fevereiro de 2025, a Apple finalmente acordou para a vida e lançou o iPhone 16e. E… olha, que surpresa: não era mais um Frankenstein tecnológico feito de sobras de outros iPhones.
Era um dispositivo genuinamente moderno, com especificações que faziam sentido.
O 16e chegou com chip A18 – o mesmo do iPhone 16 padrão –, 8 GB de RAM (importante para a Apple Intelligence), USB-C (finalmente!), Face ID e uma tela OLED de 6,1 polegadas.
Pela primeira vez em anos, alguém poderia comprar um iPhone “barato” sem sentir que estava sendo feito de otário.
Claro que “barato” é um termo relativo quando falamos de Apple.
O iPhone 16e começou custando a partir de R$ 5.799, o que no Brasil provavelmente significava vender um rim e meio.
Mas comparado com os preços estratosféricos dos modelos Pro, era quase uma pechincha.
Hoje, ele pode ser encontrado na casa dos R$ 4 mil, muito mais aceitável e relativamente menos caro que o iPhone 16 normal, oferecendo basicamente a mesma experiência de uso.
Os números que fizeram a Apple acordar

O sucesso do iPhone 16e foi tão estrondoso que até a Apple – que historicamente não liga muito para dados quando eles não convêm – teve que admitir que acertou na mosca.
Segundo a Counterpoint Research, o dispositivo se tornou o sexto celular mais vendido do mundo em março de 2025.
De todos os smartphones do planeta.
Nos Estados Unidos, o iPhone 16e representou 7% de todas as vendas do iPhone em seu primeiro mês completo no mercado.
Para colocar isso em perspectiva: o iPhone SE 2022 nunca chegou nem perto desses números. É como comparar um foguete com um estilingue.
O impacto foi tão significativo que a Apple conseguiu ultrapassar a Samsung e se tornar líder mundial em participação de smartphones no primeiro trimestre de 2025, com 19% contra 18% da concorrente sul-coreana.
Coincidência? Eu acho que não.
Na Amazon, o iPhone 16e se posicionou como um dos celulares mais vendidos da plataforma, competindo de igual para igual com os flagships mais caros.
Isso mostrou que existia uma demanda reprimida gigantesca por um iPhone moderno e “acessível” – demanda que a Apple havia ignorado solenemente durante anos.
Diante desses números, qualquer empresa com dois neurônios funcionando perceberia que encontrou uma mina de ouro.
E a Apple, que ocasionalmente demonstra ter mais de dois neurônios com Tim Cook no comando (mesmo com todo o caos que virou a Siri e a Apple Intelligence), ao que tudo indica decidiu explorar esse filão de mercado com tudo.
O iPhone 17e, segundo Gurman, seguirá a mesma filosofia do 16e: hardware moderno, preço relativamente acessível e lançamento anual. Chegou ao fim essa palhaçada de esperar dois ou três anos entre atualizações.
O dispositivo manterá o mesmo design e tela OLED do modelo atual, mas incorporará o chip A19 para acompanhar a próxima geração.
Os fornecedores de telas continuarão sendo BOE e Samsung, com a LG Display como possível terceiro player – e essa informação foi confirmada pela mídia coreana The Elec.
Isso garante que a Apple terá capacidade de produção suficiente para atender a demanda, que promete ser alta.
Planos ainda mais ambiciosos

O analista Ming-Chi Kuo, que tem uma precisão assustadora quando se trata de prever os movimentos da empresa, aponta que os planos da Apple são ainda mais grandiosos.
O iPhone 18e estaria previsto para a primavera de 2027, coincidindo com uma estratégia de lançamento dividida onde os modelos padrão e básico serão apresentados seis meses após os Pro.
A estratégia representa uma mudança fundamental na abordagem da Apple.
Historicamente, a empresa sempre priorizou os modelos mais caros, deixando as opções “baratas” como uma reflexão tardia.
Agora, parece que finalmente entendeu que há dinheiro real a ser feito no segmento mais acessível.
A mudança é tão radical que pode estar sinalizando uma transformação ainda maior na filosofia da empresa.
Se antes a Apple era a empresa dos produtos super premium para poucos, agora ela está claramente mirando uma base de consumidores mais ampla, sem abrir mão da qualidade que sempre foi sua marca registrada.
Ou seja, agora a classe média e, pasmem, até mesmo o pobre pode ter um iPhone que presta.
Tá, estou exagerando aqui…
O que vem por aí no ecossistema da Apple?

O iPhone 17e não será o único protagonista do primeiro semestre de 2026.
Gurman revela que a Apple está planejando um lançamento massivo, que inclui uma reformulação quase completa de sua linha de produtos.
Novos iPads e iPad Airs básicos com chips M4 estão a caminho, prometendo levar o desempenho dos tablets da Apple para um novo patamar.
Os MacBook Pro e Air também receberão atualizações, provavelmente com os novos chips da série M5.
Mais interessante ainda é a promessa de um novo monitor externo para Macs. A Apple tem uma relação complicada com monitores – o Pro Display XDR custa mais que um carro usado, e as opções mais acessíveis são praticamente inexistentes. Um monitor intermediário poderia preencher essa lacuna gigantesca no catálogo da empresa.
Tudo isso tem como principal objetivo revitalizar as vendas após um período de demanda irregular.
A Apple percebeu que não pode mais depender apenas dos early adopters e dos fanáticos dispostos a pagar qualquer preço pelos produtos mais recentes.
Precisa conquistar o mercado mainstream, e isso significa oferecer opções para diferentes orçamentos.
Toda essa mudança de estratégia da Apple não aconteceu no vácuo. Vários fatores convergiram para tornar essa abordagem não apenas viável, mas necessária.
Primeiro, a maturidade do mercado de smartphones.
As inovações revolucionárias estão ficando cada vez mais raras, e a diferença entre um chip A18 e um A19 não será tão perceptível para o usuário médio.
Isso significa que a Apple pode oferecer chips de “geração anterior” sem comprometer significativamente a experiência do usuário.
Segundo, a pressão competitiva.
Fabricantes chineses como Xiaomi, OnePlus e Realme estão oferecendo smartphones com especificações impressionantes por preços cada vez mais baixos.
A Apple não pode mais ignorar esse movimento e precisa competir em diferentes faixas de preço.
Terceiro, a importância crescente dos serviços.
A Apple ganha muito dinheiro com App Store, Apple Music, iCloud e outros serviços. Quanto mais pessoas têm iPhones, mais dinheiro a empresa ganha com esses serviços recorrentes.
Faz sentido sacrificar um pouco da margem de lucro do hardware para expandir a base de usuários.
O impacto na concorrência

A decisão da Apple de levar a sério o segmento de entrada deve dar pesadelos aos concorrentes.
Se a empresa conseguir manter a qualidade e confiabilidade que sempre caracterizaram seus produtos, mas com preços mais acessíveis, fabricantes como Samsung, Google e os chineses terão que repensar suas estratégias.
O Android sempre teve como principal vantagem a variedade de opções de preço. Se a Apple conseguir cobrir efetivamente as faixas de preço intermediárias, essa vantagem pode ser significativamente reduzida.
Especialmente considerando que o iPhone tradicionalmente retém valor melhor que os concorrentes Android.
Claro que não é tudo flores nessa nova estratégia. A Apple terá que lidar com vários desafios para fazer essa abordagem funcionar a longo prazo.
O primeiro é a canibalização.
Se o iPhone 17e for bom demais, pode acabar roubando vendas dos modelos mais caros. A empresa precisa encontrar o equilíbrio certo entre oferecer valor suficiente para justificar a compra, mas não tanto a ponto de tornar os modelos Pro irrelevantes.
O segundo é a pressão nas margens de lucro.
A Apple sempre teve margens de lucro invejáveis, mas competir em preços mais baixos inevitavelmente significa aceitar margens menores.
A empresa terá que compensar isso com volume de vendas e receita de serviços.
O terceiro é a complexidade operacional.
Manter ciclos de lançamento anuais para múltiplas linhas de produtos é muito mais complexo do que a estratégia anterior. A Apple terá que provar que consegue executar isso sem comprometer a qualidade.
A Apple finalmente entendeu?

Depois de anos fazendo malabarismos com o iPhone SE e deixando o mercado de entrada praticamente abandonado, a Apple finalmente descobriu que oferecer um iPhone moderno por um preço menos absurdo é uma boa ideia.
Olha só… quem diria…
Algo que qualquer paquiderme que se importa com o dinheiro suado que ganha no seu trabalho sabe.
E a Apple só levou algumas décadas para entender o mesmo (se é que entendeu)
O iPhone 17e representa não apenas a continuidade dessa estratégia, mas a consolidação de uma nova abordagem da Apple para o mercado de smartphones.
É a admissão de que a empresa não pode mais viver apenas dos consumidores dispostos a pagar preços premium, e que há dinheiro real a ser feito no segmento intermediário.
Se a Apple conseguir executar essa estratégia com sucesso, pode estar iniciando uma nova era de dominação no mercado de smartphones.
E se não conseguir?
Bem, pelo menos teremos tido alguns anos de iPhones “baratos” decentes antes de tudo voltar ao normal.
A verdadeira questão agora é se a Apple conseguirá manter essa consistência ou se voltará aos velhos hábitos de lançar produtos “quando der vontade”.
Considerando o sucesso estrondoso do iPhone 16e, apostaria que a empresa aprendeu a lição.
Mas é a Apple. Que é bem teimosa quando quer ser.
Então, nunca se sabe.

